Heitor e Silvia Reali
Heitor e Silvia Reali

Saiba o que fazer em Albi, cidade francesa com nuances medievais

Erguida ao redor da Catedral de Santa Cecília, a cidade prosperou graças às tinturas vegetais. Hoje, abriga arte e comércio em sintonia com os tempos modernos em ruas e casas do século 15

Heitor Reali e Silvia Reali / TEXTO E FOTOS, Especiais para O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2015 | 05h00

Uma cidade medieval no sul da França, toda de tijolos e embelezada por terraços e jardins. Art de vivre com toque moderno e, ao mesmo tempo, o sabor de se hospedar em um castelo do século 12. Vinhos únicos de cepas ancestrais como mauzac, duras, braucol e loin-de-l’oeil, hoje trabalhadas no ritmo do sol, da lua e das constelações. Embutidos que por si só representam uma imersão na gastronomia local.

Alegrem-se viajantes de todos os horizontes: a região francesa de Tarn é uma combinação perfeita onde se podem curtir todas essas pequenas grandes coisas, tout ensemble, tudo junto. Um herborista que fabrica os próprios perfumes, extraídos dos musgos da floresta; um mercadinho no campo que só funciona aos domingos. Aliadas a tudo isso, obras de Tolouse-Lautrec, o pintor que, no auge do Impressionismo, ousou criar nova linguagem.

Albi representa de modo particular essa paisagem única. No coração medieval da cidade é impossível não lembrar de O Nome da Rosa, filme baseado no best-seller do escritor italiano Umberto Eco. Albi (pronuncia-se Albí) remete a alba, cor branca em latim, embora o fim da tarde, quando o sol pincela seus tijolos, explique o apelido La Rouge.

Com o intuito de mostrar o poder da Igreja Católica, os bispos iniciaram, em 1282, a construção da monumental igreja dedicada a Santa Cecília, patrona dos músicos. A obra de arte gótica revela um mundo de contrastes entre a austeridade do exterior e a profusão de detalhes internos. A catedral compõe com o Palácio Berbie, antiga residência dos bispos, uma extraordinária cidadela que avança para o céu com suas muralhas, torres, campanários, pórticos, arcadas e escadarias. Todo esse volume ocre-avermelhado pousa no jardim à francesa, de arabescos verdes que circundam canteiros em flor.

Mercado da cor. A cidade começou a crescer ao redor da catedral. Casas maiores e outras mais modestas compõem um conjunto harmonioso graças ao uso do tijolo aparente. A partir do século 15, duas ervas utilizadas como corantes de tecidos fizeram Albi prosperar: o açafrão Crocus sativus e o pastel, planta de cachos de flores amarelas e miúdas, a Isatis tinctoria.

Dos pistilos vermelhos retirados da flor do açafrão os albigenses produziam os mais belos tons de amarelo, ocre e laranja. Mas foi sobretudo com as folhas do pastel que, maceradas, resultavam em sete nuances de azul, que a cidade enriqueceu. A expressão pays de cocagne (terra da abundância) nasceu ali e deriva da palavra coque, bolas de pasta das folhas.

Os ricos comerciantes ergueram palacetes de tijolos com diferentes grafismos, entremeados por grossas traves de madeira e batentes entalhados. Nos andares mais altos, solários secavam as folhas do pastel.

Percorrer Albi com calma e olhar atento é indispensável para notar, por exemplo, as placas de ferro trabalhado dos comércios da época medieval, como chaveiro, hospedaria, sapateiro, adega. Ou ainda descobrir jardins inesperados no fim de becos, junto a fontes, em terraços ou claustros secretos como o de Saint Salvi, onde flores brotam em meio às ervas de uma horta.

Tão antiga quanto em sintonia com o tempo moderno, no térreo das velhas casas de Albi hoje funcionam lojas de moda com pegada jovial, cafés, restaurantes e queijarias.

‘L’art de vivre’​

1. Tem bicicleta, sim

Quer pedalar? O Albicyclette é um circuito por estradas vicinais ladeadas de campos de girassol e trigo, que cruza 17 comunidades nos arredores. Confira: bit.ly/albicyclette

2. Ao ar livre

Piquenique é uma instituição em Albi. Moradores abastecem cestas de vime de pão fresco, embutidos, vinho, queijo e cerejas frescas e seguem para as margens do Rio Tarn. 

3. Palavras próprias 

Dá para dizer que a região de Albi tem sua própria língua: em várias localidades do Rio Tarn, muitos habitantes ainda falam o dialeto occitano, que deriva da língua românica, misto de francês e catalão.

4. Patrimônio

Foi no Brasil, em 2010, que o comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, reunido em Brasília, reconheceu o valor da cidade episcopal de Albi e a inscreveu na lista dos bens culturais da humanidade.

5. No Masp 

O acervo do Museu de Arte de São Paulo inclui uma tela de Toulouse-Lautrec, que retrata a condessa Adèle sentada junto a hortênsias brancas nos jardins do palacete da família. 

RESTAURANTES E INGREDIENTES QUE NÃO SE DEVE PERDER

No restaurante Esprit Ephémère (11, Quai Choiseul), o chef David Enjalran revela toques de seu bom humor: o porta-guardanapos é um imenso e falso anel de brilhante. Enjalran, que no comando do restaurante L’Esprit du Vin ganhou uma estrela Michelin, é o cozinheiro mais aclamado de Albi. 

Ele só usa ingredientes locais como o alho-rosa produzido na vila de Lautrec; e até os embutidos servidos ali são assinados, como os do mestre artesão charcutier Philippe Grezes. Uma vez lá prove a refrescante framboesa com chá verde e limão servida sobre queijo branco com mel, baunilha e chocolate branco. Reserve: +33-5-6343-0304.

Dentre os produtos regionais mais apreciados de Albi estão os queijos de leite de cabra como o Montgrieu, ou Le Pic, os respounchous (uma espécie de aspargo selvagem), e o cochon apalhat, porco criado na palha e com alimentação especial. 

Já no restaurante Le Clos Sainte-Cécile (+33-5-6338-1974), situado à sombra da catedral, o jantar é servido no jardim, sob guarda-sóis. É possível até se imaginar em casa de amigos franceses, onde a conversa recairá sobre o tom rosa dos rododendros ou a qualidade da couve-de-bruxelas, perfeito acompanhamento para a carne de pato. 

SAIBA MAIS:

Como chegar: da estação Gare de Montparnasse, tome o trem para Tolouse-Matabian (a viagem dura em média 5h30) e de lá para Albi Ville (1h). Compre com antecedência no site sncf.com/en/passengers (desde 52 euros por trecho), pois o trecho para Tolouse é concorrido.

 

Onde ficar: no centro de Albi, o Hotel les Pasteliers tem boa localização, bom café da manhã e tarifas desde 

65 euros para duas pessoas: hotellespasteliers.com.

 

Site: www.albi-tourisme.fr.

Dica 1: Para incluir algo de cidade grande no roteiro, Toulouse, quarta maior cidade francesa, está a cerca de uma hora de Albi, de carro ou trem. Com três importantes universidades, tem clima jovem: toulouse-tourisme.com.

Dica 2:  Em direção ao sul, Carcassonne, cidadezinha de 45 mil habitantes e patrimônio da Unesco, é uma das mais lindas fortificações da França e uma das maiores construções medievais da Europa.

Mais conteúdo sobre:
França Albi Umberto Eco Europa

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.