Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

‘Órfãos’ do Ariaú e a nova vocação de Acajatuba

Desde que o Ariaú Amazon Towers fechou as portas, em 2016, a vila Nossa Senhora Perpétuo Socorro se encontrou no turismo comunitário — e até virou a fictícia Parazinho, novela da TV Globo

Vitor Tavares, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2018 | 04h29

De Vila de Acajatuba

Era quase lei: ao abrir uma revista ou jornal de turismo, estava lá o anúncio do monumental Ariaú Amazon Towers, um dos hotéis de selva mais simbólicos da Amazônia. Localizado na margem de um afluente do Rio Negro, atraía turistas do mundo inteiro, inclusive ilustres como o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, o bilionários Bill Gates e o elenco do filme Anaconda (1997), gravado na região. Atraía. Desde o começo de 2016, como consequência de um acúmulo de dívidas e de brigas familiares, o empreendimento de 180 apartamentos fechou as portas.

Junto às ruínas do Ariaú, que hoje hospeda somente macacos, insetos e aves, veio a aflição de muitos moradores da região. Os que não trabalhavam diretamente no hotel, em funções como camareiros ou cozinheiros, eram beneficiados pelo fluxo turístico. Visitantes contratavam passeios com os locais e faziam visitas guiadas às comunidades.

Sem este dinheiro circulando, o alerta vermelho apareceu. Foi quando os “caboclos” perceberam a vocação para o turismo comunitário. “Ficou mais claro que, se as pessoas ficassem aqui dentro, seria melhor para a gente. Antes, às vezes parecia que a gente era uns bichos no zoológico”, lembrou Marlene Costa, uma das líderes da vila Nossa Senhora Perpétuo Socorro também conhecida como Vila de Acajatuba – e, mais recentemente, como “Parazinho”.

O novo apelido veio por causa da recente novela A Força do Querer, na TV Globo, filmada no local. A história de Ritinha trouxe fama à vila, que passou por um processo de “embelezamento” para receber a equipe da televisão. Hoje, turistas visitam a comunidade atrás do artesanato produzido pelas famílias, à base de semente e galhos de açaí. O trajeto do porto de Manaus até lá dura menos de uma hora. Quem quiser se hospedar em Acajatuba tem a opção ficar no redário. Uma pousada está sendo construída no local.

Saboroso encanto. Uma das poucas opções de alimentação na RDS Rio Negro que vai além do que é servido dentro das comunidades é o restaurante Encanto do Saracá, nome da comunidade onde está localizado. A vista alta para o Rio Negro é um desbunde – tente pegar o pôr do sol por lá. As refeições precisam ser acertadas anteriormente com as mulheres que comandam a cozinha. No cardápio, peixes, tapioca recheada com tucumã, galinha caipira, mousse de cupuaçu, cocada com castanha, farofa com banana e sucos das frutas amazônicas.

O discurso de quem recebe turistas nessas comunidades é de acolhimento, para que as pessoas sintam, pelo menos temporariamente, que são parte dali. Os olhares desconfiados somem rapidamente após minutos de conversa ou um aceno. “Eu achava que não tinha como lidar com turistas, com gente de fora. Logo eu, que nem saía aqui da floresta. Foi recebendo as pessoas que descobri que todos somos iguais”, disse Roberto Mendonça. Impossível sair imune a esse sentimento. 

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