Matthew Farrell
Matthew Farrell

Outras paradas

Desembarques e cenários inesquecíveis

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2017 | 04h28

Nenhuma operadora consegue prometer com exatidão os pontos de visitação de um cruzeiro pela Antártida. O motivo é simples: o clima ali muda repentinamente. Com a ajuda de mapas meteorológicos, o chefe da expedição planeja para o dia seguinte os pontos de visitação. A ideia é que cada desembarque coloque o visitante em contato com ambientes e animais diferentes dos dias anteriores. Aqui, os lugares mais marcantes por onde passei. 

Baily Head, Ilha da Decepção

Formada pela erupção de um vulcão inativo, a ilha tem formato de ferradura e é uma das mais visitadas pelos cruzeiros. Mas poucos guias haviam desembarcado nesse ponto, que geralmente tem muitas ondas. Vimos de perto a mais pulsante colônia de pinguins-de-barbicha da Península Antártica. Com mais de 150 mil indivíduos, esta cidade tem enormes vias – as chamadas “highways de pinguim” –, por onde enormes grupos vão à praia se alimentar de krill e trazer pedrinhas para seus ninhos.

Ilha D’Hainaut, Porto Mikkelsen

Pequenina, a ilha resume bem o que é uma vila de pinguins-gentoo, com cerca de 15 mil indíviduos. Agrupados em ninhos, por casais, e em espécies de quarteirões, os pinguins transitam desajeitados por caminhos esburacados. No alto da colina, há uma antena, e do lado oposto, uma pequena casa de madeira construída como posto de sobrevivência pela marinha argentina. 

Antarctic Sound,  Mar de Weddell

Era para ser o único dia sem desembarques, por causa de fortes ventos que chegavam a 80 km/h. Mas virou um desfile de icebergs tabulares, com o topo bem horizontal e plano, e outros que já haviam girado e tinham seus topos cobertos com o que parecia ser neve macia. Margeamos com o navio uma vasta camada de fast ice, formação de gelo extensa, com altura de 50 centímetros a 2 metros, atrelada ao continente ou a geleiras. Sobre ela, algumas focas e os únicos pinguins-de-adélia da navegação. 

Porto Neko, Península Antártica

Ponto de desembarque confortável, com águas sempre calmas, de um azul-chumbo. Cerca de 30 mil gentoos se espalhavam pela baía enquanto algumas focas-de-weddell repousavam preguiçosas. As montanhas formam um anfiteatro natural, com uma geleira de onde um enorme bloco se desprendeu. Ali foi celebrado o casamento entre Habir, o médico indiano da expedição, e Laura, sua noiva francesa. Pinguins passando ao redor e uma neve leve caindo na hora do “sim” deram o tom de conto de fadas da cerimônia celebrada pela ornitóloga Hannah.

Ilha Half-Moon, Shetland do Sul

No último desembarque da viagem, descobri que os saltitantes pinguins-de-barbicha não eram as criaturas mais fofas do mundo. Em meio a paredões de basalto forrados por um líquen vermelho, um único exemplar de pinguim-de-testa-amarela foi aceito e incluído entre os mais de 40 mil de barbicha. Um inesperado par de elefantes-marinhos deu as caras. Na ilha em formato de meia-lua, como sugere seu nome, encontrei ainda uma mamãe foca-de-weddell com seu bebê, de cerca de um mês. Entre uma mamada e outra, o pequeno ia descobrindo suas nadadeiras e cauda. E derretia os corações. 

Ilhas Falkland (ou Malvinas)

Foi o primeiro desembarque depois da saída, dois dias antes, de Puerto Madryn, na Argentina. Port Stanley, a capital, é um pedaço da Inglaterra, com casas em estilo vitoriano, cabines telefônicas vermelhas e mão inglesa. Durante poucos meses, em 1982, o local ganhou o nome de Puerto Argentino, antes de as tropas inglesas retomarem o controle das 776 ilhas na Guerra das Malvinas, que matou 907 pessoas. Diferentemente dos outros desembarques, ali vivem 3 mil habitantes entre uma grande concentração de vida selvagem. 

Os 55 mil visitantes que no ano passado aportaram em cruzeiros nas Falkland encontraram em Port Stanley lojinhas de souvenir, três pubs, uma igreja católica e uma anglicana. Um museu narra a saga desde os colonos pioneiros no início do século 19. Um dos legados tristes da guerra dos anos 1980 são as 20 mil minas terrestres ainda ativas em 117 áreas suspeitas. Tudo bem cercado e sinalizado, como na idílica praia de Gipsy Cove, cuja areia não pode ser pisada. Um grupo de zimbabuanos trabalha diariamente para livrar as ilhas desse pesadelo.

Com praias de águas translúcidas a ilha de West Point honrou a responsabilidade de ser o cartão de visitas da viagem. Debruçada sobre um penhasco à beira-mar, a colônia de pinguins-de-penacho-amarelo (rockhopper) e albatrozes é estonteante. Tanto ou mais do que as águas de The Neck Beach, praia com águas tão claras que justificariam a confusão das ilhas Malvinas com as tropicais Maldivas, lá no Oceano Índico. Ali vimos a maior diversidade de pinguins da viagem num único lugar, com gentoos, reis e de Magalhães. E era só o começo. 

Rotina animal

Para não confundir 

É difícil entender as diferenças sem vê-las de perto. O básico: lobos-marinhos têm orelhas e focas, não. As de Weddell têm manchas pela barriga e cabeça pequena.  Já as focas-leopardo são um pouco maiores (chegam a quase 4 metros), mais agressivas e têm o focinho arredondado. 

Voar, voar 

A maior parte das aves vistas na viagem não voa (sim, estamos falando dos pinguins). Mas outros pássaros marcam a jornada. O albatroz-real e o albatroz-errante têm envergadura de até 3,50 metros e são as maiores aves do mundo. Os petréis-gigantes têm olhar ameaçador e comem carniça. Já o biguá-das-shetland exibe uma mancha azul ao redor dos olhos. 

Rainhas do mar 

Nenhum outro lugar do planeta concentra tantas espécies diferentes de baleia – os meses de janeiro e fevereiro são os melhores para avistá-las. Mais numerosas, as jubarte começam a chegar em novembro com filhotes. Com até 27 metros e menos rara do que a azul, a baleia-sei é a segunda maior do mundo. Orcas são raras, mas podem dar as caras em grupos.

O dono do harém 

Elefantes-marinhos até toleram outros machos ao redor, desde que não mexam com seu harém – que pode chegar a 50 fêmeas. Muito maiores, os machos podem ultrapassar os 6 metros de comprimento e 3 toneladas, enquanto as fêmeas não passam dos 3 metros. Vivem 80% do tempo no mar e podem mergulhar a profundidades de até 1.600 metros.

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