Viagem

Problemas no Caminho de Santiago: o que fazer?

Imprevistos sempre podem acontecer; por isso, é importante ter alguns cuidados

21/09/2015 | 14h00    

Felipe Mortara - O Estado de S. Paulo

Antes de começar a trilhar o Caminho de Santiago, sempre partimos do pressuposto de que todos tenham se preparado, não apenas fisicamente. Mas ao longo da viagem imprevistos sempre podem ocorrer. O caso da peregrina americana Denise Pikka Thiem, de 41 anos, encontrada morta semana passada na região de León, na Galícia, chocou o mundo. E fez muitos potenciais peregrinos se perguntarem: a rota é segura?

Casos como o de Denise são raros. Uma reportagem do jornal espanhol El País pesquisou ocorrências de violência e encontrou 15 casos mais graves nos últimos ano - ou seja, não há razão para pânico. Por outro lado, isso demonstra que atenção e cuidado são importantes para qualquer tipo de viajante.

O perigo pode estar em pequenos detalhes: a principal causa de morte no trajeto são os atropelamentos às margens das estradas, muitas vezes por culpa dos próprios peregrinos distraídos. Há também casos de ataque cardíaco e acidentes leves, como quedas, fraturas e inflamações.

No quesito segurança, o governo da Galícia declarou que vai reforçá-la no Caminho, com convênios com a Guarada Civil e o Corpo Nacional de Polícia. De toda maneira, é sempre bom ter em mente a eventualidade de situações inesperadas - e nada melhor do que saber como proceder caso ocorram. Conversamos com especialistas no Caminho de Santiago, que apontam as melhores formas de reagir aos principais eventuais problemas que podem surgir.

O que fazer se presenciar ou for vítima de alguma emergência?

Os principais números de emergência, que podem ser chamados de qualquer celular ou cabine telefónica gratuitamente são o 112 (http://www.112.es/), para resgate em caso de acidentes, 092 para polícia local, 091 para polícia nacional, 062 para guarda civil. Tenha sempre em mãos os telefones de contato do seu seguro saúde. Faça uma pequena ficha com seus dados, tipo sanguíneo, telefone de contato no Brasil, na Espanha, e números do seguro e deixe-o num dos bolsos externos de sua mochila. O espírito colaborativo ainda prevalece no Caminho e ligando para qualquer albergue é provável que lhe ajudem e orientem sobre a melhor atitude a tomar. 

Existem assaltos e roubos no Caminho?

Assaltos são raros, como em toda a Espanha. Os furtos em momentos de desatenção são mais comuns, especialmente nos albergues. “Tenha a sua ‘doleira’ sempre junto ao corpo. Cuidado para não esquecê-la no chuveiro ou no banheiro. Jamais saia do dormitório deixando valores, documentos, celular carregando. Procure pedir ajuda a algum conhecido ou deixe a mochila fechada à sua vista”, recomenda José Palma, idealizador do Caminho do Sol, rota peregrina no interior paulista.

Para Guilherme Sikora, da Associação dos Amigos e Peregrinos do Caminho de Santiago de Compostela do Brasil, o caminho é extremamente seguro, mas é preciso ter cuidado com quem se conhece, assim como em qualquer lugar. “Basta ir ao Caminho como se vai a Madri. Fora a mágica, introspecção, misticismo, é uma rota que passa por diversas cidades, com pessoas morando e vivendo normalmente. Os cuidados normais devem ser tomados”, recomenda Sikora.

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O Caminho é seguro para mulheres?

A jornalista brasileira Suzana Paquete já percorreu diversas vezes o Caminho de Santiago e outras rotas peregrinas e conta nunca ter sido seguida. Segundo ela, as amizades se fazem rapidamente no caminho e é normal que grupos se formem e que as pessoas cuidem umas das outras, ainda que não caminhem juntas. “Combinamos, no começo do dia, onde vamos dormir, quase sempre é no (albergue) municipal ou no paroquial. Por isso, se uma das pessoas do grupo não chegou e sabíamos que ela ia passar por aquela cidade, já perguntamos aos outros se sabem dela, se a viram na rota, ou se têm o contato”, explica. Ela conta ser comum peregrinos trocarem número de WhatsApp ou perfil de Facebook de quem se vai conhecendo. “É importante para fazer contato, reencontrar mais pra frente e, de certa forma, é uma maneira de acompanhar o paradeiro da pessoa.”

O que fazer se não estiver se sentindo bem durante a caminhada?

Antes da partida é sempre bom passar por uma revisão médica e odontológica. De acordo com Tacio Caputo, peregrino de longa data, a caminhada é longa, mas não é difícil. Porém, seus músculos e tendões vão ser exigidos ao extremo. Procure aprender alguns alongamentos e faça-os, sempre que puder. Alongue inclusive pescoço, coluna, ombros, mãos e pés. Isso melhora a performance física e ajuda a evitar cãibras. “Não se envergonhe de pedir ajuda. Descanse e durma o melhor possível. Distâncias longas desgastam mais do que parece e o cansaço físico e psicológico é acumulativo ao longo dos dias”, conta Caputo. Quando estiver absolutamente exausto num momento inadequado para dormir bastante, um cochilo ajuda a recuperar energias – só não deixe ultrapassar os 40 minutos.

Se os sintomas de mal-estar não cessarem ou em caso de queda ou fratura, o que fazer?

Acione o seu seguro saúde e, caso não haja socorro imediato, o telefone 112. Em casos de queda em áreas remotas, trilhas no meio do mato, tente caminhar até um ponto em que possa buscar ajuda.

Existe algum tipo de assistência extra que o peregrino brasileiro pode obter no Caminho? 

A Associação dos Amigos e Peregrinos do Caminho de Santiago de Compostela do Brasil, junto com a Asociación Cultural Jacobea Paso a Paso oferecem aos associados um serviço de ajuda in-loco batizado de S.O.S. Peregrino, com apoio em uma rede de albergues privados credenciados e com assistência por telefone e Whatsapp. Deve ser usado em casos de extrema emergência para receber, se preciso, ajuda com pernoite, taxis e contato com hospitais. Se o peregrino perder ou tiver o passaporte e dinheiro roubados, o associado é recebido em casas e albergues parceiros. De qualquer forma é bom ter anotado os contatos da Embaixada Brasileira em Madri (Calle Fernando El Santo, 6 - 91 700 4650).