Viagem

No Chile, um roteiro nos passos de Pablo Neruda

Em Santiago, Valparaíso e na Isla Negra, repórter visitou as casas de Pablo Neruda e descobriu, em meio ao legado do escritor, a poesia nas paisagens, na hospitalidade e nas taças de vinho

13/06/2017 | 05h00

Edison Veiga - SANTIAGO / O Estado de S.Paulo

Casa de Pablo Neruda em Isla Negra, onde estão sepultados os corpos do poeta e de sua última mulher, Matilde Urrutia. 

Casa de Pablo Neruda em Isla Negra, onde estão sepultados os corpos do poeta e de sua última mulher, Matilde Urrutia.  Foto: Eliseo Fernandez/Reuters

“O outono não parece esperar/ que alguma coisa aconteça?”, “Por que os imensos aviões/ não passeiam com seus filhos?” Botei sete dias e o Livro das Perguntas na mochila e embarquei atrás das respostas no Chile de Pablo Neruda (1904-1973). 

Entre taças de vinho, cores da natureza e cores de artistas, orlas do Pacífico e gentilezas, a poesia de Neruda existe vívida, pode ser respirada. A ponto de querer – o turista forasteiro e, quiçá, o cidadão chileno também – prorrogar ao máximo o fugaz tempo. “Por que a quinta-feira/ não aceita vir depois da sexta?”, “Por que não nos deram extensos/ meses que durassem todo o ano?”

“Há coisa mais boba na vida/ do que chamar-se Pablo Neruda?”, pensava diuturnamente. A viagem, o roteiro e os cenários, posso até contar aqui. O vivenciado é aquele segredo que une cada viajante a todo poeta: é preciso sentir para saber. 

Há coisa mais boba na vida do que chamar-se Pablo Neruda?

Casas. São três as residências do poeta que, convertidas em museus, são administradas pela Fundação Pablo Neruda. Os tíquetes de entrada custam 7.000 pesos (R$ 34) por pessoa em cada uma delas – inclui audioguia, disponível também em português. As casas funcionam de terça-feira a domingo. Não é possível comprar ingressos antecipadamente, mas em nenhuma de minhas visitas precisei esperar mais do que cinco minutos na fila. 

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A primeira que conheci foi a de Valparaíso. Neruda dizia estar cansado de Santiago e buscava “uma casinha para viver e escrever tranquilo”. “Não pode estar nem muito acima, nem muito abaixo, deve ser solitária, mas não é em excesso. Vizinhos, oxalá invisíveis. Não devem ser vistos nem escutados”, exigia ele. Duas amigas encontraram uma construção que parecia perfeita, obra inacabada do arquiteto espanhol Sebastián Collado – por isso, Neruda batizaria a casa de La Sebastiana. A casa foi comprada em 1959, concluída e inaugurada em 1961 com uma festa memorável.

No mesmo dia, fui até a casa de Isla Negra. O bucólico local, às margens do Pacífico, foi encontrado pelo poeta em 1937, quando ele buscava um lugar para se dedicar à sua obra Canto Geral. Era uma pequena cabana de pedra, de um marinheiro espanhol chamado Eladio Sobrinho. Neruda a comprou no ano seguinte. Em 1943, contratou um arquiteto catalão, Germán Rodriguez Arias, para realizar a primeira de uma série de ampliações. Nos anos 1960, mais obras. “A casa foi crescendo, como a gente, com as árvores...”, comentaria ele, mais tarde.

Dois dias depois, em Santiago, conheci a La Chascona – algo como “a despenteada” –, batizada assim em homenagem a sua terceira e última mulher, Matilde Urrutia (1912-1985). A casa começou a ser construída em 1953, quando o romance entre ambos era secreto. Encarregou-se da obra o mesmo catalão Arias, da casa de Isla Negra. Apenas em 1955, Neruda se separou de Delia del Carril e passou a morar com Matilde. 

Como ir: 

- Aéreo: voo São Paulo– Santiago–São Paulo desde R$ 819 na Latam (latam.com/pt_br) e R$ 864 na Aerolíneas (aerolineas.com.ar/pt-br).  

- Ônibus: a Tur Bus opera ônibus entre Santiago, Valparaíso e Isla Negra, entre 3 mil e 5 mil pesos (R$ 14 a R$ 25) por trecho: horariodebuses.cl/tur-bus.html.

Curiosidades:

-  O livro O carteiro e o poeta, ficção do chileno Antonio Skármeta, conta a história da amizade entre Neruda e Mario Jiménez, seu carteiro em Isla Negra. A versão para o cinema, dirigida por Michael Radford, é ambientada na Itália.

- Neruda gostava de receber amigos. Suas casas contavam com bares completos. Apreciador de brincadeiras, tinha um saleiro e um pimenteiro com as inscrições de "morfina" e "maconha". Réplicas estão à venda nas lojinhas das casas-museu.

Casablanca: vinhedos e degustações

"Como conheceram as uvas / a propaganda dos cachos?”

Vista geral da vinícola Matetic, onde fica também o hotel La Casona.

Vista geral da vinícola Matetic, onde fica também o hotel La Casona. Foto: Mariana Veiga/Estadão

A primeira parada foi na vinícola Matetic, entre as cidades de Casablanca e San Antonio. Trata-se de um empreendimento recente se comparado aos tradicionais produtores de vinho: foi criado em 1999 e entrou no mercado três anos depois. 

A vinícola tem suas bandeiras. Sua produção, além de 100% orgânica, é biodinâmica. Isso significa que há um mínimo de intervenção artificial nos processos. A colheita é completamente manual e bastante restrita. Alguns animais, como lhamas, são mantidos na propriedade para ajudar na limpeza e fertilização naturais. 

“Com que direito numeraram / as doze uvas do cacho?” Para vivenciar plenamente a experiência, hospedei-me no La Casona, o hotel que funciona na propriedade. Tudo estava incluído, portanto, em minha diária: dois tours diferentes pela propriedade; café da manhã, almoço e jantar; visita guiada ao processo de produção de vinhos; e uma saborosa degustação, é claro. 

Era abril, tempo de colheita que pude observar pelos corredores de parreiras, e a paisagem já começava a se preparar para o frio. “O que ainda paga o outono/ com tanta nota amarela?”, “Me diga, a rosa está nua ou tem apenas esse vestido?”, “Por que se suicidam as folhas/ quando se sentem amarelas?” 

Para os passeios, podia escolher entre van, cavalo, bicicleta ou caminhada. Em ambos, fui de bicicleta – em cada trecho, de terra mas com relevo praticamente plano, percorri cerca de 10 quilômetros. “Quem trabalha mais na terra, / o homem ou sol agrícola?”, “Como ganhou sua liberdade / a bicicleta abandonada?” Diária com pensão completa e passeios a US$ 310 por pessoa em quarto duplo: matetic.com.

Valparaíso: na subida do morro

"Quem gritou de alegria quando nasceu a cor azul?”

Uma das muitas escadarias coloridas coloridas por grafites em Valparaiso.

Uma das muitas escadarias coloridas coloridas por grafites em Valparaiso. Foto: Mariana Veiga/Estadão

De um lado, 42 morros; de outro, o Oceano Pacífico. No meio, um filete de terra plana, quase uma rima plástica com o próprio Chile, portanto. Valparaíso, antiga cidade fundada em 1544, viveu seu auge no século 19 – a inauguração do Canal do Panamá, em 1914, tirou boa parte da importância de seu porto. “Ontem, ontem, disse a meus olhos, / quando voltaremos a ver-nos? / E quando a paisagem muda, / são tuas mãos ou são tuas luvas?”

O charme da cidade, mais do que na decadência, está em seus morros. Para subir até eles – e percorrê-los a pé –, vale tomar os ascensores: são 15 funiculares espalhados pela cidade, considerados monumento nacional, o mais antigo deles, Concepción, inaugurado em 1883.

Então é se entregar às cores. As ladeiras de Valparaíso, em paredes, muros e escadarias, são uma versão ampliada do Beco do Batman, reduto de grafiteiros de São Paulo. Não raras vezes, as casinhas dos morros também são coloridas – ao longo, portanto, a vista é de um mosaico.

Por falar em vista, boa mesmo a tinha Pablo Neruda. Sua casa de Valparaíso, batizada por ele de La Sebastiana, conta com privilegiado panorama da cidade e da orla do Pacífico. “Quando canta o azul da água / a que cheira o rumo do céu?”, “Quando vejo de novo o mar, / o mar me viu ou não me viu?”

Neruda andava cansado da vida em Santiago quando, no fim dos anos 1950, encontrou o imóvel de Valparaíso. Coube a ele contratar o término da construção. Quando a ocupou, o poeta, um colecionador obstinado, a encheu com seus cacarecos, principalmente os relacionados ao mar. Também é nessa casa que estão suas coleções de mapas antigos e peças curiosas como caixas de música. Os cinco andares têm amplas janelas – ele queria aproveitar a vista.

Viña del Mar: ondas a contemplar

"Quem pode convencer o mar para que seja razoável?”

Praia em Viña del Mar, cidade-balneário que fica ao lado de Valparaíso. 

Praia em Viña del Mar, cidade-balneário que fica ao lado de Valparaíso.  Foto: Edison Veiga/Estadão

Basta tomar o metrô para, de Valparaíso, conhecer Viña del Mar – a cidade balneário fica na conurbação da portuária, a cerca de 30 minutos de trem. Sua orla, apinhada de hotéis, lembra a uruguaia Punta del Este. As praias e o cassino, inaugurado em 1929 e um dos poucos em funcionamento no Chile, fazem Viña ser considerada a capital turística do país.

Em meu caso, bastava ver o mar. Se Neruda era o poeta do mar, aquele que escrevia como se fosse um timoneiro, aquele que vivia em casas cheias de elementos marítimos, aquele que fazia-se de comandante mas sempre em terra firme – raras vezes navegava; sou o turista que mais ama o mar na teoria do que na prática. Em geral, a caminhada contemplativa na orla me basta. 

“Serão seios de sereias / as conchas dos caracóis? / Ou são ondas petrificadas / ou jogo imóvel da espuma?” Eu pensava no Livro das Perguntas, mas algumas pedras tinham rabiscos, tentativas de versos contemporâneos, almas de Nerudas que habitam nos chilenos? “Por que me perguntam as ondas / o mesmo que lhes pergunto? E por que batem na rocha / com tanto vão entusiasmo? / Não cansam de repetir / sua declaração à areia?/ E para que tantas rugas / e tanto buraco na rocha?”

Isla Negra: a mais lúdica

"Que me esperava em Isla Negra? A verdade verde ou o recato?”"

A vista a partir da casa do escritor Pablo Neruda em Isla Negra. 

A vista a partir da casa do escritor Pablo Neruda em Isla Negra.  Foto: Edison Veiga/Estadão

“Cheguei de detrás do mar / e onde vou quando me atalha?” Pouco mais de 1 hora de ônibus separa Valparaíso de Isla Negra, região costeira de El Quisco. Apesar do nome, não é uma ilha. O batismo foi obra do próprio Neruda, de tanto observar as rochas escuras que podem ser avistadas no mar, a partir de sua casa. Do ponto de ônibus, na ruazinha principal da cidade, é preciso uma caminhada de cerca de 500 metros até a residência do poeta – parte, em uma ladeira de terra.

A mais lúdica das três casas de Neruda foi também a escolhida por ele para ser a última morada – no jardim estão sepultados tanto o poeta quanto sua terceira e última mulher, Matilde Urrutia. “A quem posso perguntar / o que vim fazer neste mundo? / Por que me movo sem querer, / por que não fico parado? / Por que vou sem rodas rodando, / sem penas nem asas voando, / e por que quis transmigrar / se meus ossos vivem no Chile?”

Espalham-se pelos cômodos as coleções: de conchas, de garrafas coloridas, de chapéus, de mascarones – no total, são 3,5 mil objetos expostos. Conta-se que Neruda gostava de ser acordado com o nascer do sol. Assim, a cama fica posicionada de modo que os primeiros raios do dia pudessem fazer cócegas em seus pés e ir subindo pelo seu corpo; quando o sol chegava à sua cabeça, era hora de se levantar. “Quem acorda o sol quando dorme / em sua cama abrasadora?” 

São muitas as referências a trens: da locomotiva exposta no jardim à própria maneira como os cômodos são encadeados, tais e quais vagões; o pai de Neruda era ferroviário. “Há alguma coisa mais triste no mundo / que um trem imóvel na chuva?”, “Morreram talvez de vergonha / este trens que se extraviaram?”, “Lançam fumo, fogo e vapor / as ou das locomotivas?”, “E o pai que vive nos sonhos / volta a morrer quando despertas?” Do extenso quintal da casa, a vista do mar é das mais deslumbrantes. “E o mar não está emprestado/ à terra por curto prazo? / Não teremos que devolvê-lo / com suas marés à lua?”

Apesar de certamente o ponto alto e a própria razão turística de Isla Negra ser a casa do poeta, há ainda a curiosa casa-instalação-espaço-cênico La Nave Imaginaria. A construção parece um estranho barco multicolorido onde o “capitão”, o artista que ali mora, conduz a um criativo percurso teatral instigante para adultos e crianças. 

Infelizmente, deparei-me com um aviso afixado na porta de que o barco não estava navegando. Segundo informações, um novo espetáculo tem previsão de entrar em cartaz apenas em setembro. “Quantas semanas tem um dia / e quantos anos tem um mês?”

Santiago: do alto dos cerros

"Chega o outono legalmente ou é uma estação clandestina?”

Mirante no alto do Cerro San Cristóbal, em Santiago. 

Mirante no alto do Cerro San Cristóbal, em Santiago.  Foto: Edison Veiga/Estadão

Faltava Santiago, a capital do País. Foi a minha última parada na poética semana chilena. O outono estava presente na coloração das árvores, nas roupas das pessoas, no friozinho matinal e, principalmente, na linda tonalidade que o ar reservava para os dias. “Devo escolher esta manhã / entre o mar desnudo e o céu?”

Opções gastronômicas têm se destacado em Santiago, cuja região metropolitana já soma quase 7 milhões de habitantes. Experimentei o estrelado Boragó (borago.cl), em Vitacura; confesso que esperava mais: ao contrário de outros restaurantes contemporâneos de ponta, como o brasileiro D.O.M., o finado dinamarquês Noma, o argentino El Baqueano e o russo White Rabbit, ali o conceitual parecia exageradamente sobreposto ao frugal, ao sabor. Fiquei com a impressão de que a forma, belíssima, não se adequava ao conteúdo; como um poema de pouco significado, uma armação de arame sem enchimento. “Para quem sorri o arroz / com infinitos dentes brancos?”

Por outro lado, a região de Lastarria era farta como o bairro paulistano de Pinheiros. Bastante movimentadas durante a noite, as ruas contam com barbearias hipsters, lojas de vinis, galerias de arte e muitos bares e restaurantes. Uma boa dica é o Bocanáriz (bocanariz.cl), com farta seleção de vinhos nacionais. Outro bairro interessante pelos comes e bebes é Bellavista, aos pés do Cerro San Cristóbal. 

É preciso reservar tempo, aliás, para os cerros. Principalmente o San Cristóbal, ao qual é possível subir de funicular, circular de teleférico e curtir a deslumbrante vista de Santiago, com parte dos Andes ao fundo. Mas também o Santa Lucía, mais central, mais simples, um pouco intimista até. “Como se combina com os pássaros / a tradução de seus idiomas? / E depois saudar o ar / com tantas flores e cores?”

“Amor, amor, aquele e aquela / se já não são, para onde se foram?” Em Santiago fica La Chascona, a casa que Neruda construiu em 1953 para Matilde, quando ele ainda era casado com sua segunda mulher – e o romance dos dois, portanto, escondia-se na clandestinidade. Depois da morte de Neruda, em 1973, a casa foi completamente vandalizada – ele fazia oposição ao regime ditatorial de Augusto Pinochet. Hoje, além de ser um museu como as outras duas residências, o endereço também abriga a sede da Fundação Neruda: fundacionneruda.org.

Brincadeiras e interrogações do miniturista Chico

Aos 3 anos, Chico se divertiu correndo entre parreirais, encantou-se com as amalucadas casas do poeta e admirou os grafites

Chico, 3 anos, se diverte nos vinhedos da vinícola Matetic. 

Chico, 3 anos, se diverte nos vinhedos da vinícola Matetic.  Foto: Mariana Veiga/Estadão

“Por que andamos tanto tempo/ crescendo para nos separarmos?” Para este pequeno roteiro pela região central do Chile, tive mais uma vez a companhia de meu filho. Aos 3 anos, Chico se divertiu correndo entre parreirais, encantou-se com as amalucadas casas do poeta, admirou os grafites de Valparaíso e vibrou nos funiculares e teleféricos. 

O Chile é o 12.º país na coleção pessoal de Chico, talvez o primeiro do qual ele conseguirá se lembrar vivamente pela vida afora. “Onde está o menino que eu fui?/ Está dentro de mim ou se foi?”

A viagem com ele foi tranquila, instigante, e cheia de interrogações – mais ainda do que as do livro que eu levava sempre na mochila. Chico foi muito bem tratado mesmo em locais não adaptados a crianças. No restaurante Boragó, apesar de seu paladar não querer experimentar os pratos, o garçom logo notou que o pãozinho da entrada lhe apetecia e passou a noite repetindo para ele o serviço. Na vinícola Matetic, providenciaram uma bicicleta com cadeirinha para que pudesse passear em minha garupa. Lá, Chico era recebido com lápis de cor e uma taça – de plástico – com suco de uva a cada degustação.