Os piores lugares do mundo

Nosso intimorato viajante manda noticias das Ilhas Svalbard, na Noruega, para onde voltou pela primeira vez em muitos anos, em nome do que ele chamou de "uma mulher tão quente quanto é frio o seu arquipélago". A seguir, a correspondência da semana:

O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2012 | 02h09

Mr. Miles: o senhor sempre fala de lugares maravilhosos que conheceu e enche-nos de água na boca. Seria justo se nos dissesse, também, quais são os piores lugares do planeta para tirar férias.

Victor Mascote Denna, por e-mail

"Well, my friend: o mundo, de fato, está repleto de lugares desagradabilíssimos por motivos diversos. Eu não costumo mencioná-los porque, em minha modesta opinião, escrevo este artigo semanal para inspirar viajantes e, of course, não para convencê-los a ficar em suas casas.

Deixe-me tentar uma comparação que julgo fair enough. Se eu passasse semanas aqui, neste singelo espaço que ocupo, mencionando os lugares onde, for instance, é mais provável contaminar-se de aids, mais fácil levar um tiro ou intoxicar-se com a poluição atmosférica, estaria fazendo o mesmo que um jornalista de gastronomia falando sobre disenterias ou uma revista de automobilismo discorrendo sobre brutais acidentes de carro. Do you know what I mean?

Concordo, however, em fazer uma concessão para a sua curiosidade, já que dificilmente receberei outra pergunta tão disgusting. Well, dear Victor: os fatores que definem se um lugar é muito ruim para, por exemplo, se passar uma lua de mel são inúmeros. Muitos deles, by the way, são apenas provisórios. Países assolados por guerras civis ou comandados por ditadores são, por princípio, bad places. Por que não aguardar que as batalhas terminem ou que os ditadores sejam fuzilados antes de correr riscos inúteis?

Lugares onde a pobreza é imensa - como o Burundi, que tem a menor renda per capita do planeta -, têm, via de regra, a lot of corruption and diseases. Não há porque visitá-los a passeio, a não ser que você trabalhe em uma dessas ONGs bem-intencionadas ou seja um Médico Sem Fronteiras. Fiquei chocado da última vez que estive em Bujumbura (N. da R.: capital do Burundi), onde você não sabe se é melhor pagar aos corruptos por sua presumível segurança ou enfrentar os rebeldes e os rebeldes antirrebeldes, que não cobram nada, mas também, oh, my God, não dão qualquer valor a vida nenhuma.

Então, dear Victor: evite Bujumbura, evite Mogadiscio e evite Port Moresby, em Papua-Nova Guiné. Embora eu tenha compadres em todos esses lugares, tento não inclui-los nos meus itinerários.

Há outras cidades, my friend, que são insuportáveis por razões climáticas ou ambientais. Não passe sua lua de mel e nem mesmo as bodas de ouro de sua sogra em Linfen, na China. Estive lá em busca de um tesouro que não existia e descobri que Linfen é a cidade mais poluída do mundo. A tal ponto que mal se vê a luz do sol, nem mesmo em dias iridescentes. Linfen fica no centro de uma região de mineração e recebe, segundo cálculos otimistas, 50 milhões de toneladas do pó de carvão extraído em seus arredores. O curioso, believe me, é que os pobres esquálidos linfenenses respeitam uma severa lei antitabagista, produzida, of course, por algum ser abjeto.

A lista vai longe, my friend. Lugares quentes demais como o Vale da Morte, no Deserto de Mojave; lugares demasiadamente expostos à fúria da natureza, porque ficam perto de vulcões ativos ou na rota de ciclones e furacões. Mas, believe me, Victor, ainda assim, há um estranho fascínio em viajar pelos piores lugares do mundo.

Creio que, no fundo, nós, os viajantes, estamos sempre dispostos a tudo. Ainda que seja apenas para aprender a comparar e entender."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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