Nem branca nem negra, aqui a área é cinza

Na Cidade do Cabo, bairros que no apartheid eram frequentados por todas as raças recebiam essa classificação. Hoje são um outro modo de visitar o destino, famoso por pontos como a Table Mountain

João Fellet, ESPECIAL PARA O ESTADO, CIDADE DO CABO

25 Maio 2010 | 01h54

Salada cultural. O Old Biscuit Mill, mercado nos galpões de uma antiga fábrica de biscoitos, tem cafés, lojas, barraquinhas de restaurantes e feiras de roupas. Foto: João Fellet/AE

 

Na Cidade do Cabo, muitos turistas se restringem a ver bairros que, embora agradáveis e bem policiados, mostram apenas uma de suas facetas, a rica e organizada. O circuito básico nesta parte da África do Sul inclui o Victoria & Albert Waterfront - conglomerado de shopping centers, mercados e restaurantes -, a Table Mountain, montanha que virou símbolo da cidade, e o Cabo da Boa Esperança, encontro dos oceanos Índico e Atlântico. Mas, para um programa diferente, experimente visitar Woodstock e Observatory, bairros próximos do centro.

A singularidade desses bairros vem dos anos do apartheid. Enquanto a cidade se dividia em áreas brancas, negras, mestiças ou indianas, os dois ganharam uma classificação especial: áreas cinzas, onde pessoas de todas as cores podiam morar.

Após o fim do regime segregacionista, mantiveram a fama de alternativos e, nos últimos anos, têm recebido investimentos para a preservação de seu patrimônio arquitetônico. Cada um descobriu uma vocação: Observatory tornou-se bairro estudantil, com vida noturna agitada, e Woodstock transformou armazéns em centros comerciais e ganhou galerias de arte.

Boa parte dos moradores desses bairros descende de escravos provenientes do Sudeste Asiático, levados pela Companhia Holandesa das Índias Orientais à África do Sul no século 17. Atualmente, esse grupo corresponde a quase metade da população da Cidade do Cabo, ante 31% de negros e 19% de brancos.

Em Woodstock, muitos integrantes dessa comunidade desfilam com as cabeças cobertas, sinal de que preservaram a religião dos antepassados, o islamismo. No entanto, como já ocorria durante o apartheid, também há espaço no bairro para gente de outros credos e cores. Essa salada étnica e cultural pode ser testemunhada no Old Biscuit Mill (373 Albert Road), enorme mercado montado nos galpões de uma antiga fábrica de biscoitos.

O charmoso complexo tem cafés, lojas de cerâmica e de joias e feira de roupas. Nas manhãs de sábado, ganha o reforço de dezenas de restaurantes, que montam barraquinhas para servir versões rápidas de seus pratos. O mercado fica cheio, com rodinhas de amigos sentados no pátio central, muitos com copos de cerveja e sanduíches às mãos.

Perto dali, elegantes casarões vitorianos dividem espaço com muros grafitados, lanchonetes populares e galerias de arte.

O bairro estudantil. Em Observatory, a paisagem muda. Batizado assim por abrigar um observatório astronômico, o bairro se moldou a seu público principal, estudantes da Universidade da Cidade do Cabo, nos arredores. Na Lower Main Road, não faltam bares e restaurantes: o Pancho"s é mexicano; o Masa Buka, grego; o Diva, italiano; e o Taste of Asia, asiático. O Quilombo, um restaurante brasileiro, serve pastel, feijoada e polenta. À noite, alguns têm música ao vivo.

Bares e restaurantes se intercalam com livrarias, lojas de alimentos orgânicos e de objetos de segunda mão. Numa delas, a Munro"s (131 Lower Main Road), estão peças de artesanato tribal bem mais curiosas do que as onipresentes girafas de madeira.

Balada longa. Mas, se a ideia for balada, dirija-se à Long Street, no centro. Uma das ruas mais antigas da Cidade do Cabo, não ganhou esse nome à toa: era a via mais longa do centro, com 3,8 quilômetros. Diferentemente do que ocorreu com a zona central de Johannesburgo, que se deteriorou nas últimas décadas, a Long Street se manteve vibrante. O burburinho começa ao entardecer, quando sul-africanos de todas as cores encontram os amigos para jantar, beber ou cair na noite. Alguns fazem os três. Veja ao lado endereços interessantes e experimente você também essa Cidade do Cabo.    

 

       

PARA INCLUIR NO ROTEIRO

 

 

Céu azul, oceano em tons verde e ondas se chocando contra rochedos de um enorme paredão, que se eleva 1.087 acima do nível do mar. Parece pintura, mas estamos falando da Table Mountain, um dos cenários mais incríveis da Cidade do Cabo. A cadeia de montanhas é formada de arenito e xisto, depositados ali há 700 milhões de anos.

 

Foto: Mary Alexander, MediaClubSouthAfrica.com      

 

 

 

 

 

 

 

 

Oito jogos da Copa, incluindo uma semifinal, serão disputados no Green Point Stadium, a 200 m da orla de Cidade do Cabo. A localização o torna especial: está às margens do Oceano Atlântico com a Table Mountain ao fundo. Com capacidade para 70 mil pessoas, o estádio custou US$ 386 milhões. Após o Mundial, sediará grandes eventos.

 

Foto: Rodger Bosch, MediaClubSouthAfrica.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais de 200 km entre o Oceano Índico e montanhas, com lagos, baías e flora variada. A leste da Cidade do Cabo, a Rota Jardim passa por praias douradas e por lugares como o Parque Tsitsikamma, com árvores gigantes e trilhas. Na entrada, está um cânion de 216 m de profundidade, é o maior bungee jump do mundo.  

 

Foto: Rodger Bosch, MediaClubSouthAfrica.com

 

 

 

 

 

 

NA LONG STREET

Cape to Cuba

Ritmos latinos e coquetéis - nº 227

Dubliner Irish Pub

Shows de jazz com cerveja - nº 251

Long Street Cafe Bar com mesinhas na calçada - nº 259

Royale Eatery

Restaurante especializado em hambúrguer - nº 273

Zula e Marvel

Casas noturnas com programação que inclui funk, rock, eletrônica e hip hop - nº 196 e nº 236

 

Mais conteúdo sobre:
Cidade do Cabo África do Sul

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.