Roosevelt Cassi/Reuters
Roosevelt Cassi/Reuters

Paraitinga da folia

Apenas marchinhas foram permitidas no carnaval deste ano

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2018 | 03h00

Caiu uma chuva daquelas que, estivéssemos eu e você voltando para casa após um dia de trabalho, nosso bom humor teria ido junto com a água. Mas era fevereiro, era carnaval, e nós desfilávamos, eu e minha amiga, nossos adereços e saias de chita pelo centro histórico de São Luiz do Paraitinga, um clássico dos destinos foliões.

Nem de longe a chuva estragou a festa. Ao contrário, aliviou a pressão do sol quente que brilhava na cidade do interior de São Paulo desde as primeiras horas do dia. E aprimorou o que o carnaval é capaz de fazer facilmente: unir as pessoas, que cantavam os mesmos versos das marchinhas históricas da cidade, incansavelmente. “Ooo, Barbosa / Essa curva é perigosa...” Íamos felizes sob a chuva, dando voltas na praça da Igreja Matriz. 

Se você nunca foi ao carnaval de Paraitinga, este é o clima por lá. A tríade cidade histórica, marchinhas e tradição é sua essência e faz com que a festa esteja no grupo daquelas que devem ser conhecidas.

Foi triste saber do cancelamento, em 2017, da programação oficial de carnaval por falta de verba. Além disso, um conjunto de regras foi decretado à época. Para “manter a ordem”, proibiu-se, por exemplo, caixas de som nas vias públicas e determinou-se o fechamento dos bares até meia-noite. 

Em 2018, o carnaval luizense voltou a existir oficialmente, com expectativa de atrair 150 mil pessoas. Felicidade geral. “Juca Teles / Amora em flor, boca do povo / São palabras de amor...”.  

A festa, porém, veio com ainda mais restrições. Entre elas, a que proibiu, sob multa de R$ 1.028, qualquer estilo musical que não seja marchinha nas áreas delimitadas para o evento, incluindo o centro histórico. Outra proibiu garrafas de vidro no espaço. Uma terceira determinou bares fechados na passagem dos blocos e bandas, das 20h até meia-noite. Houve taxas para motorizados de R$ 10 a R$ 150; zona azul de R$ 25 a R$ 500; e multa para quem fizesse xixi na rua. Ufa! 

A lista de regras da prefeitura de Ana Lúcia Bilard Sicherle (PSDB) traz à tona muitas discussões sobre liberdade individual e coletiva e preservação histórica e cultural. No que diz respeito à exclusividade das marchinhas, um dos argumentos do secretário de cultura de Paraitinga, Netto Campos, apoia-se na tradição. “Não tem sentido abrir mão de algo tão tradicional”, disse ele. 

Confesso que minha primeira reação diante disso foi a da recusa. O que não faz sentido é que o poder público determine o que as pessoas vão ouvir numa festa de rua e popular. Por outro lado, me preocupo que festas populares sejam atropeladas pela indústria pop. É também verdade que a disputa de individualismos pode resultar num duelo onde não se ouve nem funk, nem sertanejo, tampouco Juca Teles. E que isso incomode, sobretudo, os moradores – destinos turísticos de festa têm sempre de lidar com os bônus e ônus. 

Diante de tantas variáveis, a questão parece complexa para se resumir ser a favor ou contra. Também é impossível encerrar aqui a reflexão sobre o fato de que nem as tradições podem escapar das mudanças que o tempo traz. 

É, contudo, difícil aceitar que a proibição seja o melhor caminho para a reeducação que, acredito, se pretende com tais regras. Mas é o caminho mais fácil, e, infelizmente, o mais adotado pelo poder público. Proibir não faz a tradição ser preservada como consequência direta. Tampouco sugere uma mudança de consciência sobre os limites individuais. 

Apelei à memória e cheguei à conclusão de que naqueles meus dias de festa e chuva em Paraitinga, não conheci ninguém interessado em ouvir outra coisa que não as marchinhas dos blocos. Quando eles paravam de tocar, aí sim se ouvia uma ou outra música pop do momento. E, gostando ou não, compreendi que isso fazia parte da festa, de uma festa que, por essência, é livre e coletiva. 

Duvido que a maioria dos foliões que tenham ido ou pretendam ir a São Luiz do Paraitinga o façam por causa da caixa de som tocando Vai Malandra. Como folion que sou, ouso dizer que o risco de as marchinhas perderem seu protagonismo na festa luizense está longe de ocorrer. O número de pessoas atrás do novo boneco do Juca Teles talvez comprove esta opinião. 

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