Arte|Estadão
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O (pouco) que Mr. Miles não faz

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2015 | 03h00

Preparando-se para a muito adiada viagem ao Brasil (fontes dizem que ele irá à Itacaré, na Bahia, onde adora praticar longboard e tem muitos amigos), nosso correspondente britânico avisa que, em breve, anunciará seu destino de réveillon neste duomilésimo, centésimo quinto ano da Era Cristã “que, of course, é apenas uma referência, porque não preciso praticar religiões para compreender o Universo”.

A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: leio atentamente suas crônicas e vejo que o senhor está sempre disposto a tudo e faz as coisas com muito prazer. Existe alguma coisa que o senhor não faz?

Estevão L. Margolies, por e-mail

“Of course, my friend. Há inúmeras coisas que não faço e nem pretendo fazer porque são parte de minhas convicções, que, por sua vez, derivam da educação que me foi oferecida. Não roubo nem furto, for instance, até porque não sinto falta de nada que não me pertence. Therefore, confesso que sou até um pouco exagerado nesse aspecto. Jamais coloco a mão em objeto que não me pertença sem a devida autorização.

Esse hábito, by the way, levou-me a uma situação constrangedora anos atrás, quando voltava de uma cansativa jornada no Saara. Louco para tomar um banho e descansar os ossos, encontrei um hotel nas imediações de Agadir.

Assim que entrei, observei que não havia ninguém na pequena recepção coalhada de moscas. Havia, sim, sobre o balcão, uma dessas sinetas geralmente utilizadas para chamar serviçais. Como, however, não havia nenhum cartaz autorizando o uso da engenhoca, decidi esperar. Quarenta minutos mais tarde, já com as moscas relaxando sobre meus bigodes, tomei coragem e resolvi premer o aparelho. Oh, my God! Em segundos surgiu o atendente que me apanhou ruborizado de vergonha.

Há outras coisas que, unfortunately, não gosto de fazer – e só as faço quando pressionado pelas circunstâncias. Odeio filas. Não compreendo por que existem e como as pessoas se submetem a tal humilhação. Filas em restaurantes, for instance. Elas ocorrem até mesmo em cidades com milhares de opções como São Paulo e Nova York. It’s amazing, isn’t it? Filas para entrar em aviões, com assentos numerados e lugar para todos? Será que os passageiros pensam que, caso embarquem depois dos outros, vão ter de viajar de pé, no corredor? It’s unbelievable!

Outra de minhas idiossincrasias é não marcar consultas médicas. Explico-me: com o desenvolvimento da medicina e, sobretudo, o das máquinas que vasculham o corpo dos pacientes em busca de suas mazelas interiores, é virtualmente impossível escapar ileso de um check-up. Minha querida tia Glenda, que pensa exatamente o contrário, vai mais ao médico do que à feira. Hoje ela é a maior cliente da farmácia de Groveland e, como nem sequer se lembra de todas as doenças que tem, decidiu, também, tomar remédios para amnésia.

Aunt Glenda, by the way, foi a responsável pelo meu último check-up, realizado nos anos 60. Convenceu-me, por persistência. Meus exames mostraram-se excelentes, mas o médico fez questão de me advertir que a ausência absoluta de sintomas pode ser um mau sinal.

Outras coisas que não faço porque simplesmente não me atraem. Assistir a campeonatos de golfe pela televisão (só é menos chato do que acompanhá-los ao vivo). Conversar, cara a cara, com pessoas que atendem várias vezes ao telefone celular ou ficam dedilhando mensagens para pessoas ausentes. Simplesmente peço licença e me retiro. Esse hábito, unfortunately, tem crescido de tal forma que temo, em um futuro próximo, não poder conversar com mais ninguém – pelo simples fato de que as pessoas só saberão comunicar-se via WhatsApp e seus previsíveis sucedâneos.

Ou seja, my dear Estevão: há muitas coisas que Mr. Miles não faz. Essas e várias outras que, oportunamente, voltarei a contar. Só não me estendo no tema porque a função dessa coluna é falar sobre o que faço. E não o contrário.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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