Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Ninguém sentiu a minha falta (e que bom!)

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Gilberto Amêndola, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 05h11

O mundo não para durante o meu período de férias. Uma pena. Como jornalista, gostaria que os acontecimentos mais caudalosos entrassem em uma espécie de cabine criogênica e ficassem lá repousando – e esperando para eclodirem tão logo eu me aboletasse novamente na minha mesa de trabalho (depois das boas-vindas, das histórias de viagem, de uma limpeza desleixada da caixa de e-mails e da distribuição dos chocolatinhos comprados no free shop).

Não foi o que aconteceu desta vez. Estava eu tomando drinques com nomes complicados, tirando selfies para o meu perfil no Tinder e me empanturrando de comida quando o meu mundo profissional decidiu acenar com a mão: tinha sido decretada a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

(Calma, gente! Ninguém precisa bancar o louco. Guardem as facas na gaveta da cozinha. Essa não é uma coluna de política e não me interessa saber se você é contra ou a favor desse ou daquele candidato ou partido. Estamos, combinados?).

Um fato histórico desse tamanho, com essa relevância, e eu bancando o bonito em Nova York. Tive sentimentos contraditórios. Uma mistura de alívio, frustração e culpa. Alívio por escapar do perrengue e da pressão que envolvem uma cobertura dessas; frustração por perder a oportunidade de participar de algo que estará nos livros de história; e, claro, culpa por ver meus colegas passando pelos perrengues mais surreais (incluindo agressões físicas).

Então colocou-se a questão: fazer o quê? Bancar o maluco e voltar correndo? Buscar entrevistados no exterior? Ocupar minha cabeça com a culpa por essa sorte/azar de ter “escapado” de tamanha encrenca.

Fui acompanhando os desdobramentos pelas matérias dos colegas e repercussões nas redes sociais. Cada clique era um susto. Cada atualização, um frio na barriga. O Brasil, de longe, parece um quadro do Kandinsky. Ficaria bonito exposto no MoMA, mas seria abstrato demais para ser explicado aos não iniciados.

Confesso que a cada foto postada no Instagram me vinha a imagem da atriz e modelo Nana Gouvêa. Sim, a própria, aquela que certa vez tirou uma série de selfies após a passagem do furacão Sandy em Nova York. Meus dias de bon vivant estavam fora de sincronia com os fatos. 

Mas, apesar de tudo, continuei minhas férias. Prossegui tomando drinques de nomes complicados e tirando fotos para melhorar o meu perfil fracassado no Tinder (sim, e me sentindo meio Nana Gouvêa ). E o que aconteceu? Nada. O mundo não parou, o jornal não deixou de sair e ninguém sentiu minha falta. Outra vez: ninguém sentiu minha falta! 

Ninguém sentiu minha falta e isso é ótimo. 

Viajar é aprender essa lição. É saber que você não é o centro do universo, que as coisas respiram, pulsam e explodem sem você por perto. É aprender, com humildade, o nosso tamanho diante de todo o resto. As férias servem para lembrar que você é apenas um cisco no olho de um furacão. Só isso. E que bom que é assim. A culpa por estar “distante” também era vaidade. Pois é, o “mundo gira e a lusitana roda” sem que, necessariamente, a gente esteja dirigindo (ou pelo menos pegando uma carona) no caminhão.

Voltei para casa no dia certo. Retomei as atividades profissionais na data marcada. Meu cachorro, o Pitoco, me sorriu latindo. Saí para passear com ele hoje de manhã. Mijou nos mesmos postes de sempre. O mundo parece que está acabando. Vou tomar um sorvete e fazer o meu melhor. Até as minhas próximas férias.

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