Pouco glamour e muita história em Sant'Antioco

CAGLIARI

Joshua Hammer, NYT, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2010 | 02h03

Fazia uma hora e meia que o sol havia se posto em Sant"Antioco, uma das partes menos desenvolvidas da Ilha de Sardenha, na Itália, e eu estava perdido. Eu havia saído do porto de pesca de Calasetta e seguido um caminho de asfalto que subia e descia por um campo aberto. Até que a estrada desviou para o interior e me vi numa trilha tão estreita que só cabia o carro. A rochosa costa mediterrânea, nosso único ponto de referência, sumiu.

"Você tem ideia onde estamos?", disse meu filho de 8 anos. Tentando disfarçar meu nervosismo, respondi: "Não se preocupe, não estamos perdidos." E realmente é difícil se perder em Sant"Antioco, um átomo de ilha ligado à Sardenha por uma trilha lamacenta. O episódio me fez lembrar as razões para eu ter escolhido o local: o ambiente isolado e a simplicidade.

Atualmente, a Sardenha pode ser conhecida por causa da Villa Certosa, o palácio à beira-mar onde Silvio Berlusconi recebe jovens mulheres. Mas Sant"Antioco é a antítese desse playground de celebridades: um balneário de águas calmas, com dois portos, desconhecidas ruínas pré-românicas, praias quase desertas e pouco além disso.

Sant"Antioco pode não ter glamour, mas é rica em história. No século 8.º a.C, desempenhou um papel importante nas rotas de comércio com os fenícios. Os romanos ocuparam a região em 238 a.C. e construíram templos, viadutos e um istmo artificial ligando Sant"Antioco - então chamada de Sulci - à Sardenha.

A ilha foi ainda ocupada pelos franceses e por piratas do norte da África, que aportaram em 1815 e massacraram a maioria dos moradores. Desabitada, a ilha caiu na obscuridade e só ganhou movimento nas últimas décadas com um turismo modesto.

Para me hospedar na ilhota, aluguei uma residência no campo, a Casa Angelo, localizada no topo de um longo caminho cercado de figueiras e ciprestes. Dali, bastava descer 800 metros pela estrada para chegar a Coaquaddus, a melhor praia de Sant"Antioco. O formato curvo da baía e a ajuda do vento transformam o normalmente plácido Mediterrâneo em um ótimo ponto para bodyboarding.

Às 15 horas em ponto, um senhor sardenho começa a vender coco batido com limão. Seus gritos de "coco, coco" abafam o ruído dos jovens que jogam futebol na areia. Algumas vezes, preferíamos deixar isso de lado e ir à Praia Cala della Signora, na costa oeste, nem sequer marcada no mapa turístico de Sant"Antioco. É preciso seguir uma trilha até o maciço rochoso com piscinas naturais e formações vulcânicas.

Sant"Antioco é uma ilhota charmosa com aproximadamente 5 mil habitantes, um calçadão à beira-mar e casas de fachada pastel de frente a ruas de pedra que sobem em direção à basílica. A igreja do século 5.º tem um corredor escuro que leva às catacumbas, originalmente um cemitério fenício do século 6.º a.C. No teto baixo das câmaras mortuárias, murais decorados no início do cristianismo.

De volta à luz do sol, o melhor é caminhar em direção ao Corso Vittorio Emanuele, a principal rua de comércio no centro da ilha, repleta de cafés, tratorias e ótimos lugares para tomar um gelato.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.