Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

'DETOX' DA ALMA: TURISMO EM BOTSUANA APOSTA EM LUXO NA NATUREZA SELVAGEM

Com hospedagens rústicas, mas luxuosas, e cenários que vão da selva úmida ao árido deserto, o país da África selvagem oferece uma perspectiva particular aos tradicionais safáris. Calibre os seus cinco sentidos e mergulhe na aventura

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h01

MAUN - Dumelang é a expressão africana para desejar a alguém um dia bom. Mas a palavra não pode ser apenas jogada no ar, como quem diz “oi” sem olhar nos olhos. Chega a nossos ouvidos – e, inexplicavelmente, à nossa alma – por meio de um canto afinado, seguido de um grito fino e feminino de celebração.

Foram incontáveis as vezes que ouvi a palavra durante os dez dias em que viajei pelo norte de Botsuana, país no sul da África que, além das línguas oficiais setsuano e inglês (fruto da colonização inglesa até 1966), ainda mantêm no repertório a comunicação tribal.

A linguagem, assim como cada detalhe da cultura e dos costumes, estão atrelados ao que o país tem de mais atrativo turisticamente: sua natureza. Compreender o que significava “um dia bom” exigiu, obrigatoriamente, o desprendimento de algumas certezas – como, aliás, quase tudo nesse destino de luxo selvagem.

Esqueça a ostentação. No meio da savana, raramente haverá Wi-Fi e TV. O despertador é um grito dado pelo guia na porta das grandes tendas que servem como quartos, e, em certos momentos, você terá de esquecer que energia elétrica já existe. A recompensa vem nos diversos tipos de safáris (a pé, de barco ou de carro, o chamado game drive): os bichos. Os mais cobiçados são os big five – leão, rinoceronte, búfalo, elefante e leopardo –, e tentar calibrar o olhar para buscá-los entre os campos dá uma emoção extra à aventura. 

O que oferecem os lodges e camps, hospedagens que recebem turistas em áreas de parques nacionais ou em reservas privadas, cujas concessões são feitas em troca da preservação do local por até 15 anos, está ligado a um conceito próximo ao que Ralph Bousfield, dono de um camp no deserto do Kalahari, define como “luxo ao contrário”. A proposta, segundo ele, é garantir uma vivência pela qual quem sempre teve de tudo nas metrópoles nunca passou. Tudo, claro, com serviço classe A e preço idem. 

Panoramas. Nosso roteiro cruzou diferentes hábitats entre Kasane e Maun: da água em abundância no Delta do Okavango à aridez do Deserto do Kalahari. Entre esses panoramas tão distintos, lembrei do divertido Madagascar. Na animação, Marty, a zebra insatisfeita, tinha mesmo motivos para querer fugir do zoológico de Nova York. A vida na selva, afinal, é muito mais emocionante. E assume contrastes que nós, mulheres e homens dos grandes centros urbanos, não aprendemos mais a enxergar, muito menos a entender, como disse o biólogo e escritor moçambicano Mia Couto.

Percorrendo o país, foi possível notar em cada botsuano um quê de alegria e esperança que muito se assemelha ao brasileiro – caso de Dawson Ramsden e Thandi Tsheko, representantes do órgão de turismo e do governo do país, respectivamente, e nossos companheiros ao longo da viagem. 

E perceber também que, diante da maior população de elefantes do mundo – o país tem cerca de 80 mil exemplares a mais do que poderia suportar –, da emoção do encontro com o leopardo ou voando de uma área à outra em um apertado teco-teco (oficialmente, um Cessna 206), a vida toda foi posta ao avesso. Bastaram poucos dias para constatar: os ombros ficaram mais leves.

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*A repórter viajou a convite do Botswana Tourism Office e do governo de Botsuana.

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Em Botsuana, Parque Nacional do Chobe tem a maior população de elefantes do mundo

Com porta de entrada em Kasane, a área, de 11.700 quilômetros quadrados, reserva surpresas nos passeios de barco e de carro 

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h00

KASANE - A superfície do Rio Chobe, cujo rumo seguia muito além do que olhos podiam alcançar, brilhava ao receber os raios de sol do fim da tarde. À beira da plataforma de madeira do lodge vizinho ao nosso, um barco simples nos esperava para o primeiro passeio em terras africanas. Estávamos em Kasane, povoado de 7 mil moradores no norte de Botsuana e ponto de encontro do país com outros três: Zimbábue, Namíbia e Zâmbia.

Tranquilo, o início da travessia esconde o que todo aquele curso d’água que corta o Parque Nacional de Chobe representa. Um tímido pássaro aqui, outro acolá frustraram as expectativas dos ansiosos e desacostumados ao contato com a natureza. Para se encantar com a mescla desordenada de cores de parte das 460 espécies de aves do local, é preciso paciência – algo que aprendemos ao longo dos dias, perambulando pelas savanas à espera dos animais.

Logo Daniel, nosso guia, aponta um crocodilo cor de pedra – ou os seus olhos. É o tempo de pegar a máquina fotográfica e aguardar, impacientemente, ela se preparar par ao clique. Lá se foi o réptil para a água. Do outro lado, surgem impalas e kudus – no início, talvez você os chame, como nosso grupo, de veados, mas vai se acostumar às diferenças entre os animais. Sem avisar, se afastam da margem – e do zoom da câmera. Parece ingrata a tarefa de aguardar tanto por algo e, em fração de segundos, perdê-lo. Bem-vindo ao tempo da natureza.

Para nosso alívio, porém, não são apenas os ágeis e camuflados que dominam os 11.700 quilômetros quadrados do parque, criado em 1968, e formado por quatro áreas geográficas distintas – Ngwezumba Pans (zonas argilosas), Savuté, Linyanti e a área ribeirinha do Chobe, em Kasane. Nessas duas últimas estão a maior população de elefantes do mundo: aproximadamente 100 mil dos 200 mil espalhados pelo país.

Do barco, chegávamos o mais perto possível da margem, a uma distância segura para o grupo e para os próprios animais. Grandalhões de seis toneladas indicavam o caminho para os menores, de até 120 quilos. Outros faziam fila para banhar-se nas águas do rio, entrecortadas por fileiras de vitórias-régias.

Apesar de os grandes protagonistas serem os elefantes, os búfalos também surgem para o banho de sol vespertino. Gostar mais de um animal do que de outro nos levou a criar expectativas diferentes. A desta repórter talvez tenha sido a menos atingida, já que os hipopótamos custam a dar o ar da graça e, quando aparecem, estão quase sempre dentro d’água. Deles, aliás, os guias mantêm distância. São os mais perigosos quando se sentem ameaçados, podendo alcançar uma velocidade de quase 40 quilômetros por hora na água. 

Depois de 3 horas de passeio e de um merecido drinque à beira-rio, voltamos ao Chobe Bush Lodge, inaugurado há um ano. O local conta com piscina, TV nos quartos e Wi-Fi na área social. Quartos duplos custam desde 1.425 pulas (R$ 446), sem café, e o cruzeiro, 220 pulas (R$ 68).

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Delta do Okavango: safáris são mergulho na África selvagem

Destino obrigatório de Botsuana, 'joia' ao norte é de tirar o fôlego e leva o turista a mergulhar no que a África selvagem tem de melhor

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h00

CHITABE - O bafo quente típico do clima árido anunciava a mudança de ecossistema. Ao descer na pista de pouso da reserva natural privada de Chitabe, em Maun, nem desconfiávamos que seria a única vez que teríamos o prazer de encontrar um leão adulto – e o desprazer de sentir o cheiro indigesto de uma zebra morta. Era fim de tarde, e outros dois veículos, além dos do nosso lodge, cortavam as trilhas da reserva. Por preservação, há sempre um número limitado de carros que podem circular em cada uma das áreas protegidas – em Chitabe, são apenas cinco por dia. 

Uma fileira de urubus no alto das árvores chamou a atenção. Duke, nosso guia, pediu silêncio. A metros dali, um grupo de turistas observava algum animal que parecia ser importante. Nos aproximamos. Sentado, a contemplar o horizonte, lá estava ele, o rei da selva.

Se sentir medo é algo particular, a felicidade de estar ali era comum. Diante do leão livre, ninguém pareceu entrar em pânico ou pensou em sair correndo – o que, de toda forma, não é o melhor a ser feito. A vontade era irracional: pular do carro só para tocar a juba do animal.

Toda a tranquilidade leonina tinha um motivo – o mesmo que nos permitiu chegar perto de outros felinos selvagens ao longo da viagem. Alimentados, eles passam cerca de 80% do dia deitados, rolando preguiçosamente, repondo as energias gastas na difícil tarefa de caçar. Se não se sentirem ameaçados, não darão a mínima para sua presença. 

No fim da tarde, estacionamos à beira de um lago que reluzia as múltiplas cores assumidas pelo céu até o anoitecer. Uma equipe do lodge nos aguardava diante de uma mesa. No cardápio, vinho africano, cervejas locais e internacionais, amendoim e o clássico biltong: carne seca curada, vendida em saquinhos e produzida na África do Sul.

Conforme entardecia, a luz do lampião era a única a iluminar nosso ponto de parada. Passamos cerca de uma hora ali, assistindo ao pôr do sol dar lugar a um borrão de estrelas, falando sobre a época em que a caça ainda era permitida no país – a atividade foi proibida em 2014 – e ouvindo sons que, não fosse Dawson, jamais saberíamos de onde vinham. “São hipopótamos se comunicando... E leões.”

A pé. Também foi em Chitabe nossa experiência de caminhar em meio à selva, embora seja possível fazer o safári a pé em outras reservas. Partimos de carro logo cedo, sob o comando de Duke e Dawson. Em um local seguro, descemos do carro e recebemos as instruções. Sempre em fila indiana, acompanhamos os guias, que empunhavam uma espingarda para qualquer eventualidade. 

É preciso silêncio, atenção e estar com todos os sentidos apurados. Claro que boa parte fica por conta dos guias. São eles que sabem seguir pegadas e narrar os acontecimentos a partir delas – como a luta de um animal pela sobrevivência na noite anterior –, distinguir sons e explicar particularidades do caminho: troncos de árvores rasgados pelos elefantes, a ossada de um búfalo. 

A concessão privada de Chitabe ocupa cerca de 25 mil hectares do sudeste do Delta do Okavango e conta com dois acampamentos, o Chitabe Lediba e o Chitabe Camp (desde US$ 903 por pessoa a diária), onde ficamos. Tem oito tendas do estilo Meru, espécie de cabana ampla, com abertura de zíper e uma varandinha na frente. Abrigam duas pessoas e têm camas e banheiro conjugados, o que pode ser um problema dependendo do seu apego à privacidade. 

A vantagem é acordar e se deparar com um elefante. Distraída, segui para tomar café da manhã sem perceber que um grandalhão estava parado ao lado da ponte que dava acesso às tendas – e entendi por que, à noite, é proibido caminhar pelo lugar sem a companhia de um guia. 

Os colegas à frente chamaram minha atenção e parei também para observá-lo. Enquanto um dos guias explicava a rotina do mamífero, algumas colegas faziam selfies. A agitação o irritou o suficiente para que ele desse um passo em nossa direção, bramindo em alto e bom som. Não tive dúvidas: elefantes, apesar de fofos, me dão mais medo do que leões.

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Relaxe no passeio de mokoro ou na piscina com vista para a savana

No meio do Delta do Okavango, em Botsuana, passeio de canoa sobre um mar de folhas ajuda a chegar ainda mais perto dos animais

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h01

DELTA DO OKAVANGO/JAO - Os 11 mil quilômetros cúbicos de água que chegam ao delta do Okavango correm de Angola até alcançar uma bacia hídrica no meio do deserto do Kalahari. Essa joia aquífera que invade um território cuja principal característica deveria ser a aridez garante a Botsuana uma vida selvagem extremamente diversa.

Isso significa que não importa quantos game drives você faça pelo Delta do Okavango: dizer game over será bem difícil. Mas é possível variar os passeios e os meios de transporte para conseguir ter contato com ao menos uma parte dos 122 mamíferos, 71 espécies de peixe, 444 de aves, 64 de répteis e 1.300 de plantas existentes na região.

A 20 minutos de Chitabe está a reserva Jao Camp, na área NG25. Foi de lá que, por volta das 6 horas da manhã, partimos em um barco a motor até uma área onde seis canoas chamadas de mokoro nos aguardavam. Feitas no passado com troncos de árvores, essas embarcações populares eram usadas por moradores na travessia do delta. Hoje, são construídas com fibra de vidro e servem para o tour obrigatório a quem quer chegar perto dos animais sem espantá-los com o ronco barulhento do motor.

Cada mokoro comporta duas pessoas sentadas, além do guia. É ele quem rema ao longo do delta, que alarga e estreita dependendo do trecho, entrecortando caminhos no ritmo determinado pela própria natureza. Com a simpatia que parece fazer parte do DNA botsuano, nosso comandante responde animado às perguntas curiosas e conta sobre os usos das water lilies, plantas aquáticas que cobrem todo o lago e cuja espécie mais conhecida é a vitória-régia. “Elas abrem de dia e fecham à noite, por isso ainda estão assim”, conta. Também dá uma dica gastronômica: a raiz é boa para molho de peixe. 

O vento ainda é gelado nas primeiras horas do dia e tudo parece novo. Mais uma vez foi difícil encontrar os crocodilos por conta própria, ou fazer uma boa foto dos hipopótamos que apareceram em nosso percurso – de um deles, aliás, tivemos de correr (dentro da capacidade da canoa, é claro). Todo o passeio dura 4 horas, com direito a café da manhã à beira do lago – e literalmente ao lado de um elefante que, muito antes de nós, havia escolhido o local para o desjejum. 

De volta ao camp, era hora de relaxar na piscina com vista para a savana. No Jao, as tendas são maiores e mais luxuosas que no acampamento anterior. O banheiro conta com uma área externa, onde vale a pena tomar uma ducha olhando para a floresta – deixe de lado a timidez: se algum ser vivo aparecer, não será o da espécie humana. 

Um diferencial importante: apenas o Jao, dos camps e lodges que visitamos, conta com um sistema tecnológico que espanta insetos na área da cama e funciona como ar-condicionado. Esqueça TV e Wi-Fi e esteja pronto para ouvir o barulho dos animais que, do lado de fora, num breu absoluto, se banham por horas no lago. 

Pela quantidade de atividades, é um daqueles lugares que merecem ao menos dois dias para tirar proveito e fazer valer o dinheiro. À noite, o jantar ocorre em uma grande mesa na parte externa, acompanhado de um mini bar e apresentação de dança tribal. Desde US$ 1.242, na baixa temporada.

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Em Linyanti, encontro com o leopardo e camp de mais de 5 mil dólares

Encontrar o solitário caçador pela savana dependerá da habilidade e da sorte dos guias; alojamento tem quartos com piscinas particulares

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h01

LINYANTI - “Show me the leopard” (mostre-me o leopardo), disse certa noite ao guia um colega do grupo. Voltávamos de um dos primeiros safáris e a frase arrancou gargalhadas. Inusitada, ela se tornou nosso lema de viagem. 

Desde o início, soubemos que encontrar o felino não seria fácil. Individualista em sua vida de caçador, ele se concentra em atacar a presa sem falhas, o que exige enorme energia. Por isso, é difícil encontrá-lo de bobeira nos campos abertos da savana. Estávamos de volta à região do Chobe, área das concessões de Kwando, Selinda e Linyanti, onde nos hospedamos no Zarafa Camp

Partimos para mais um game drive, dessa vez na companhia de Joseph. No caminho, se sucediam avestruzes, girafas cujos pescoços se confundiam com troncos de árvores, kudus, impalas, zebras de olhares desconfiados, um ou outro búfalo, leoas com seus filhotes, formigueiros maiores que um ser humano e um céu colorido por aves e pássaros. 

Mas entre áreas completamente abertas, onde uma família de elefantes correu com a chegada de cães selvagens – que, aliás, também nos obrigaram a alterar a rota –, e trilhas tortuosas no meio da floresta, ouvimos rugidos. Dawson e Joseph analisavam pegadas e barulhos, as pistas da natureza. 

Foi quando despertamos Thandi, nossa acompanhante oficial, para que ela pudesse ver seu animal favorito, a girafa. Na mesma fração de segundos que olhamos para a esquerda para admirar a pescoçuda, Joseph se virou para a direita e disse, sem alarde: “Olhem o leopardo”. 

Esse talvez tenha sido um dos momentos mais marcantes de minha passagem por Botsuana. Com um sorriso de satisfação e gratidão, Dawson bateu nas costas do companheiro dizendo “bom trabalho, rapaz”. E então percebi o que torna tudo aquilo tão especial e único. 

Se mais uma vez a paciência se mostrou imprescindível, a perspicácia e sabedoria de quem criou laços com a natureza, como Dawson e Joseph, nos fez entender o porquê dessa viagem ter quebrado tantos de nossos paradigmas. 

Do leopardo, mal temos fotos. Foi num piscar de olhos que ele cruzou do meu lado, se emaranhou no matagal e deitou para não levantar mais. Permanecemos por muitos minutos parados, observando sua respiração ofegante erguer a pele marrom brilhosa, cheia de pintas pretas. 

O Zarafa Camp é um dos mais luxuosos de Botsuana, com certificado Relais & Châteaux. Seus donos, Dereck e Beverly Joubert, um casal de fotógrafos e documentaristas que fizeram diversos trabalhos para a revista National Geographic (conheça mais do trabalho deles em oesta.do/derekebeverly), deixam suas marcas em cada uma das quatro tendas gigantescas, com cômodos estilo loft. Há uma ampla sala de estar, seguida pelo quarto e o banheiro, que se divide em lavabo, banheira e chuveiros interno e externo. 

Além de um mini bar, que serve de amarula a uísque, e de uma piscina particular na varanda, cada quarto tem máquina fotográfica profissional e tela de pintura com aquarela à disposição dos hóspedes. A diária, para dois, pode custar entre US$ 2.820 e US$ 5.248 por pessoa.

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Deserto do Kalahari: da inóspita salina a áreas repletas de habitantes

Contradições do hábitat único garantem ao turista desde o contato com animais e tribos milenares até o um exercício de introspecção 

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 00h01

MAKGADIKGADI - Se alguém me perguntar se há barulho no silêncio, direi com toda a certeza que sim. E contarei que a sua intensidade tem o tamanho do deserto do Kalahari.

Já era fim de tarde quando Super, um botsuano de mais de 2 metros de altura, parou o carro do Jack’s Camp no meio da salina, uma área dentro do Kalahari de tamanho equivalente à Suíça. Não havia nada ali além de nosso grupo, do chão branco-acinzentado e do céu soltando relâmpagos ao longe, prestes a nos engolir. 

Depois do cair da noite e de minutos de introspecção, tivemos uma aula de geografia in loco. Iluminado por um lampião, Super abriu o mapa e nos explicou, entre um e outro gole de vinho, os detalhes da fauna e da flora daquela região. O Kalahari em si vai muito além da salina inóspita: tem 2,5 milhões de quilômetros quadrados e cobre 84% do território de Botsuana. 

Longe de ser monótona, sua paisagem é bem diferente daquela do Delta, composta por uma vegetação mais rasteira. As zebras estão por toda parte, acompanhadas de antílopes que aproveitam a umidade da noite e o começo da manhã para se alimentarem. Também há leões, pássaros, chacais, avestruzes, hienas, gnus... Mas ninguém rouba tanto a cena quanto os suricatos, alçados à fama com o personagem Timão, de O Rei Leão.

Tradição milenar. Um dos passeios rompe o silêncio do deserto ao nos colocar em contato com os bushmen, coletores e caçadores que habitam o país há milhares de anos e, hoje, fazem parcerias com os acampamentos do Parque de Makgadikgadi para manter suas tradições e seu idioma, o afrikaans. 

Dessa vez, nossa caminhada não é em busca de animais, mas da compreensão do outro que é tão diferente de nós. O que aparenta ser um punhado de mato ganha significado nas mãos desse povo: propriedades medicinais, alimento ou uma maneira de matar a sede. Como disse Sebastião Salgado sobre sua passagem por lá, os bushmen sabem exatamente o que comer e o que envenena, fazem fogo com as próprias mãos e mantêm costumes que vão do fumo natural a uma brincadeira feita apenas com o barulho das mãos.

Voltar às origens é também a proposta do Jack’s Camp, onde não há energia elétrica. Questão de opção – seu proprietário, Ralph Boesfield, quis manter o lugar com a mesma essência da época em que seu pai o criou, na década de 1960. 

Trata-se do camp mais rústico e ligado à história local que encontramos. E o que mais se aproxima do conceito peculiar de luxo que parece ser a proposta do setor hoteleiro do país. O quarto (diárias desde US$ 1.730, por pessoa) parece uma tenda árabe, com camas altas e um banheiro cujo vaso sanitário é literalmente um trono e a pia, uma penteadeira. 

A área social, que dá acesso à piscina e onde ficamos até que a escuridão chegue e nos diga que está na hora de dormir, também funciona como museu de história natural – importante em um país que não possui muitos. Além do Jack’s, há mais quatro opções de hospedagem por lá. Mais em unchartedafrica.com.

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