Devon e Cornualha

A jornada pela Cornualha se desenrola em capítulos, caminhando pelos clássicos de Conan Doyle, Daphne du Maurier e Agatha Christie, entre cenários que mesclam ficção e realidade

HEITOR REALI / TEXTOS, FOTOS , SILVIA REALI / TEXTOS, FOTOS , ESPECIAIS PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2014 | 02h07

Antes de chegar ao sudoeste da Inglaterra, nos condados de Devon e Cornualha, nosso conhecimento sobre a região se baseava principalmente nos clássicos da literatura fantástica e policial. Foi ali que muitos escritores britânicos se inspiraram para desenvolver tramas que, em pouco tempo, seriam best-sellers.

Um lugar que, em nossa imaginação, sempre foi o território mítico dos Cavaleiros da Távola Redonda, dos piratas e contrabandistas, de cottages (cabanas) de pedra sobre rochedos, de pássaros que, sem motivo aparente, atacam as pessoas, de crimes misteriosos. E, ao mesmo tempo, cenário de tórridos romances.

O que impressiona quem chega pela primeira vez a essas terras, último bastião da cultura celta na Inglaterra, região forjada por mineiros e pescadores, é a força de sua natureza: o litoral açoitado pelo mar revolto, penhascos negros que emergem das águas oceânicas, longas extensões de falésias, pântanos, vastos monólitos que, dizem, são marcos de templos do Neolítico. Tudo isso, por vezes, envolto em denso nevoeiro. Nesse pano de fundo desenham-se as feições góticas dos vilarejos, onde se destacam as silhuetas de cúpulas de igrejas, lápides e cruzes celtas recobertas de musgo, e ruínas de castelos sombrios. Um cenário que nos coloca na zona fronteiriça entre realidade e tudo o que a transborda - magia e superstição. Por isso mesmo, um universo inspirador.

Muitas dessas paisagens se mantêm praticamente as mesmas desde quando Arthur Conan Doyle (1859-1930), Agatha Christie (1890-1976), Daphne du Maurier (1907-89), Virginia Woolf (1882-1941), J.R.R. Tolkien (1892-1973), D.H. Lawrence (1885-1930), Marion Z. Bradley (1930-99), William Golding (1911-1993), Rosamunde Pilcher (1924) e tantos outros escritores ali ambientaram suas histórias, fossem elas reais ou fictícias. Mas o que esses autores, de fato, têm em comum em muitos de seus livros - alguns deles, verdadeiras obras-primas - é uma narrativa indissociavelmente ligada ao clima de magia e encantamento que a envolve. E que se reveste de vida, quase como um personagem.

Aula de literatura. O ponto de partida desse processo criativo já se pode identificar na estação ferroviária de Reading, a mais próxima do Aeroporto de Heathrow, em Londres, em direção ao sudoeste. A luz tênue e difusa resultante da névoa do amanhecer, que encobre as plataformas e os trens, evoca de imediato as nuvens do vapor que envolvia as antigas estações. Faltam apenas o apito e o silvo dos pistões.

Algumas cenas detêm tal poder de magia que nos transportam de imediato para um mundo de ficção. Não precisamos da plataforma 9 ¾, como fez Harry Potter para chegar à escola de bruxos, em Hogwarts, e tampouco trombar com um fantasma. Mesmo porque fantasmas são viajantes noturnos, já dizia o poeta gaúcho Mario Quintana.

Agatha Christie habitualmente utilizava esse meio de transporte para ir de Londres a Torquay, em Devon, e o trem, como ela declarou certa vez, "sempre exerceu grande fascínio sobre mim". Neles, ambientou muitas de suas novelas policiais.

Prefácio. Nossa primeira parada seria St. Ives, na Cornualha, a 6 horas de trem de Londres. Trata-se de uma das regiões da Inglaterra onde há menos sinais de transição da sociedade agrícola para uma industrial moderna.

O trem parte. Passados os vilarejos, as casas se espalham aqui e acolá pelos campos fronteiriços que separam as terras cultivadas das áridas. Nestas, os poucos vestígios de ocupação humana que persistem assumem usualmente a forma de uma manor house solitária de algum lorde ou a cabana de um pastor.

Ao olhar pela janela, segurando uma caneca de chá, a sensação é que, às vezes, apenas o mistério de uma paisagem é suficiente para salvar uma história. E que grande história! Foi o caso dos pântanos de Dartmoor, cujos campos, nas palavras de Conan Doyle, "se desenham em longos planos de quadrados verdes, com pequenas elevações de morros cinzentos que se coroam por cristas de granito recortados em formas fantásticas, quase invisíveis através da garoa e da neblina". Um lugar perfeito para galopar? Pode tirar seu cavalinho da chuva. Aquela região encerra uma infinidade de segredos, lendas, superstições e mistérios em seu labirinto aquoso de terras movediças. Talvez por isso tenha sido cenário do seu mitológico livro O Cão dos Baskervilles.

Nesse ambiente realista, o escritor tomou emprestado o nome de um camponês - Baskerville - e o associou a um dos mistérios eternizados entre os moradores da região: o do Túmulo de Cabel, que narra, desde 1656, o ataque de ferozes cães no pântano. Cristalizado no imaginário popular do vilarejo de Buckfastleigh, até hoje as mães evitam que seus filhos saiam de casa ao anoitecer. Como no livro: "aconselho como meio de prudência a não atravessar os pântanos naquelas sombrias horas em que os poderes do mal estão exaltados". O clima obscuro dessas aldeias, a sarabanda dos pássaros se acomodando nas árvores quando a noite começa a chegar, a "meia-lua que surge no meio de nuvens velozes", o som do vento, tudo contribui para que ali se instale uma atmosfera de inquietude.

Do mesmo modo, St. Ives, Fowey, Polperro, Tintagel, Zennor, na Cornualha, e Torquay, na região vizinha de Devon, estão entre os lugares que, definitivamente, influenciaram muitos escritores e cujos cenários são parte essencial de suas obras. Uma viagem a essa região é uma espécie de retomada das obras literárias que moldaram nossas impressões a seu respeito.

Todas nasceram de um momento mágico que transformou para sempre a vida do autor e, por consequência, se reflete em seus leitores. Mesmo quando terminada a leitura do livro, retornamos a ele ao tocar sua paisagem. E mais: sentimo-nos íntimos da história.

 

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