Viagem

Questão de nudez

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14/11/2017 | 03h10    

Bruna Toni - O Estado de S. Paulo

'Morning', do artista húngaro Zsigmond Kisfaludi Strobl (1924-1926). Exposta na Galeria Nacional Húngara

'Morning', do artista húngaro Zsigmond Kisfaludi Strobl (1924-1926). Exposta na Galeria Nacional Húngara Foto: Bruna Toni/Estadão

A Paraíba é um dos destinos mais atrativos por onde já passei. Atrativo no sentido primeiro: que tem a capacidade de puxar para si. De lá, eu não queria mais sair e, assim que puder voltar, o farei. Assumo os riscos que esse rasgo de elogios possui e justifico isso não apenas por sua natureza, invariavelmente linda, mas porque, em tempos de debates calorosos sobre o nu e formas de expressão, a capital paraibana me recorda um aprendizado que conquistei em suas areias.

Falo de uma conversa com um tal senhor que, em dezembro de 2013, quando visitei o Estado pela primeira vez, encontrei esticado nas areias do lado B da Praia de Tambaba. Estava acompanhado de sua namorada, também estirada, ao dispor do sol que brilhava forte. Ambos aceitaram bater um papo comigo e com o fotógrafo que me acompanhava. Foram cerca de dez minutos de conversa. Uma entrevista cotidiana. A diferença é que estávamos todos nus.

Tambaba é uma das oito praias oficialmente nudistas do Brasil. Dividida em dois lados por uma rocha, convencionou-se que o “lado A” abraça quem quer ficar de roupa e o “lado B” quem é praticante do naturismo. Um lado não tem vista para o outro e, para atravessar para o lado nudista, somente mulheres ou homens acompanhados de mulheres. Quando decidi que atravessaria para o lado nu por curiosidade (e porque achava importante para a reportagem), o fotógrafo me seguiu pelos mesmos motivos. Se houve constrangimento? Absolutamente nenhum.

Foi o nosso entrevistado que nos fez entender o motivo de estarmos à vontade. Disse, sem rodeios: “porque a nudez nada tem a ver com o sexo”. Relacionar as duas coisas é, afinal de contas, uma construção social, cultural e histórica. O corpo nu, dele, da namorada dele, o meu e o do fotógrafo, os de vocês que me leem, são apenas corpos. Cada um tem o seu, com semelhanças e diferenças. Já as significações que atribuímos a ele é outra coisa.

As polêmicas diante das recentes exposições de arte, onde o nu aparece em carne e osso, como lá na praia nudista, me instigou a refletir sobre este processo histórico que atribui ao corpo uma conotação sexual. Confesso que ainda estou remexendo obras de arte, escritos, ideias. Como já foi argumentado, o trabalho com a nudez humana não é algo recente, e as obras de arte produzidas desde a pré-história nunca deixaram de lotar museus. Nesta tarefa, selecionei três tipos de lugares para visitar que tratam, cada um à sua maneira, sobre nudez, sexualidade e relações humanas.

Praia nudista. Ninguém é obrigado a ir, claro. Mas ter essa experiência pode proporcionar muitas descobertas sobre si mesmo e sobre as percepções do nosso corpo e do corpo do outro – além da beleza de cada lugar. No Brasil, há praias naturistas na Bahia, Espírito Santo, duas no Rio de Janeiro e três em Santa Catarina, além de Tambaba. Antes de ir, pesquise as regras de cada lugar e cheque sempre as condições de segurança. 

Museus de arte. No Museu de Arte de São Paulo (Masp), a exposição História da Sexualidade reúne 200 obras, entre peças de seu acervo e de fora, para retratar e discutir as perspectivas históricas e culturais sobre o corpo, o sexo, as identidades de gênero e o erotismo. Há pinturas, esculturas, fotografias e vídeos que cruzam épocas, técnicas e artistas do mundo. Vai até fevereiro de 2018. Já na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste, uma sala dedica-se a expressivas esculturas de nus na virada do século 19 para o 20. 

Nudez e sexo. Em Amsterdã, um dos lugares mais visitados por turistas é o Red Light District. Entre bares e pubs, estão as vitrines iluminadas onde ficam mulheres que trabalham como prostitutas na cidade. Ficam ali dois museus relacionados ao tema: o Museu do Sexo, o primeiro do mundo (menos interessante do que poderia ser); e o mais recente Museu da Prostituição, apertado, não tão barato, mas curioso por colocar o visitante em espaços que reproduzem as cabines com luz vermelha e por falar da violência no mercado sexual. 

EM FOTOS: Praias nudistas para visitar no Brasil

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