Quando vale a pena voltar

Quanto mais você viaja, mais claramente acaba notando que alguns lugares são especiais. Não por serem mais impressionantes ou glamourosos do que os outros, mas pela capacidade de fazerem você se sentir em casa.

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2014 | 02h07

Se você experimentou essa sensação alguma vez, é sinal de que aquele é um lugar para namorar. Vai por mim: considere voltar mais vezes e investir nessa relação. Calma, não tenha pressa: não precisa voltar correndo. Lugares não são ciumentos e deixam você ficar com quantos outros você quiser. Mas, sempre que você voltar, vai ser recebido de braços abertos.

Volta e meia me perguntam coisas como: "Adorei o lugar tal. Que lugares parecidos você me sugere?". É um caminho válido, mas cartesiano. Pode levar a um lugar ainda mais redondinho do que aquele pelo qual você se apaixonou; assim como também pode levar a uma decepção, se você passar a viagem inteira pensando no lugar para onde não foi.

Aceita uma sugestão? Faça o oposto. Escolha um lugar totalmente diferente. Depois, dê um jeitinho de voltar àquele de que gostou tanto.

Cada volta a um destino que curtimos vai nos tornando mais íntimos. Você percebe as mudanças, aproveita melhor as qualidades, passa a entender as limitações. A relação vai evoluindo com o tempo e você aprende qual é o momento certo e a duração adequada dos reencontros.

Não perder contato é muito melhor do que voltar dali a 15 anos e não reconhecer o lugar pelo qual tinha se apaixonado. "Que tristeza! O lugar tal acabou." Não acabou, não: foi abandonado por você e a fila andou.

E se, nessas idas e vindas, você enjoar do lugar? Normal. É da vida. Você parte para outra, o lugar também segue adiante, sem ressentimentos.

Eu tenho um caso permanente e simultâneo tanto com o Rio de Janeiro quanto com a Rota Ecológica alagoana. Já vivi um babado forte com Trancoso, mas esfriamos (nada impede, porém, que a história seja retomada a qualquer momento). Tento me achar mais íntimo do que sou de Paris e Berlim. Resisti, mas sinto que começo a me envolver mais seriamente com Nova York. Ano passado investi um mês inteiro numa paixão antiga, Salvador. Queria poder estar mais, e por mais tempo, com Boipeba e Lisboa. (Sim, sou eclético).

Em Gostos Adquiridos, meu guru Peter Mayle (aquele dos livros da Provence) ensina que melhor (e muito mais barato) do que comprar uma casa na praia ou de campo é voltar sempre ao seu hotel predileto. Muito antes disso, eu já tinha descoberto que três ou quatro dias em Paris se encaixam perfeitamente no final de qualquer itinerário de viagem.

Vai dizer que não?

É a suprema felicidade do viajante. O lugar se despede de você com um "Volte sempre!", e você se dá conta de que o melhor a fazer é obedecer.

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