Stringer/Reuters
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O que conta a moda

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2017 | 04h00

"Às vezes posso chocar um pouco, o que é bastante bom. Às vezes”, lê-se em uma das paredes do Palácio de Kensington, em Londres. Reproduzida em uma das salas reais, como introdução ao que vinha a seguir, a frase – uma tradução livre para “Sometimes I can be a little outrageous, which is quite nice. Sometimes” – acabou por instigar minha sensibilidade e curiosidade, até então mediana, pela exposição Diana: Her Fashion Story, um resgate dos passos de Lady Di na moda, organizada em homenagem aos 20 anos de sua trágica morte em Paris, no dia 31 de agosto de 1997. 

Explico: baixa expectativa inicial diante da mostra, revertida para uma grata surpresa ao final. Nunca fui afeita a notícias de moda, a desfiles, a marcas (mais ou menos de grifes), enfim, a esse mundo fashion que nos cerca. Para o leitor compreender minha ignorância no assunto, acabei por descobrir, em uma outra exposição em Londres, essa no Museu Victoria & Albert, o nome Balenciaga – do estilista espanhol (Cristóbal) e de sua renomada casa de moda. 

Perdoe-me se isso lhe parecer um absurdo. Reconheço que nesse campo ainda me falta repertório. E digo ainda não porque tenho a pretensão de me tornar uma expert das tendências passadas e futuras, mas porque, ao longo dos últimos anos viajando aqui e acolá, pude entender que a moda é uma das mais interessantes manifestações da vida cotidiana. Ela não só reserva, claro, sua história particular, como também carrega traços do tempo em que esteve inserida.

 A primeira percepção diferente e positiva que tive do mundo da moda, aliás, foi no Rio Grande do Sul. Entre as dezenas de museus-chama-turista de Gramado e Canela, o que mais me chamou atenção foi o Museu da Moda (MUM). Instalado numa elegante construção branca e discreta na estrada que liga as duas cidades, o espaço reúne peças do vestuário feminino que recontam 4 mil anos de história, com acervo formado por itens originais e outros confeccionados de acordo com o período que pretendem retratar. 

A história da moda e a moda na história parecem ser, assim, ótimos caminhos para quem quer olhar ao passado e fisgar a linha que o conecta com o presente. Um passado que pode ser recente como o que nos leva aos dias em que a Princesa Diana desfilava com modelos modernos e originais, quebrando regras na própria tradição da realeza britânica – como dispensar o uso das luvas e vestir calças compridas em eventos noturnos. Ou então mais distante de nosso tempo, traduzindo algumas das consequências do encontro de povos e culturas. 

É nas mudanças e assimilações de novas técnicas – e na ausência e resistência a elas – que percebemos traços de disputa material e ideológica, por exemplo. E isso está na moda tanto quanto está nos objetos, no linguajar, nas práticas comerciais. Nem sempre os índios da América do Norte, entre tantos milhões de exemplos, usaram os mesmos materiais têxteis, estampas, estilos decorativos e cortes que vemos nas fotos ou expostos em museus como o de História Natural nos Estados Unidos. Foi no contato com os europeus que o mundo fashion que os cercava foi se alterando, assim como outros aspectos de suas vidas. 

Verdade é que não há um só lugar que se proponha, bem ou mal, a recontar a história cultural sem levar em conta a vestimenta, seja de um grupo social ou de personalidades como Lady Di e como Frida Kahlo, outra mulher cuja trajetória, certamente tão singular quanto a da princesa, é recontada no Museu Frida Kahlo, no México, também por meio de seus trajes e acessórios, repletos de força, intensidade e significados. 

Muito além de criar afeição por tendências – continuo usando minha papete com meia, afinal, e sem qualquer paciência para desfiles –, aprendi que olhar para a moda com a curiosidade livre de pré-conceitos pode garantir na bagagem uma ou muitas histórias de quem fomos e somos. 

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