Anelise Zanoni
Anelise Zanoni

Punta del Diablo, descolada e relaxada

Um dos destinos mais descolados do Uruguai é ponto de encontro de mochileiros, naturebas, universários e turistas que desejam passar o dia de chinelo de dedo e roupas simples

Anelise Zanoni, Especial para o Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2018 | 04h33

Assim que o carro ingressa na estradinha que leva à Punta del Diablo, uma trilha sonora própria dá as boas-vindas à região. O assobio do vento que entra pelas frestas faz uma sinfonia junto aos badulaques que se movimentam dentro do veículo por causa do piso de terra batida.

Pelo vidro, surgem casinhas coloridas, parecendo caixas cobertas por telhados de palha ou telhas muito simples. Nenhuma das moradias têm cercas e uma dezena delas exibem recados na fachada. Pode ser um “Silêncio, por favor, escute o mar” ou um “Deixe o barulho do vento entrar”. 

Ir ao balneário a 190 quilômetros de Punta del Este é dar uma pausa na vida agitada para viver o luxo de passar alguns dias fazendo quase nada. Nas quatro ou cinco vezes que viajei para lá, a sensação foi a mesma: o relógio parece parar, porque o ritmo da cidade exige contemplação. 

Considerado um dos destinos mais descolados do Uruguai, o local se transformou em ponto de encontro de mochileiros, naturebas, universitários e turistas que desejam passar o dia de chinelo de dedo e roupas simples. Trajes bem diferentes do público que circula na badalada Punta del Este.

A cidadezinha mantém características da vila de pescadores que foi instalada naquela região na década de 1940, mas reserva surpresas. O terreno elevado coberto por construções que não ultrapassam os três andares faz com que praticamente todos os imóveis tenham vista para o mar. Muitos deles são construídos sobre palafitas.

A Playa de La Viuda é uma uma das mais populares, com suas dunas altas de areia de fina e mar agitado. As ondas atraem surfistas para a água – e gente bonita descansando na areia, em espreguiçadeiras de madeira, enquanto toma cerveja gelada ou mate quente. Barcos de pesca de nomes femininos desfilam na Playa de los Pescadores, perto do centrinho. Por ali é comum disputar espaço com os cachorros de rua. Eles são muitos, geralmente de grande porte, e costumam ser dóceis.

Ao lado da orla dos pescadores está a principal atração na alta temporada: a feira de artesanato. Por ali também ficam os bares e restaurantes – a oferta gastronômica é rica em frutos do mar, com cardápios assinados por chefs locais e estrangeiros.

Sinta-se em casa. Na baixa temporada, o clima é de pura tranquilidade – e são poucos os lugares abertos. Na minha última passagem por lá, o único restaurante aberto para jantar era o Il Tano. E lá fui eu, com meu filho de 1 ano nos braços. 

Do lado de fora do casarão de dois andares dava para ver pela janela uma criança festejando no colo de um homem. Ele a levantava pra cima e para baixo. Fiquei aliviada. Pela cena que vi, era um lugar “child friendly”. Só que bastaram cinco minutos no salão principal para entender que o Il Tano não era um restaurante qualquer. 

Comandado pelo chef Luciano Raimondo, o restaurante é a própria casa dele, de sua mulher, Ximena, e dos três graciosos filhos pequenos do casal. Por isso, abre todos os dias do ano.

Argentino, Raimondo viveu por anos na Itália, onde atuou em diferentes cozinhas. Da experiência, trouxe receitas de massas, carnes e pescados. Em Punta del Diablo o menu tem cardápio enxuto, criado a partir de ingredientes da região. Muitos dos insumos vêm da horta orgânica da família ou são comprados de pescadores e produtores locais.

No verão, quando as filas são comuns, há receitas mais práticas, baseadas em petiscos e frutos do mar. Entretanto, alguns pratos permanecem o ano inteiro, como o ravióli de abobrinha italiana e camarões e o agnelotti de prosciutto com queijo. Também vale a pena passar os olhos na carta de vinhos, que prioriza rótulos uruguaios e europeus. 

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