Lucy Nicholson/ Reuters
Lucy Nicholson/ Reuters

Notas sobre crianças e o mar

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2018 | 03h00

Eu amo o mar. Não como quem faz questão de ir a uma praia badalada no verão. Meu amor é ao mar por ele mesmo. A praia pode ser feinha, sem graça, de pedra, areia escura, urbana ou selvagem, lotada ou vazia, descolada ou cafona; não é ela, sou eu. Somos nós, eu e o mar. Morando aqui no planalto, um mês de saudade eu suporto. Seis semanas, já sinto a melancolia e a afoiteza dos relacionamentos à distância. Mesmo que seja inverno. 

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O primeiro réveillon à beira-mar do meu filho e sua primeira foto com os pezinhos entre as ondas foram com seis semanas de vida. Sempre dou um jeito de fazer as férias da família esbarrarem no mar. Para o feriado de Páscoa, estou paquerando Balneário Camboriú, pela combinação de praia e o parque Beto Carrero World. É quase garantia de viagem gostosa para todos nós. 

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Barcos são a minha definição mais perfeita de vida boa. Não há outro lugar em que me sinta tão feliz e relaxada. Dias atrás, no comecinho deste 2018, sugeri à turma que estava na praia comigo um passeio de barco pela Jureia, área de conservação natural no litoral sul paulista. Foi assim que descobri que mães e pais têm medo de navegar com seus bebês. Se acontece alguma coisa, disseram, não há como salvar um bebê. Uma observação prudente. Admito que eu nunca tinha nem sequer pensado nisso. Sou boa nadadora, o que é mais problema que solução: a gente se ilude que pode driblar os humores do mar numa eventualidade. Não pode

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A Marinha do Brasil não define idade mínima para crianças poderem navegar. Nem teria como definir: em cidades ribeirinhas da Amazônia, por exemplo, é de barco que se vai a toda parte, inclusive ao posto de saúde para as primeiras consultas do recém-nascido. Mas valem, para todo o País, regras de segurança: a embarcação precisa estar com a manutenção em dia, ser registrada na Capitania dos Portos e todos os passageiros devem usar os chatos e indispensáveis coletes salva-vidas (exija tudo isso nos seus passeios). No caso dos cruzeiros, cada armadora define sua política; a idade mínima para que o embarque do bebê seja aceito varia dos 4 aos 12 meses de vida. Sempre converse com o pediatra. 

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Meu filho passeia de barco desde pitico. Não tinha nem dois anos completos na primeira vez, em Paraty. Pulo do barco e o seguro no colo para ver peixes com máscara (ele ainda não se acertou com o snorkel) e nadar. Já andou de lancha, catamarã, voadeira, escuna

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Em cruzeiro ele ainda não esteve. Por minha culpa. Fiz vários, a trabalho; meu amor pelo mar se rebela contra a distância que os grandes navios impõem, contraditoriamente, entre o corpo e a água. O mar como mera paisagem não me serve. 

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Quanto mais a criança cresce, mais é preciso negociar nas viagens em família. Na minha, um tema de negociação frequente é a piscina. Eu não ligo para piscinas; a água confinada perde o encanto. Sim, elas são ótimas na cidade, nesse calorão que derrete nossos miolos e aquece nossos corações. Num hotel à beira-mar, no entanto, nem reparo nelas. Mas meu filho, sim. E aí, é preciso ceder. O nosso hotel em João Pessoa era um desses que tinha uma piscina tão grande e bonita que o menino quis passar uma manhã inteira nela. Para discreta frustração da mãe. Será que não vou conseguir transmitir a ele o meu amor incondicional pelo mar?

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Eu ia dizendo ali atrás que passamos este réveillon no litoral. Numa tarde na praia, depois de um picolé para cada um, entramos no mar decididos a ir “para o fundão”, como meu filho gosta de dizer – ou seja, água na altura do meu umbigo. Passamos mais de meia hora ali, mãos bem apertadas uma na outra, tomando caldo das ondas. Depois, saímos; enquanto caminhávamos até a nossa tolha, o pequeno disse, saltitante e ainda segurando a minha mão: “sabe, mamãe, é tão bom ser eu”. Acho que estou no caminho certo.

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Ao longo de 36 páginas ilustradas apenas em branco, preto e azul, a ilustradora sul-coreana Suzy Lee narra as brincadeiras, sustos e encantamentos de uma menina diante da força do mar. Onda, publicado pela primeira vez no Brasil em 2008, lança um olhar delicado sobre a forma como as crianças veem e interpretam o mundo. Uma obra linda – e não apenas (juro) porque tem o mar como protagonista. 

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