Pelas camas do mundo

Pelas camas do mundo

A identidade de mr. Miles é uma curiosidade recorrente entre os leitores desta coluna. Eis por que se faz necessário repassar alguns pontos de sua nebulosa biografia, já publicados quando da aparição de sua primeira coluna neste caderno.

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2009 | 02h39

Cidadão inglês, natural do condado de Essex, nosso colaborador viajou longamente durante a juventude - datas ele não revela -, torrando a herança inesperada de uma longínqua contraparente. Conheceu ao menos 132 países e 7 territórios ultramarinos. Tornou-se fluente em nove idiomas e diz ser capaz de se virar bem em outros 36. Entusiasmado, curioso e cordial, fez amigos por toda parte, tornando-se padrinho de concierges e donos de hotel ao redor do mundo. Casou-se algumas vezes, apaixonou-se muitas e, aos poucos, viu a herança minguar em proveitosas experiências. Quando isso ocorreu, porém, já tinha se tornado sócio remido de oito programas de milhagem, de modo que continuou - e continua - peregrinando pelo planeta.

Mr. Miles jamais é visto em público e dele só se conhece uma única fotografia, a que ilustra esta seção, que, em sua versão integral, mostra-o de pé, apoiado a uma bengala. Não se sabe qual é a sua aparência de hoje e o máximo que conseguimos obter, entrevistando amigos e afilhados, foram vagas descrições do tipo "nem alto, nem baixo", "charmoso", "inconfundível e indescritível".

Sua implausível existência foi checada por repórteres de O Estado de S. Paulo, que ouviram comentários sobre ele em diversas partes do mundo. Maîtres, bartenders e mordomos de regiões tão diferentes quanto Antananarivo, em Madagáscar, e Whitehorse, no Canadá, confirmam que mr. Miles existe e é um contador de histórias de carisma incomparável.

A autenticidade de Miles também é confirmada por registros de companhias aéreas, linhas de navegação e por um certo especialista de Aleppo, na Síria, que, há décadas, é o responsável pela encadernação de seus passaportes carimbados. E, claro, pelas cartas que ele responde todas as semanas. Como a que segue:

Mr. Miles: o senhor parece fazer viagens luxuosas. Sempre foi assim ou já se hospedou em hotéis turísticos?

Clara Michaels, São Paulo

"Well, my dear Clara, in fact, andei cometendo meus excessos anos atrás, quando ainda me beneficiava do pecúlio de tia Henriette, que herdei e gastei generosamente nos rompantes de minha juventude. Hoje, as you know, hospedo-me, quase sempre, em casas e hotéis de velhos amigos que fiz naqueles idos. E essas podem ser tanto hospedarias de luxo quanto acanhadas pensões, it doesn't matter.

Na verdade, dados os países remotos que resolvi conhecer, confesso que passei a maior parte das noites de minha vida em situações opostas à que você imagina: dormi em catres, redes, tatames, sacos de dormir e até num confortável caixote de cascas de arroz em Namtu, no Mianmar (que, à época, ainda atendia pelo nome Birmânia). Pernoites assim têm seu charme, a meu ver, e agradam-me mais do que os hotéis ditos turísticos, bolorentos e sujos, onde incautos turistas acabam sendo depositados quando compram pacotes de empresas pouco sérias. Confesso, todavia, que não desdenho de belos hotéis, com serviço impecável que, sometimes, aparecem em meu caminho. Assim como, I presume, a prezada leitora também não o faria."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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