Ricardo Freire/Estadão
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O barraco das barracas

No começo de julho, os bares sobre palafitas da orla do Jacaré, perto de João Pessoa, pararam de funcionar, por ordem judicial. Nos últimos 16 anos, os bares serviram de camarote para assistir ao espetáculo do pôr do sol ao som do bolero de Ravel, tocado pelo músico Jurandy do Sax a bordo de um barquinho. Todos serão demolidos: o local é simultaneamente terra da União e área de preservação ambiental. O show de Jurandy vai continuar, mas só poderá ser assistido a bordo de outros barcos. E lá se foi a maior atração turística da Paraíba.

Ricardo Freire, O Estado de S. Paulo

04 Agosto 2015 | 00h00

Os mesmos argumentos – terras da União, ocupação irregular – têm sido usados pelo Ministério Público para derrubar barracas de praia em todo o Brasil. As de Salvador foram ao chão – e os entulhos ficaram dois verões na areia. As barracas da praia da Tartaruga, em Búzios, foram embargadas, e hoje convivem com barraquinhas mal-ajambradas montadas em frente. As da Praia do Futuro, em Fortaleza, só não vieram abaixo porque a Justiça estadual decidiu que estão no “pós-praia” (o Ministério Público já interpôs recurso, alegando que a área é de “uso do povo”).

Que as barracas de praia ocupam terreno da Marinha é indiscutível. Que muitas fizeram edificações irregulares, poluem o ambiente e são feias de doer, não há dúvidas. Mas tampouco dá para ignorar o fato de que na cultura brasileira a praia funciona como a sala de estar. Barracas são equipamentos necessários para o tal “uso do povo”.

A questão das barracas de praia recai num velho problema nacional: ou pode tudo, ou não pode nada. É evidente que a ocupação das praias por barracas precisa ser regularizada, disciplinada e tributada. Mas proibida totalmente? É fora da realidade.

O caso de Salvador é emblemático. As barracas eram horrendas e em número demasiado, mas o que veio depois foi pior: a invasão de ambulantes e montanhas de cadeiras empilhadas na orla, acorrentadas a coqueiros, para serem postas na areia no dia seguinte. Só em Santa Catarina a retirada foi consequente: mata de restinga foi replantada em toda a costa, cuidadosamente protegida por deques de acesso à areia. (Ainda assim, as barracas que resistem em Jurerê querem mostrar que podem funcionar e proteger a restinga ao mesmo tempo.)

O fim das barracas não democratiza a praia: apenas afasta banhistas e tira emprego de quem precisa. Alô, Ministério do Turismo: não está na hora de sentar com Marinha, Ministério Público e Legislativo e resolver esse barraco?

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