Viagem

Peculiaridades do exílio de Victor Hugo

As paisagens da ilha de Guernsey inspiraram o escritor francês em seu período mais criativo. Ali, ele se dedicou também a um hobby: decorar lindamente sua casa

11/09/2012 | 03h11

ANN MAH / GUERNSEY , THE NEW YORK TIMES

Em outubro de 1855, o francês Victor Hugo chegou à ilha de Guernsey debaixo de chuva, em busca de refúgio. Como feroz opositor do império de Napoleão III, Victor Hugo foi exilado de sua terra natal, depois de banido da Bélgica e também da ilha de Jersey. No desespero por um novo asilo, foi parar neste pedaço do território britânico em meio ao Canal da Mancha.

Victor Hugo encontrou em Guernsey a "rocha da hospitalidade e da liberdade", como relatou no romance Os Trabalhadores do Mar. O escritor viveu na ilha por 15 anos e lá esbanjou criatividade, se dedicando ao épico romance Os Miseráveis.

"O exílio não me retirou somente da França, mas quase me exilou da Terra", escreveu em uma carta. Em seu isolado hábitat, a 48 quilômetros da costa da Normandia, na França, Victor Hugo passou o período mais produtivo de sua vida.

Hoje, a ilha é mais conhecida por oferecer um outro tipo de benefício: o fiscal, graças às brandas leis financeiras. No entanto, a Guernsey de Victor Hugo - um lugar de silenciosas contemplações, de caminhadas à beira de penhascos com baías sedutoras - ainda está presente, assim como outros elementos relatados pelo escritor.

Logo que seu barco aportou na capital Saint Peter, Victor Hugo ficou maravilhado. "Mesmo com chuva e neblina, a chegada à Ilha de Guernsey foi esplêndida", contou ele em uma carta enviada à sua mulher.

Os viajantes que hoje chegam de ferry, vindos de Jersey ou Weymouth, na Inglaterra, ou St-Malo, na França, têm a mesma glamourosa vista do porto, com barcos atracados balançando suavemente na água que reflete as casinhas das colinas próximas. Eles encontram também um povo amável e hospitaleiro: "De tão pequena, todo mundo conhece todo mundo", afirma Mark Pontin, proprietário do Ship and Crown, pub onde a amante de Victor Hugo, Juliett Drouet, ficou quando chegou por lá. "A maioria dos moradores conhece as histórias de Victor Hugo e tem tempo de sobra para falar sobre a ilha."

Mergulhado no isolamento, o escritor embarcou em seu período mais criativo não apenas em produção literária, mas também em um trabalho de arte: a decoração de sua casa, a Hauteville House.

Em 1927, a neta do escritor e seus bisnetos doaram a propriedade para Paris, que a transformou em um museu aberto de abril a setembro. Adentrar a casa, cheia de objetos de arte e tapeçaria, é como penetrar na imaginação de Victor Hugo, preenchida por simbolismos ocultos e desafiantes declarações com pitadas de humor. "É como uma jornada", diz Cedric Bail, assistente de conservação que guiou minha visita.

Victor Hugo passou quase seis anos nesse trabalho, vasculhando parafernálias em lojas da ilha que pudessem ser reaproveitadas como objetos decorativos. Sob seu olhar atento, dezenas de pedaços de madeira foram esculpidos ao longo de uma suntuosa lareira e encostos de cadeiras ornamentados se transformaram em molduras para as janelas.Nas paredes, pequenos rostos e textos escritos - "Pedaços de propaganda", explicou-me Bail. Sobre a porta da sala de jantar, uma frase: "Exilium vita est", ou seja: "A vida é um exílio".

Conforme subimos as escadas rumo ao piso superior, a atmosfera escura da casa dá lugar a ambientes mais iluminados. Uma espécie de estufa de vidro, muito brilhante, com um quarto espartano onde o escritor dormia rodeado de camas de empregadas e um escritório que tem vista para o Canal da Mancha.

De seus aposentados, chamados por Victor Hugo de "mirante", ele escrevia em pé ou sentado à uma escrivaninha, admirando a vista para as ilhas Sark e Herm e, mais ao fundo, seu amado território francês. Após passar as manhãs escrevendo, o autor dedicava as tardes para explorar Guernsey. Era tão familiar sua figura andante que uma estátua em sua homenagem no parque Candie Gardens retrata o escritor, com sua capa balançando ao vento.

Segui os passos do autor francês ao lado de Gill Girard, guia que me contava lendas locais enquanto percorríamos a ilha de carro. Paramos para que ela me mostrasse as Creux es Faies (Cavernas das Fadas), formação que fascinava o escritor.

Na minha última tarde em Guernsey, percorri o trajeto favorito de Victor Hugo: a caminhada de uma hora desde o porto pelos paredões da costa. Qualquer distração, até mesmo a chuva que me gelava o pescoço, se dissipava frente ao ruído do mar. De repente, Ferman Bay surgiu, com suas águas em tons de pedra preciosa brilhando em meio à névoa. O escritor costumava visitar a área, que até hoje só pode ser acessada a pé, para nadar e observar o movimento da maré.

Ele estava preparado para morrer em Guernsey. Mas quando o Segundo Império caiu, um triunfante Victor Hugo voltou a Paris, em 1870. Ele retornaria à ilha outras três vezes.

Calendário

  • 06mai

    Festa do Divino

    Marcada pela cultura popular e por procissões, a festa do Divino Espírito Santo dura dez dias (até 15) e é forte em São Luís do Paraitinga (SP) e em Paraty (RJ), onde ganhou atá DJs. Mais: bit.ly/divinoparaitinga e bit.ly/divinoparaty.

  • 08mai

    Corrida pelo bem

    Com largada simultânea em Brasília e outras 33 cidades do mundo – veja lista em bit.ly/runwings– a corrida Wings for Life tem renda revertida para pesquisa da cura de lesão na medula espinhal. Inscrições: US$ 30

  • 16mai

    Orgulho gay no méxico

    Receptiva ao turismo gay, Puerto Vallarta, no México, recebe até dia 30 o Vallarta Pride (vallartapride.com). Além do desfile no domingo (28), o evento terá festivais de música e cinema, além festas. Tudo grátis.

  • 20mai

    Jazz em Paraty

    Eumir Deodato, Rosa Passos e Thiago Espírito Santo são alguns dos artistas que se apresentam na Praça da Matriz, em Paraty, para as três noites de jazz, blues e soul do Bourbon Festival, até dia 22. Tudo grátis; bit.ly/viabourbon

  • 21mai

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    A atual culinária mais badalada do Brasil é celebrada em Belém no Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, batizado com o nome do mercado público. Até o dia 29, tem aulas, jantares com chefs e mais; bit.ly/viaveropeso

  • 25mai

    Festival das luzes em Jerusalém

    Com todas as atrações gratuitas e concentradas na área histórica, Jerusalém faz seu Festival de Luzes até 2 de junho, com projeções em locais como o Muro das Lamentações. Mais: lights-in-jerusalem.com

  • 25mai

    Cirque du Soleil na Broadway

    O Cirque du Soleil estreia seu primeiro show criado especialmente para a Broadway (broadwaycollection.com). Paramour é a história de uma atriz que tem de escolher entre um romance e sua arte. Desde US$ 55

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    Até dia 29, o 3º Festival Internacional de Dança apresenta números de variados estilos no palco do Teatro Municipal Brás Cubas. Para os profissionais, haverá aulas especiais; fidifest.com.br

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    Festival do Pinhão

    Santo Antonio do Pinhal (SP) terá quatro dias de festival dedicado ao pinhão. Receitas com o ingrediente serão vendidas na Praça do Artesão, que terá também barraca de cerveja artesanal e shows; bit.ly/pinhaopinhal

  • 27mai

    Horário de verão no Animal Kingdom

    A partir desse dia o parque Animal Kingdom, da Disney em Orlando, passa a fechar mais tarde, às 23 horas (era às 18 horas). A Árvore da Vida (Tree of Life) estreia nova iluminação e o Kilimanjaro Safari terá tours noturnos: bit.ly/aknoite; desde US$ 97.