Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Prazer culinário em um antigo bordel de Lisboa

Beijo Francês e Boca Naquilo são passos de um menu degustação cheio de segundas intenções

Mônica Nobrega, Liabos / O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2017 | 04h30

Preliminares, Beijo Francês, Boca Naquilo. São todos nomes das fases de um jantar pensado para inspirar os sentidos para além do paladar. Quase todo cozinheiro diz isso da própria comida, mas temos aqui um caso que entrega mesmo o que promete. Uma inspirada novidade no cenário da gastronomia de Lisboa, que tem como palco, literalmente, a Pensão Amor, antigo bordel transformado em uma das baladas mais cool da cidade. 

Em 1962, a ditadura de António Salazar aprovou um decreto-lei que proibiu a prostituição em Portugal e jogou os bordéis na clandestinidade. Nos arredores do Cais do Sodré, a Pensão Amor foi um dos estabelecimentos afetados pela medida. Não parou de funcionar, mas a vida e as condições de trabalho das mulheres se tornaram mais difíceis.

Essa história, não exatamente romântica, é contada no espetáculo teatral Alice no País dos Bordéis, que estreou em julho nas salas subterrâneas da pensão. O texto e a ótima interpretação da atriz Sofia de Portugal equilibram humor e a crueza da dura vida das meretrizes, com apoio de uma cenografia caprichada que o público vai percorrendo no desenrolar da história. 

O espetáculo termina à mesa. Ou melhor, no balcão da cozinha do chef Guilherme Spalk, que comanda o jantar para no máximo 11 pessoas. O menu degustação tem oito pratos, apresentados pelo chef e sua equipe segundo uma coreografia que emula o que seriam os desejos e preferências de “madame”, a cafetina Alice da peça.

Até a louça foi toda desenhada para garantir que o jantar seja um prolongamento do espetáculo. Assim, as Preliminares, pasta de mexilhões de um lado, manteiga de pinhão e açafrão do outro, são oferecidas em embalagens de maquiagem, como um invólucro de batom. “Pode morder a pontinha”, brinca o chef. 

A sequência vai deixando todo mundo soltinho; a interação com a equipe é muito à vontade. A comida é finalizada na frente dos clientes, entre brincadeiras e falas previamente ensaiadas, como a explicação para um molho com beterrabas derramado sobre o sashimi de atum: seria o sangue de touro citado como afrodisíaco durante a peça. 

Aquilo na Mão é o momento mais sedutor do jantar. Somos vendados e convidados a estender o braço, para que a primeira sobremesa, compota de morangos e figos secos, seja servida diretamente na mão direita e devorada sem talheres. Em nome da boa prestação de serviço, conto que o leitor vai ficar feliz se estiver acompanhado. 

A aventura sensorial custa 69 euros por pessoa; por ¤ 6 pode-se assistir só ao espetáculo. O jantar é um projeto temporário, previsto para durar apenas até o fim do ano. Reserve.  

Estrelas. Por detrás de uma estante de livros, que se abre como uma passagem secreta, outra casa lisboeta aposta no clima de cabaré dos anos 20 aos 50. O Beco Cabaré Gourmet fica nos fundos do Bairro do Avillez, complexo de restaurantes do chef José Avillez, que também é proprietário do Belcanto, duas estrelas no Guia Michelin

O jantar-espetáculo (130 euros por pessoa, sem bebidas) tem 12 pratos, que são apresentados ao ritmo do show, no qual quatro vedetes e um mestre de cerimônias se revezam em números de canto e dança. O apelo sensual – muito bonito, embora menos efetivo que na Pensão Amor – é constante. Há boas ideias, como o coquetel Narcisista, servido na frente de um pequeno espelho que vem à mesa, e a margarita de maçã e lichias, acomodada dentro de um botão de rosa. E as cantoras são ótimas. 

Relíquias. Um dos bares mais bacanas de Lisboa fica no Príncipe Real. O Pavilhão Chinês funciona desde a década de 80 e é uma sequência de cinco salas repletas de quinquilharias – louças, brinquedos, artigos de guerra – algumas do século 18.

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Lisboa [Portugal]

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