Viagem

Noronha: objeto de desejo

Não chega a ser uma pechincha, mas de abril a junho tudo na ilha entra em promoção, com descontos de até 30% em passeios, passagem e hotéis

27/04/2015 | 23h55

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

Se ao avistar estas terras Américo Vespúcio proclamou que “o paraíso é aqui”, quem sou eu para discordar? Pelos idos de 1503 já planavam atobás e fragatas pelas 20 ilhas e ilhotas do arquipélago vulcânico encravado a 540 quilômetros da costa. Golfinhos serpenteavam, tubarões farejavam cardumes de sardinhas sob as arrebentações e tartarugas punham seus ovos em praias que nem sequer tinham nome. Tudo isso continua a se passar diariamente, mas, hoje, este lugar é destino cobiçado por turistas. Difícil explicar o que só Fernando de Noronha tem. 

Noronha é sonho, e sonho não tem lógica, tem intensidade. Na vista do pôr do sol no mirante do Boldró, no cheiro de maresia, no ruído das aves, no sabor do peixe na folha de bananeira, na textura das areias. Intensa na história de seus dez fortes, hoje em ruínas, e na delicada Vila dos Remédios. Ah, e no bolso. Assim como a energia pulsante da ilha, os preços têm um coeficiente multiplicador – e talvez por isso mesmo se mantenha ilhada no oceano idílico das férias do brasileiro.

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A ilha é cara, mas há alguma lógica. Além de poucas verduras, nada é produzido por lá. Do iogurte do café da manhã ao combustível do barco de mergulho, tudo navega por três dias ou voa do Recife e de Natal até o aeroporto mais oriental do País.

Nos últimos anos, a EcoNoronha, concessionária que administra a área do parque nacional, inaugurou os postos de informação e controle (PICs) e uma série de trilhas acessíveis, que permitem o acesso de cadeirantes aos mirantes do Sancho, da Baía dos Golfinhos e dos Porcos. Na praia do Sueste, há cadeiras adaptadas para que todos possam entrar na água com segurança.

Planeje-se. Qualquer amante da tríade areia, sol e mar perceberá que chegou no topo da cadeia alimentar praieira. Sancho foi eleita por internautas do TripAdvisor como a praia mais bonita do Brasil e do mundo em 2014. Mas, de certa forma, é injusto ranquear a beleza desta e de outras joias, como Praia do Leão, Cacimba do Padre e Baía dos Porcos, com seu visual clichê de Noronha. O morro Dois Irmãos emoldura postagens de Instagram dos felizardos que estão ali agora, enquanto você lê estas linhas.

Com planejamento e algumas economias dá para morder um naco de paraíso, como fizeram 76 mil visitantes em 2014. Para não ir à bancarrota, evite a alta temporada, de julho a março. Dezenas de pousadas, restaurantes e operadoras participam da campanha Mais Noronha e oferecem descontos de até 30% na baixa, entre abril e junho (a lista está em noronha.pe.gov.br). Tudo barateia, até passagens aéreas – aos fins de semana, é possível encontrar promoções com ida e volta de São Paulo por cerca de R$ 1 mil. 

O que não é negociável são os valores do ingresso do Parque Nacional Marinho (R$ 81 para brasileiros e R$ 162 para estrangeiros) e a taxa de preservação ambiental, R$ 298,84 por uma semana – se ousar passar um mês, a conta chega a R$ 3.976,50. 

A baixa temporada tem outras vantagens: menos gente circulando e grandes chances de ter uma praia só para você. As paisagens estão verdes, os melhores pontos de mergulho do Mar de Fora, como as Pedras Secas, ganham ótima visibilidade. E a cachoeira de 12 metros de altura na Praia do Sancho pode aparecer após a chuva. Igualmente curioso é descobrir que Fernão de Loronha, financiador da expedição de 1503 e dono da capitania hereditária, nunca esteve na ilha que leva seu nome. Não sabe o que perdeu.

Como zanzar e aproveitar os dias ao máximo

Demora pouco para perceber que, apesar de pequena, a ilha principal de Fernando de Noronha não é tão nanica assim. Mesmo com a segunda menor rodovia federal do Brasil, a BR-363, com apenas 7 quilômetros ligando o Porto de Santo Antônio à Baía do Sueste, a ilha é repleta de ladeiras e tem pouco acostamento para andar com segurança. A menos que seja adepto de longas caminhadas e não ligue para o sol de rachar, ir às famosas Praia do Sancho, Cacimba do Padre ou Praia do Leão é tarefa para algum veículo – nem que seja uma bicicleta. Conheça as principais maneiras de se locomover em Noronha.

A pé e de carona 

A maior parte das pousadas e restaurantes fica nos arredores do centro histórico da Vila dos Remédios e do bairro Floresta Nova. Dali, é possível caminhar por cerca de 20 minutos até as três praias mais acessíveis da ilha: Conceição, Praia do Meio e do Cachorro, interditada recentemente por problemas sanitários. Para rumar às outras praias, dá para tentar uma carona, algo comum na ilha. Mas é bom ter na manga um plano B.

Ônibus 

Com pontos bem sinalizados e abrigos confortáveis contra sol e chuva, andar de ônibus é uma ótima opção em Noronha – e o visitante se aproxima mais da rotina dos cerca de 4 mil moradores. Uma única linha une o Porto de Santo Antônio, o único da ilha, e a Praia do Sueste, no lado oposto. Funciona das 7 às 23 horas, custa R$ 3 e passa a cada 30 minutos. 

Bicicleta

No ano passado, as bicicletas elétricas foram novidade, boa alternativa trazida pela EcoNoronha. A ajudinha extra nas implacáveis ladeiras custa R$ 25 por 12 horas – disponíveis nos PICs (Postos de Informação e Controle) do Sancho e do Sueste. Se já for habitué das magrelas, alugue uma convencional: R$ 20 por 24 horas na Danylore Equipamentos (81-3619-1030). Até junho, o banco Itaú deve doar cerca de 60 bikes para uso livre de turistas e moradores, que serão espalhadas por vários postos da ilha. 

Táxi

A Nortax, Associação dos Taxistas de Noronha, tem preços tabelados por pontos de partida e destino. Por exemplo, uma corrida da Vila dos Remédios ao Sancho ou à Cacimba do Padre custa R$ 31. Ida ou volta do aeroporto, R$ 26. Chame por telefone: 81-3619-1314.

Buggy 

É um pouco absurdo locomover-se em uma reserva ecológica com um veículo individual movido a gasolina, mas é inegável que os buggies têm a alma de Noronha. E fazem os dias render: tudo parece mais perto e mais intenso. O aluguel na baixa temporada gira em torno de R$ 250 por dia – alcança absurdos R$ 600 no réveillon. A gasolina no único posto da ilha é a mais cara do Brasil: R$ 5,34 o litro.  Apesar de duros e munidos de barulhentos motores de Fusca que consomem cerca de um litro a cada cinco quilômetros, os buggies fazem parte da experiência Noronha. E não se esqueça: use o cinto, nunca dirija de chinelo e não beba, pois há fiscalização. E, se estiver com espaço, não custa nada oferecer uma carona.

COMO IR

Aéreo: SP – Fernando de Noronha – SP: a partir R$ 1.687 na Azul; R$ 3.019 na Gol. Recife – Fernando de Noronha – SP, a partir de R$ 695 na Gol e R$ 1.210 na Azul 

Taxas: antes de embarcar, pague a taxa de preservação pelo noronha.pe.gov.br – a confirmação pode levar até dois dias. Já o ingresso do parque nacional deve ser comprado na ilha, na sede do ICMBio ou na filal da Praça do Flamboyant