Viagem

Paraíba: do litoral ao cariri, veja o que visitar por lá

As praias de águas transparentes estão lá, mas o Estado tem mais a oferecer, como bate-papos espontâneos e refeições saborosas

14/02/2017 | 05h00    

Felipe Resk - O Estado de S. Paulo

Pôr do sol na Praia do Jacaré ao som de 'Bolero de Ravel'

Pôr do sol na Praia do Jacaré ao som de 'Bolero de Ravel' Foto: Tiago Queiroz/Estadão

JOÃO PESSOA - De um dos litorais mais bonitos do Nordeste à cidade que menos chove no País, a Paraíba tem muito a ser explorado. O Estado, no meio caminho entre Pernambuco e Rio Grande do Norte, aposta em paisagens naturais impactantes para atrair turistas o ano todo. Sim, tem o pôr do sol para fotografar e praias de areia branca e água transparente para coroar as tardes de verão. Mas não só. Prepare-se para conhecer pessoas espontâneas e acolhedoras, apreciar uma gastronomia de qualidade e colecionar boas recordações.

Simpática, a orla de João Pessoa oferece diversos bares e restaurantes que servem comida típica e petiscos à beira-mar, capazes de fazer esquecer, sem muito esforço, que esta é uma cidade com mais de 800 mil habitantes, com seus dilemas e vícios de metrópole. Com patrimônio histórico enriquecido por casarões e igrejas coloniais, a capital paraibana está localizada no limite oriental das Américas. É na Ponta do Seixas onde o sol nasce primeiro.

Espalhados pela região metropolitana também existem muitos locais para curtir. No pequeno município de Conde, as praias paradisíacas não se resumem a Tambaba, ícone do naturismo no Brasil. Há redutos praticamente intocados pelo homem, paisagens impressionantes e passeios divertidos a bordo de um quadriciclo. Às margens do Rio Paraíba, em Cabedelo, ocorre diariamente o pôr do sol ao som de Bolero de Ravel, um dos mais populares e tradicionais espetáculos do Estado (ainda que tenha sofrido algumas mudanças de 2015 para cá).

Farol do Cabo Branco, na Ponta do Seixas, o ponto mais ao leste da América do Sul 

Farol do Cabo Branco, na Ponta do Seixas, o ponto mais ao leste da América do Sul  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Bode. A caminho do interior, os coqueiros vão perdendo espaço para palma, mandacaru e xique-xique. Em Cabaceiras, no Sertão do Cariri, onde praticamente não chove nos 365 dias do ano, fica o Lajedo do Pai Mateus, lugar marcado por misticismo e formações arqueológicas preciosas, sem igual no Brasil. No fim de maio, a Festa do Bode Rei movimenta o lugar com muito forró e até um tal triatlo de bode.

O bode também está presente em vários pratos do cardápio da Paraíba. Reforçada, a comida típica conta com carne de sol, arrumadinho, macaxeira para o almoço, além de cuscuz, tapioca e queijo coalho no café da manhã. Isso sem esquecer dos frutos do mar, com direito a muita lagosta e camarão. Há ainda uma diversidade de sucos tropicais – caju, mangaba, umbu, graviola, cajá. 

De riso fácil, o povo da Paraíba é muito animado e solícito. Se puderem, as pessoas ficam conversando por horas. São “faladoras”, como gostam de dizer. Por sinal, uma das experiências mais legais da viagem é ter contato com o vocabulário riquíssimo de lá. Experimente escrever em um caderno o significado de palavras e expressões. Não se diz “abóbora”, mas “jerimum”. “Caqueado” é “astúcia”, “macete” é “manha”. Já o “que só a gota” serve para coisas em excesso. 

Mas nem precisa se preocupar tanto se por acaso alguém disser que “vai fazer calor que só a gota”. Praia, meu amigo, é o que não falta.

Praia de Tambaú, no litoral da Paraíba

Praia de Tambaú, no litoral da Paraíba Foto: Tiago Queiroz/Estadão

ONDE FICAMOS

Único resort da Paraíba, o Mussulo fica em Conde, a 20 quilômetros ao sul de João Pessoa, em uma área de 96 mil metros quadrados. Os 101 bangalôs (para duas ou quatro pessoas) são agradáveis e espaçosos – a estada é animada por atividades promovidas por recreadores de manhã à tarde, inclusive para adultos, e apresentações de forró, à noite. O clima é bem família. 

Mussulo Resort, em Conde, na Paraíba

Mussulo Resort, em Conde, na Paraíba Foto: Divulgação

O restaurante fica ao lado de um lounge e tem vista para a piscina. Equipada com rede de vôlei e cascatas, é o espaço preferido da criançada. Para dar um pulo na praia, basta acionar uma das vans do resort que levam os hóspedes para Tabatinga, onde mantém um serviço de bar (o Mussulo Beach Club). O resort funciona no sistema all-inclusive e o pacote inclui também bebidas alcoólicas (exceto importadas) e equipamentos como sauna, academia e quadra de tênis. Diária a partir de R$ 882,50 o casal, grátis para duas crianças até 12 anos.

SAIBA MAIS

Aéreo: em abril, o trecho direto SP – João Pessoa – SP sai desde R$ 643 na Avianca; R$ 714 na Gol; R$ 791 na Azul; R$ 1.064 na Latam.

Terrestre: o aluguel de carro no aeroporto de João Pessoa sai desde R$ 600, em média (6 dias). Opções na Eurocar, Localiza, Belmari e Movida. Sem carro, há agências que fazem passeios de um dia. Para Cariri, por exemplo, há tours na Reno (R$ 140) e Luck Receptivo (R$ 179). 

 

Site: destinoparaiba.pb.gov.br.

*O repórter viajou a convite do Mussulo Resort by Mantra.

Pescador exibe peixes fresquinhos na Praia de Tambaú

Pescador exibe peixes fresquinhos na Praia de Tambaú Foto: Tiago Queiroz/Estadão

 

Catamarã: novo camarote para ver o pôr do sol no Jacaré

Repaginado depois de muitas polêmicas, passeio segue sendo um clássico paraibano

Pôr do sol na Praia do Jacaré: catamarãs no lugar das barracas

Pôr do sol na Praia do Jacaré: catamarãs no lugar das barracas Foto: Tiago Queiroz/Estadão

CABEDELO - Na Paraíba, quem diz que um clássico nunca muda está errado. O famoso espetáculo do pôr do sol na Praia do Jacaré, responsável por reunir centenas de turistas todos os dias em Cabedelo, cidade vizinha ao norte de João Pessoa, foi repaginado – não sem protestos, é verdade. 

Os bares sobre palafitas, que por anos disputaram clientes interessados em acompanhar o crepúsculo às margens do Rio Paraíba, não existem mais. Agora, são os catamarãs que assumiram o posto de camarote do evento e praticamente tomam conta da atração mais popular do Estado.

Uma coisa permanece igual: a trilha sonora. Com mais de 5.700 apresentações no currículo, o músico Jurandy do Sax continua executando o Bolero de Ravel, composição do francês Maurice Ravel (1875-1937), de dentro do rio, enquanto o sol vai se escondendo atrás da mata ciliar. Às 17 horas, ele surge à bordo de uma canoa, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo e vestido de branco da cabeças aos pés (exceto pelo lenço amarelo que traz no pescoço). Parecendo entrar na dança, gaivotas cortam o céu, e o rio vai se tingindo de dourado. A cena resume um pouco a beleza da Paraíba.

Então agitados por quadrilhas e apresentações de forró, os catamarãs ficam quietinhos para ouvir Jurandy tocar. Ele passa a maior parte dos 15 minutos da música ziguezagueando na frente das embarcações. Ao fim, sobe de um em um, onde se apresenta, fala um pouco dos mais de 16 anos de Bolero de Ravel ao pôr do sol e executa mais três ou quatro canções. Nem se compara à atenção prestada aos que ainda preferem ficar em pé no calçadão da margem, muito menor.

Música e dança nos catamarãs

Música e dança nos catamarãs Foto: Felipe Resk/Estadão

Fim das palafitas. Mas nem sempre foi assim. Após a ordem judicial que fez tratores passarem por cima dos bares na Praia do Jacaré, em 2015, Jurandy protestou. Fez desabafo nas redes sociais, chegou a declarar luto. Hoje, já adota um discurso mais resignado. “Vivemos um período de ajustes, porque os restaurantes deixaram uma lacuna”, diz o músico. “Antes as pessoas vinham mais cedo, havia um período maior de movimentação comercial, mas, por outro lado, a contemplação do espetáculo está maior agora.”

Era comum bares e catamarãs discutirem por espaço para assistir à apresentação – problema que deixou de existir com a sobrevivência de só um dos empreendimentos que capitalizavam o show. Ainda que não cobrassem couvert, os restaurantes lucravam com bebidas e petiscos. Hoje, se quiser ter uma visão privilegiada, é preciso desembolsar entre R$ 30 e R$ 40 por pessoa, preço da entrada na embarcação.

No catamarã, as atrações começam antes de o sax de Jurandy emitir a primeira nota, que também será reproduzida nas caixas de som dos barcos. As primeiras embarcações começam a sair às 16 horas e iniciam um tour pelo Paraíba. O clima é de muita descontração, com guias turísticos bem humorados e músicos (há uma clara preferência por saxofonistas que, vale dizer, não podem tocar o Bolero, uma vez que Jurandy patenteou a ideia).

O passeio atrai crianças, adultos e idosos. O ideal é comprar o ingresso com antecedência, porque há risco de lotar – os hotéis têm indicações. Um dos pontos altos é quando Lampião e Maria Bonita, dançarinos profissionais, convidam os turistas para o forró. Apesar de a fantasia de cangaceiro soar meio fake em um catamarã, a risada é garantida. Depois, o grupo forma uma quadrilha animadíssima, especialmente porque são poucos os que realmente dominam a dança.

Em Conde, vento e paisagens incríveis a bordo de um quadriciclo

Cânions, praias desertas, o encontro do rio com o oceano, tudo a bordo de um quadriciclo

Passeio de quadriciclo pelo litoral da Paraíba

Passeio de quadriciclo pelo litoral da Paraíba Foto: Felipe Resk/Estadão

CONDE - Capacete ajustado, é só assumir o controle. É possível sentir a brisa do mar no rosto e acompanhar a paisagem mudando em questão de minutos. Cânions, praias desertas, o encontro do rio com o oceano, tudo ao alcance do tour a bordo de um quadriciclo pela cidade de Conde, a 19 quilômetros de João Pessoa.

Fácil de operar, o quadriciclo dá autonomia aos turistas, não exige carteira de habilitação e proporciona um perspectiva diferente para admirar o cenário e curtir as praias. Com a vantagem de que os roteiros também podem ser feitos à noite.

O tour guiado de três horas da empresa RedRock custa R$ 160, para duas pessoas por veículo. O grupo parte do restaurante Tropicália, o ponto de encontro na Praia de Coqueirinho. A partir dali, será preciso percorrer estradas de terra para acessar alguns locais. Use óculos de sol para proteger os olhos da poeira. 

Seguimos todos para a área dos cânions, formados a partir da erosão. Ao se aproximar, a terra vai mostrando uma paleta de cores. Lado a lado, os cânions formam um vale em tons de laranja, lilás e branco, pontilhado pelo verde da vegetação.

Esta parte do trajeto exige pouco do condutor. Aproveite para pegar o jeito no quadriciclo, que demora um pouco mais do que um carro para responder ao comando da direção.

Vista do Mirante Dedo de Deus

Vista do Mirante Dedo de Deus Foto: Felipe Resk/Estadão

Uma das cenas mais marcantes da viagem é o Mirante do Dedo de Deus, falésia que oferece uma visão panorâmica da divisa entre as praias de Coqueirinho e Tabatinga. Do alto se vê toda a faixa de areia branca, os arrecifes e o mar. É fácil se sentir privilegiado por estar ali. Pode abrir os braços e estampar o sorrisão porque nem mesmo uma pose cafona vai estragar a selfie.

Em seguida, o grupo para na Casa do Doce de Tambaba, uma loja construída com madeira e barro e decorada com chita, em um assentamento quilombola onde vivem 64 famílias. Lá, as plantações de abacaxi, mamão e maracujá viram doce caseiro. Há redes instaladas à sombra. 

Com cerca de 60 metros de altura, o Castelo da Princesa é o próximo mirante. Trata-se de uma voçoroca à beira-mar, já na divisa da praia de Tambaba, que ganhou o nome por causa do seu formato, que lembra uma torre esculpida pelas chuvas e pelo vento. A paisagem é bonita – a torre à frente, o oceano ao fundo – e inspira poses irreverentes. Visitantes usam ilusão de óptica para fingir que está tocando o topo do castelo.

É hora da parte mais difícil do roteiro: a Barra do Graú, onde o rio encontra o mar, na divisa com o município de Pitimbu. O acesso é complicado. Há subidas e descidas, buracos na estrada de terra, mato e poeira, desnível na trilha. Avistar os coqueiros se aproximando no horizonte é um alívio. 

A Barra do Graú é uma praia deserta, perfeita para um mergulho na água quente. Mais à frente fica o braço do rio, margeado pelo mangue. Um cenário que certamente faz valer a pena o esforço para chegar até ali. 

DICAS GASTRONÔMICAS

Em João Pessoa, o Mangai, rede de restaurantes de comida típica, tem com garçons vestidos de cangaceiros. Peça a carne de sol desfiada com nata ou o suvaco de cobra (carne de sol moída e milho verde). Self-service a R$ 61,90 o quilo.

Lagosta gigante do Tropicália

Lagosta gigante do Tropicália Foto: Felipe Resk/Estadão

A lagosta é o carro-chefe do restaurante Tropicália, na Praia de Coqueirinho, no Conde. Servida com batata souté e arroz com brócolis, é maior que um antebraço (!). O preço é proporcional ao molusco: o prato sai por R$ 280.

Cariri: calor, silêncio e cenários cinematográficos

Andar por Cabaceiras é dar de cara com o sertão duro e com um cenário onde já foram rodados mais de 30 filmes

Lajedo do Pai Mateus, no Cariri paraibano 

Lajedo do Pai Mateus, no Cariri paraibano  Foto: Paulo Vitor /Estadão

CABACEIRAS - A quentura é tanta que a roupa gruda no corpo. Com o sol a pino e em meio a árvores que não fazem sombra, o cabrito, costelas à mostra, sai balançando o chocalho no pescoço. Em um raio de muitos metros, é o único barulho que se ouve. Estamos em Cabaceiras, cidadezinha de 5 mil habitantes no Cariri paraibano, dona do menor índice pluviométrico do País e de uma paisagem marcada por formações geológicas raríssimas, que se sobrepõe à vegetação castigada pela seca. 

O destino fica a poucos quilômetros dali: o Lajedo do Pai Mateus, principal atrativo da região.

Mesmo antes de se embrenhar na trilha que leva a rochas milenares, vale apreciar o cenário. Andar por Cabaceiras é dar de cara com o sertão duro. O chão, literalmente de terra rachada, as casas de pau a pique e o gado magrinho já atraíram muitos olhares para a cidade a 220 quilômetros da capital. Ou melhor, muitas câmeras. São mais de 30 filmes rodados nessas redondezas, entre eles o clássico nacional Auto da Compadecida (2000), que fizeram valer o apelido de Roliúde Nordestina – com direito até a letreiro, como na Hollywood americana.

Chegando mais cedo, uma boa pedida é almoçar no Hotel Fazenda Pai Mateus, com comida típica do sertão bem caprichada. De lá, partem trilhas de ecoturismo que movimentam a região. Dá até para tirar um cochilo na rede e esperar o sol esfriar um pouco. Na mochila, água, protetor solar e repelente para espantar as muriçocas – que no Cariri Velho ninguém é de enrolar a língua para falar pernilongo. 

Com mais de 40 metros de altura, a Saca de Lã, primeira parada, é um monumento natural em formato de pirâmide e lembra grandes sacos de algodão, um em cima do outro. Como as pedras parecem ter sido obra planejada, a formação serve de pano para a manga de muita gente que acredita em extraterrestre. O guia Gerson Lima, de 30 anos, que não faz coro para ET nenhum, diz que foram milhares de anos para ganhar a aparência que têm. “Conforme a rocha dilata pelo calor e depois resfria, vai se fraturando em formato de amarrações – não segue uma fratura até em baixo, vai quebrando bloco por bloco.”

De cima das rochas, os olhos só alcançam o esbranquiçado da caatinga e o céu azul, azul. Há anos, o braço do Rio Boa Vista, que corre às margens da Saca de Lã e deságua no Rio Taperoá, está seco. Nas cheias, cada vez mais raras, o córrego chega a 6 metros de profundidade. 

Aos poucos, o cenário muda. O carro leva até a trilha do Lajedo do Pai Mateus, nome do eremita que morou em uma das grutas e fazia rezas em troca de comida no século 18, segundo a narrativa local. A paisagem é tomada por uma imensa base de granito. Em cima dela, ficam pedras gigantes e arredondadas, os chamados matacões. Só existem formações geológicas semelhantes na África e na Austrália.

Casa de pau-a-pique no Cariri paraibano

Casa de pau-a-pique no Cariri paraibano Foto: Felipe Resk/Estadão

São 2,5 quilômetros a pé até o guia apontar a casa do curandeiro, que dormia e comia em cama e mesa de pedra. Na mesma gruta há pintura rupestre, vestígio dos índios cariris que habitaram a região. Marcas de mãos, um sinal de rituais de passagem, estão impressas na rocha. 

O Lajedo se revela um espaço de contemplação, daqueles que fazem a gente se sentir pequeno diante do mundo. Também existem várias formações curiosas para explorar. Há a Pedra do Capacete e da Orelha, e, se você ouvir o som que faz a Pedra do Sino, também vai saber por que a chamam dessa maneira. Já na Pedra do Desejo é a oportunidade engrossar o misticismo do local e fazer uma fezinha no acaso. 

Ao se deitar, o sol mancha o horizonte de laranja e lilás, em uma cena que arrancaria aplausos se o morador do Cariri fosse cabra de aplaudir o sol. Difícil não sentir a paz do lugar. O Lajedo é para quem gosta de escutar o barulho do silêncio.


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