Michaela Rehle/Reuters
Michaela Rehle/Reuters

Por um lindo ano viajor

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2018 | 03h00

Mr. Miles ficou sem qualquer contato com o mundo ao chegar no lindo vale, coberto de lupinos cor de lavanda, às margens do Rio Manihuales, onde anunciou que passaria o réveillon. Entretanto, instado a comprar quilos de quinoa no pequeno supermercado de Puerto Aysén – parte do banquete prometido por Don Bórquez –, acabou entrando em sua caixa postal. 

Das muitas cartas que recebeu, quase todas perguntando (mais uma vez, ora!) sobre a sua idade (“Provecta para quem não viaja, insuficiente para meus anseios”), escolheu uma para responder. Trashie, a raposinha das estepes siberianas, está com nosso correspondente, feliz com o ar mais temperado da Patagônia: 

Querido Mr. Miles: como sua leitora assídua há mais de dez anos, gostaria de lhe desejar um feliz ano-novo, seja em Puerto Chacabuco, seja em qualquer lugar do mundo. Beijo grande.

Marie Tilmann, por e-mail

Well, my dear, as you know essa coluna será reproduzida em 2018, embora tenha sido escrita ainda em 2017, durante a jornada para o solar de Don Bórquez, na Patagônia. Poucas vezes publico cartas tão amorosas como a sua, darling. Eu as recebo, indeed, mas minhas crônicas de viagem sempre são feitas para ilustrar os leitores. Quase nunca para lustrar meu ego, aliás sempre inflado com tantas manifestações de carinho.

O que importa, however, é que estamos por navegar nos mares de um novo ano. Meu sábio amigo Toribo Mashida, que mora aos pés do Monte Osore, um dos mais sagrados do Japão, disse-me, certa vez: “A esperança vem com novos sóis e novas luas. Também vêm com eles a dúvida e o medo”.

De uma forma geral, verifico que é assim que se comporta a humanidade em cada início de ciclo – e somos mestres em inventá-los e catalogá-los para, como crianças curiosas, ver o que eles guardam atrás da porta. Sonhamos com doçuras (como sua carta, dear Marie) e, thank God, somos otimistas. De nossas perspectivas particulares acreditamos na evolução, seja a de Darwin ou das religiões. 

Nosso combalido planeta está, as I see, em fase de grande mutação. Meu amigo Uwe Fulkur, renomado físico oriundo das escolas da antiga Alemanha Oriental, explicou-me recentemente que, por mais que interfiramos, não somos fortes o suficiente para determinar o que será da Terra. Ainda que líderes insensatos brotem em nossas nações, há uma máxima na Física que só garante constância a elementos energeticamente estáveis. 

Esse, unfortunately, não é o caso de nosso planeta, no qual a energia entra e sai sempre de modo irregular. As montanhas que vemos hoje podem, therefore, virar planícies; as florestas, desertos; novas formas de vida podem nos substituir. É claro que podemos e causamos imensos estragos localizados no mundo com nossa cobiça desmedida, nossos planos sem responsabilidade e a expectativa de um perdão sobrenatural.

Mas, na galáctica imensidão do tempo, somos felizes partículas com a chance de desfrutar de um átimo de prazer e conhecimento. Podemos – e assim pensamos Trashie e eu – girar como tudo gira no universo, para ver o que o nosso exíguo tempo nos permite.  Viajar. Não está ao nosso alcance ir além das horas que nos deram. Não podemos, portanto, viajar anos-luz e avançar universo afora.

And yet, há quem desperdice a minúscula existência em monotonia e depressão. 

Para esses, espero que o novo ciclo reserve a doçura da libertação. A você, dear Marie, que siga perambulando mundo afora ao meu lado, ainda que através dessas linhas que nos unem todas as semanas. Aos demais, todos, um lindo ano viajor. Com as malas sempre feitas para que nenhuma oportunidade seja perdida. Happy New Year!

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

Mais conteúdo sobre:
Ano Novo réveillon

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.