O destino e a companhia

Mr. Miles, que não é afeito a fazer contas, lembrou-nos que há mais de oito anos tem o prazer de contar suas histórias e compartilhar suas opiniões com os leitores deste caderno. "A pilha de manuscritos compostos exclusivamente para vocês já chega a rivalizar, em volume, com os tomos encadernados que guardam minha vasta coleção de passaportes. I'm very proud about it."

O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2012 | 02h09

A seguir, na esteira da crônica anterior sobre os piores lugares para fazer turismo, a pergunta de mais um leitor interessado no tema:

Mr. Miles, qual é o lugar mais perigoso para um viajante? Sérgio Junqueira Dias, de Belo Horizonte

"Well, meu caro Sérgio, voltamos ao tema da semana passada e vou tentar abordá-lo de outra maneira. Em vez do perigo, vou referir-me ao medo. Conheci um sujeito na Hungria que tinha horror de viajar só de pensar nos imprevistos e riscos da jornada. Coitado: morreu de concussão cerebral, após escorregar no capacho de seu vestíbulo. É, indeed, uma história triste, mas unfortunately, ilustra minha tese segundo a qual o tédio e o receio matam mais do que um vírus letal.

Objetivamente, Sérgio, há países mais ou menos perigosos, conforme o momento político e econômico que estão passando. Você pode ter certeza, my friend, que o mar não está para caucasianos no Congo ou que não é uma boa ideia fazer planos para uma viagem de conquistas românticas na Síria. Mas guarde certas reservas quanto ao noticiário dos jornais. Ainda na semana passada, li uma reportagem no Frankfurter Allgemeine sobre as chacinas na periferia das grandes metrópoles brasileiras. Tomado ao pé da letra, o artigo dava a entender que existem dois tipos de pessoas no Brasil: os que pertencem a quadrilhas de justiceiros e os que serão alvejados jogando sinuca. Um pouco exagerado, isn't it?

Quanto à minha experiência pessoal, devo confessar que alguns países, senão perigosos, são muito pitorescos nesse particular. No Iêmen, por exemplo, fui ao serviço local de informações turísticas. Os atendentes eram muito gentis e bem treinados, mas Sharon (N.da R.: Sharon Stone, atriz de Basic Instinct, afilhada de mr. Miles) ficou chocada com o uniforme deles. Eles vestiam roupas camufladas, suspensórios cheios de munição e tinham metralhadoras penduradas nos ombros. E eu só queria um mapa…

Bem, ainda assim não foi ruim. Conheci um casal de austríacos que foi sequestrado e passou seis meses num cativeiro no Chade. Pois acredite: hoje eles são amigos dos antigos sequestradores. Vão todos os anos para N'Djamena comemorar o Ramadã com eles. E o filho mais velho do líder do sequestro mora com eles em Viena, onde faz uma pós-graduação em violino.

Ah, Sérgio, são tantas histórias estranhas que se ouve… Minha recomendação é simples: cautela é sempre bom; informação, mais ainda; mas o melhor é ter o espírito aberto e sair pelo mundo, porque, como costumo dizer, my friends, perigoso mesmo é encerrar a vida com o passaporte sem carimbos."

Mr. Miles, o que é mais importante numa viagem? O destino ou a companhia? Adriana de Freitas, Uberaba, MG

"Ah, Adriana, que questão bem formulada. Tenho pensado muito no assunto em todas essas jornadas pelo mundo. Anos atrás estive em Assunção, no Paraguai, onde tenho um afilhado que compõe guarânias e é crooner num quarteto típico. Não sei se estou ficando ranzinza, mas a capital do Paraguai não me pareceu ter o charme de Paris ou Pequim. Ainda assim, tenho ótimas recordações dessa viagem, porque Audrey (N.da.R.: Audrey Hepburn, a atriz) foi comigo e tivemos longas conversas existenciais às margens e sob o luar do Ypacaraí.

Em outra ocasião, fui à Ilha de La Digue, um pedaço de pecado no arquipélago das Seychelles. Estava sozinho e cheio de planos, quando apanhei uma maldita caxumba, que me deixou prostrado.

Como você vê, dear Adriana, destinos bons podem deixar péssimas lembranças e companhias adoráveis podem valorizar qualquer destino. Melhor ainda é viajar convencido de que sua companhia é, também, o seu destino. E vice-versa. Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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