Armando Fávaro/Estadão
Armando Fávaro/Estadão

Armênia surpreende com legado histórico 100 anos após genocídio

Da igreja mais antiga ao suposto pedaço da Arca de Noé, das ruínas romanas ao primeiro sapato do mundo, país encanta seus visitantes

Renata Tranches / Textos, Armando Fávaro / Fotos, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2015 | 12h28

VAGHARSHAPAT - Episódios de luta, resistência e superação materializados em memórias. Centenas de igrejas e monastérios a comprovar que a forte religiosidade é marca decisiva deste que é um dos povos mais antigos do planeta. Uma lembrança dura e ainda muito presente: o massacre que quase dizimou a população e completou, em abril, 100 anos. 

Tudo isso é história, e a história esteve presente em cada passo de uma viagem de sete dias pela Armênia. O objetivo era descobrir o país que emergiu do traumático episódio de assassinatos em massa patrocinado pelo Império Otomano durante a 1.ª Guerra Mundial, em 1915. A atual Turquia ainda nega o genocídio.

Parece triste? Esqueça tal imagem: as paisagens montanhosas desse território de 29.743 quilômetros quadrados no sul do Cáucaso, pouco maior que Alagoas, são encantadoras. Encravado entre Turquia, Geórgia, Azerbaijão e Irã, o país está na Eurásia, área de transição entre os dois continentes. E guarda preciosidades como escavações arqueológicas que revelaram o primeiro calçado de que se tem notícia.

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O espanhol impecável da guia Varsenik Avagyan vem ganhando acréscimo de algumas palavras em português, aprendidas com os turistas do Brasil que, segundo ela, chegam em número crescente. Ela conta que os grupos incluem na mesma viagem países vizinhos, como Geórgia, Azerbaijão e Irã. Com a Turquia, o combo é mais difícil, já que os dois países não mantêm relações bilaterais. A Armênia tem visto o número de turistas crescer nos últimos anos: em 2014, foram 1,2 milhão de estrangeiros, 11% a mais que no ano anterior.

Rota de fé. Logo fica claro a força que a religião tem na Armênia. O país ostenta com orgulho o título de primeira nação a declarar o cristianismo como religião de Estado, no ano de 301, pelo rei Tiridates III, quase 80 anos antes de Roma. O cristianismo foi difundido por dois discípulos de Jesus, Tadeu e Bartolomeu. Martirizados como os primeiros “iluminadores”, eles são considerados os fundadores da igreja armênia, por esse motivo chamada de apostólica.

A 20 quilômetros da capital do país, Erivan, a cidade de Vagharshapat abriga a sede da igreja armênia, Etchmiadzin. A sagrada catedral, provavelmente primeira igreja erguida na Armênia, é do ano de 303 e foi encomendada por seu primeiro patriarca, Gregório, o Iluminador. Patriarcas são os líderes espirituais dos armênios – o atual, Karekin II, celebra missas lotadas na Etchmiadzin aos domingos.

Vá com tempo para mais que uma oração. O complexo abriga quatro importantes museus, onde estão as obras mais significativas da igreja armênia e dos primórdios da fé cristã.

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MARCAS DO PASSADO

Durante todo o ano de 2015, a capital Erivan está repleta de referências ao genocídio ocorrido durante a 1.ª Guerra Mundial. Sob o domínio do Império Otomano e do governo do partido Jovens Turcos, mais da metade da população armênia foi dizimada – um total de 1,5 milhão de pessoas mortas, mais as grandes perdas territoriais.

Entre cartazes, outdoors e banners, são inúmeras citações ao centenário do episódio que marcou e determinou o curso da história do país. A maior referência, porém, é o próprio complexo Memorial Armênio do Genocídio (grátis) dedicado às vítimas.

Localizado na colina de Tsitsernakaberd, tem em seu exterior a Chama Eterna, onde os visitantes deixam flores em homenagens às vítimas. Foi ali que se reuniram em cerimônia vários líderes mundiais, em 24 de abril, para lembrar o genocídio. No percurso, canteiros exibem pinheiros plantados por autoridades que já visitaram o memorial, como o papa João Paulo II (1920-2005) e o ex-presidente francês Jacques Chirac. 

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Dentro do memorial, um rico acervo de fotografias e documentos compõe um impressionante painel narrativo do massacre, que a Armênia luta para que a comunidade internacional reconheça como o primeiro genocídio do século 20 (pouco mais de 20 países aceitam a versão armênia e o Brasil não está entre eles). A Turquia reconhece a matança, mas não como um genocídio. 

Graças ao missionário alemão Armim Wegner, que conseguiu esconder os filmes de sua câmera fotográfica, há muitas imagens. As fotografias chocam especialmente pela crueldade que as forças do Império Otomano reservou a mulheres e crianças.

Em um telegrama de setembro de 1915, o então ministro do Interior do Império Otomano, Talaat, lembra ao governo da província de Alepo: “Você já foi advertido de que o governo, pela ordem de Djemiet (Partido dos Jovens Turcos), decidiu destruir completamente todas as pessoas indicadas vivendo na Turquia. Aqueles que se opuserem a essa decisão e comando não poderão permanecer trabalhando para o império”. 

A Turquia sustenta a versão de que as mortes de armênios durante a 1.ª Guerra Mundial resultaram do realocamento realizado por “precaução militar”. “A perda de armênios foi imensa durante essa realocação em razão das epidemias, escassez de alimentos, condições climáticas, o que a Turquia nunca hesitou em reconhecer”, afirma Ancara, de acordo com posição oficial. 

Os jornalistas viajaram a convite do governo da Armênia.

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