Diane Bondareff/ AP Images
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Nunca conheci um único lugar

miles@estadao.com

Mr. Miles, O ESTADO DE S. PAULO

21 Novembro 2017 | 03h40

Infelizmente, Annie Brown, a amiga jornalista de Mr. Miles (veja a coluna da semana passada; bit.ly/miles1411), voltou rapidamente à Inglaterra em função dos acontecimentos poucos louváveis à nossa imagem, relativos aos assaltos durante o evento automobilístico de Interlagos. De forma que não pôde sequer usufruir das raras dicas de Mr. Miles sobre o Brasil.

Essas, por sua vez, geraram a polêmica esperada. “Subestimei, my friends, a quantidade de bordoadas verbais que acabaria levando. Leitores de inúmeros lugares não citados crivaram-me de imprecações. Muitos deles provinham de municípios – I’m ashamed to say – dos quais nunca tinha ouvido falar e mencionavam belezas tais quais o mais antigo umbuzeiro de um determinado ecossistema e a jazida onde foi encontrado o maior exemplar de citrino já extraído no país. 

Sou grato a todos, sobretudo à bela Juliana Telma, que vem fazer um curso em Londres e quer me conhecer. Será bem-vinda, sweetheart.

A seguir, a pergunta da semana: Mr. Miles: quando alguém pode considerar que, de fato, conhece um lugar? 

Gemma Novara, por e-mail

“Well, my dear: sou forçado a responder o que todos esperam. Jamais! Never! Mai! (suponho que você me compreenda, em função de seu lindo nome). Essa é a interminável beleza da busca, assim como seu inerente fracasso. Cada vez que penso nisso, ocorrem-me novas humildes teorias a respeito. Ainda que eu ficasse sentado todos os dias de minha vida em um mesmo banco, vendo a mesma paisagem, eu seria, undoubtly, incapaz de conhecê-la. As estações passariam e ela se modificaria com a chuva, a neve e o calor; a posição do sol alteraria suas sombras; as plantas cresceriam ou murchariam; o vento empurraria o que pudesse com sua força; um empreendedor à distância alteraria o equilíbrio de seu ecossistema; uma espécie de aves bateria asas para longe; uma guerra sempre provável nesse mundo beligerante talvez tivesse o dom de mudar a forma das Colinas e o caminho das águas.

E eu talvez nem percebesse, porque estava lá. However, dear Gemma, cada vez que voltasse estaria vendo um outro lugar.

Repare, darling, que me referi a um banco e uma paisagem e nem sequer a detalhei. Imagine se eu o tivesse feito com uma cidade, onde a dinâmica é muitíssimo maior. As ruas se alargam, prédios substituem praças, casas viram parques, bares tornam-se lojas, referências vão e vêm ou somem e deixam-nos órfãos. Nem as nossas próprias cidades conhecemos – e isso é bom porque não vivemos num mundo triste como um grito parado no ar. Vivemos, on the other hand, em um complexo mutante de forças que sempre nos chama a voltar e reconhecer.

 (E é por elas que temos de ser atraídos, não por essas notícias rasas e eletrônicas que passam o tempo nos chamando de um lugar ao outro – porque elas não vivem de nos ensinar, mas de nos puxar para o lado delas, contabilizar-nos e good- bye.)

Voltando ao assunto, cara Gemma, como é possível considerar conhecido um lugar que a cada dia pode sediar outra história. Refiro-me, of course, a pontos marcantes da manifestação humana, à Praça da Paz Celestial, à Times Square, à Trafalgar Square, à Praça Taksim, à vermelha e a tantas outras ao redor do planeta, que já se vestiram de sangue ou tonitruaram palavras de ordem na tentativa de mudar o rumo dos povos. 

Eu mesmo já estive muitas vezes na Praça Tahir, no Cairo, observando a complicada lógica de seus veículos andando em todas as direções, com as buzinas sempre apertadas, entre carregadores de mercancias diversas, cantos, imprecações, África e Ásia em único cenário que de tão caótico chegava a ser bucólico. Believe me. E, no entanto, jamais estive lá em seus momentos de libertação e de dor. Como posso dizer que a conheci?”

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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