Os riscos de um reencontro emocionado

Botswana, no delta do Okavango, é um dos destinos prediletos de nosso viajante quando pratica birdwatching para esquecer atos de desumanidade como os que ocorreram há poucas semanas. É de lá que ele envia a correspondência desta semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2015 | 02h06

Prezado Mr. Miles: um amigo está muito entusiasmado com o fato de seu filho viajar para a Itália, terra de seus avós, e se hospedar em casa de parentes com os quais não têm contato há cerca de 50 anos. Considero uma expectativa de risco, pois não se sabe como será recebido. O que o senhor tem a observar sobre o assunto?

Euclydes Rocco Junior, por e-mail

"Well, my friend: toda experiência, sobretudo as com potencial de intensidade emocional grande - família italiana, cinquenta anos de separação, muita pasta e vinho e, claro, uma buona grappa - embute surpresas. Elas podem ser excelentes e trazer imensos ensinamentos, têm a possibilidade de tornar-se irrelevantes em caso de ausência de empatia ou, of course, como você teme, podem acabar de forma desagradável. In every case, só existe um jeito de saber como será: correndo o risco.

As you know, sou, modestamente, partidário da tese de que a vida sem riscos seria inominavelmente chata. Corremos riscos banais a cada minuto e, claro, esses riscos soam muito maiores quando se lida com o desconhecido. Unfortunately, não há outra forma de conhecê-lo. Don't you agree? Uma linda mulher, por exemplo. Você a vê, sente-se atraído, sonha com ela; no dia seguinte, o futuro a coloca de novo no seu caminho e a sensação se amplia. Descobre, por fim, que ela foi contratada pela empresa onde você trabalha e já não vive mais sem a beleza de seu sorriso. E então: vai correr o risco de descobrir que ela não se interessa por você, é casada ou irritante, ou não vai correr o risco de sentir-se correspondido, de pegá-la em seus braços e fazer desse encontro o mais belo de sua vida? Minha querida amiga Jackie Lomâitre, a mais esnobe e divertida de todas as parisienses que conheço, diria apenas o seu célebre "C'est la vie!, Euclydes".

É claro que existem técnicas e cuidados civilizados de que seu amigo deve se armar antes e durante o reencontro familiar. Suspeito que, se ele pretende se hospedar na casa de seus longínquos parentes, ele não vai chegar de surpresa. Faz-se mister uma delicada carta de intenção, mencionando nomes de parentes que também soem familiares a eles. É de bom tom levar presentinhos para a família desconhecida e toda a sorte de fotografias ou documentos que atestem a solidez dos laços que, em outros tempos, existiram.

Uma outra sugestão - essa, de senso comum - é observar uma técnica infalível, que uso sempre que sou convidado à casa de uma família pela primeira vez, especialmente quando viajo. Diga a ele para observar, carefully, como eles se comportam, para portar-se da mesma forma. Se for, for instance, uma casa mais informal, onde todos pegam seus pratos e os levam à cozinha, faça o mesmo. However, se o jantar for servido à francesa e houver criados que recolham os usados, permaneça, indiferente, em sua cadeira. O bom hóspede adapta-se ao generoso anfitrião.

Nenhum desses meus ensinamentos, porém, garante que não haverá riscos nesse reencontro que, in fact, deriva de um encontro não acontecido. As possibilidades são tão grandes que eu adoraria estar lá para ver tudo de perto. Mas não quero correr o risco de atrapalhar...

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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