No vale do absinto perfeito

Raios de sol perfuravam a floresta, iluminando a neblina rala do caminho à frente. Por mais de uma hora eu estivera caminhando na trilha montanhosa ascendente sem encontrar vivalma. Tinha a certeza de estar perdido, mas acabei avistando a placa para meu objetivo: La Fontaine Froide ficava pouco adiante.

EVAN RAIL / COUVET , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2014 | 02h06

A tal fonte fria não era a única razão por que eu viera a este minúsculo vale francófono no noroeste da Suíça, na fronteira com a província francesa de Franche-Comté. Sua água gelada, dizem, é ideal para diluir, ou "turvar", na expressão local, um copo de absinto, a bebida alcoólica tradicional da região. Destilado intenso, aromatizado com ervas poderosas, o absinto era a bebida preferida de impressionistas, poetas românticos e dos bons vivants da belle époque antes de ser proibido em toda a Europa, às vésperas da 1.ª Guerra Mundial.

Na Fontaine Froide supostamente deveria haver uma garrafa do produto, também chamado por ali de fée verte (fada verde), à espera para premiar quem sobrevivesse à caminhada montanha acima. Mas, ao lado da bacia escavada em um tronco na qual jorrava água de uma torneira coberta de musgo, apenas um marcador indicava os 1.126 metros. Nada da garrafa prometida.

"Você está no vale do absinto, no lugar onde ele nasceu", disse Claude-Alain Bugnon, destilador do La Clandestine e de outros absintos cultuados, depois que lhe contei sobre minha ida à fonte. A lição não dita: é uma tolice escalar durante horas em busca de algo tão onipresente como o absinto no Val-de-Travers, onde a bebida tem sido destilada há centenas de anos. Ainda assim, a longa caminhada pelos campos e florestas me deu uma apreciação da paisagem que havia produzido uma das bebidas mais celebradas - e aviltadas - do mundo. E, naturalmente, também ajudou a aumentar a minha sede.

Fim e começo. Essa sede havia sido instigada por um amigo de Praga que começou a oferecer degustações de absintos finos da França e da Suíça em um bar da capital checa. Apesar de os dois países terem banido a bebida há 100 anos, depois de um pânico generalizado sobre seus efeitos alucinógenos, a produção foi novamente legalizada na Suíça, em 2005, e na França, em 2011.

Depois da degustação, eu não conseguia parar de pensar na complexidade dos aromas de anis e na severidade das ervas amargas na língua. Descobri que algumas das versões mais apreciadas vinham do Val-de-Travers, e que a área chegava a ter algo chamado de rota do absinto: destilarias, museu, restaurantes e destinos como a Fontaine Froide. Decidi que tinha de ir à trilha do absinto franco-suíça.

A vista do Val-de-Travers deu um sabor da irregularidade remota da região. Montanhas cobertas de pinheiros se elevavam até as nuvens. Uma paisagem ideal, imaginei, para contrabandistas, com caminhos ocultos até altos platôs com vista para o vale, como o penhasco panorâmico Creux du Van. O contrabando foi uma das principais razões para o absinto ter voltado tão rapidamente à região depois de ser legalizado novamente. Com uma população de 10 mil habitantes, há agora mais de 20 destiladores de absinto legais em Val-de-Travers e muitos outros ilegais. "Essa é a principal diferença entre nós e os outros países", disse Bugnon em sua destilaria em Couvet. "Na Suíça, nós nunca paramos de produzir absinto. Ele foi proibido, mas esteve sempre aqui."

Centro das atenções. No dia seguinte, caminhei 40 minutos ao longo do Rio Areuse, desde meu hotel em Couvet até o vilarejo de Môtiers, ponto focal da produção atual: a principal marca de absinto, Kübler, e várias outras destilarias estão ali.

Foi depois do Iluminismo do século 18 que o absinto começou a ser produzido no Val-de-Travers, contou Christophe Racine, antigo contrabandista e hoje destilador legal do La Fine. Explicou que a losna (ou absinto) foi um produto agrícola importante para o Val-de-Travers. E mostrou a diferença entre a losna farmacêutica, inodora, e as sementes secas da planta, que encheram a sala de um aroma floral.

Fui jantar no Les Six Communes, um dos melhores restaurantes locais, que oferece uma dezena de absintos raros para harmonizar com pratos substanciais de carne de caça e bovina. Placas de destilarias se multiplicam na histórica rua principal de Môtiers, cujas casas de madeira e praças públicas parecem intocadas desde quando Jean-Jacques Rousseau buscou refúgio aqui depois da indignação provocada pela publicação de seu livro Emile ou Da Educação, em 1762. Pouco adiante da antiga casa de Rousseau está La Maison de l'Absinthe, museu, loja e espaço de degustação.

Antes de deixar Môtiers, Racine ofereceu uma especialidade local, o café briquette: expresso batizado com uma dose de absinto. O amargor da losna acentuava o do café; e descobri que o efeito estimulante do absinto combinado com um toque de cafeína era o combustível ideal para uma longa caminhada para casa. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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