Reflexões pós-Copa

Ainda não temos notícia do paradeiro do homem mais viajado do mundo. Até o último domingo ele estava, com certeza, em Johannesburgo, acompanhando a final do Mundial de futebol, cujo resultado evidentemente desconhecia ao escrever sua crônica semanal. Na redação, alguns apostam que mr. Miles, grande festeiro, foi rapidamente ao país vencedor para acompanhar as comemorações que se seguem a eventos dessa grandeza. Outros, baseados numa pista do texto abaixo, julgam que ele está mesmo é no Paraguai. A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles, miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2010 | 02h30

Mr. Miles: estou angustiado com o fim da Copa da África. Sinto uma espécie de crise de abstinência, da qual muitos amigos também reclamam. Isso acontece consigo?

Sebá Salles Maciel, por e-mail

"Well, my friend, também sinto esse vazio d"alma. Os gritos cessaram, as cores sumiram, as vuvuzelas calaram. Já não é possível ver, dia após dia, a esperança de eslovacos e ganeses; o sorriso de kiwis e uruguaios; a decepção de ingleses e italianos; a vergonha dos franceses e a timidez dos hondurenhos. O mundo, after all, sumiu de todas as telas de todos os bares, lavaram-se as caras pintadas, voltaram aos depósitos perucas e fantasias. É como o fim de uma linda viagem, quando desfazemos as malas, já não há quem queira ouvir nossas histórias e as lembranças ainda não se encaixaram no espaço em que ficarão para sempre, patrimônio pessoal. Protegido, forever, dos percalços e das dores que todos encontraremos pelo caminho, refúgio para as noites insones e para os dias de angústia.

As I understand, my friend, não são os resultados que contam, ainda, of course, que os nossos tenham deixado a desejar. O que encanta nesses eventos de alcance mundial é a insubstituível oportunidade de compartilharmos a vida dos outros. Hinos, preces, aflições, alegrias, talentos, lágrimas, maldade, indignação. Eis que, por dias e dias, descobrimos nos outros povos - em gente que nos parece longínqua e inacessível, em nacionalidades das quais temos estranhos conceitos formados - um retrato bem-acabado do que somos.

E se alguns partem de volta para lugares que conhecemos, outros tomam rumos distantes, desembarcam em cidades cujos nomes pouco ouvimos, voltam aos seus reis, aos seus presidentes e ditadores. São pessoas com nomes que nos soam estranhos, que alimentam-se de forma diferente da qual estamos habituados, eventualmente trajam-se de outra maneira e creem em outros deuses. However, my friend, acabamos de vê-los, iguais a nós, correndo atrás de seus sonhos em um campo de futebol.

Tivemos a chance de perceber que, como eu sempre digo (sob o risco de repetir-me à exaustão), somos todos vizinhos de um mesmo quintal, o único que temos, nosso grande e variado planeta. E, as you know, não me importa que a História e os burocratas tenham definido fronteiras e regras para dificultar nossa movimentação por um lugar que é incontestavelmente de todos. Das 32 nações que vimos de perto nessa World Cup, das outras mais de cem que fizeram o seu melhor para estar entre elas ou das que preferem o rúgbi ou o beisebol.

Sigo, dear readers, com o firme propósito de ver de perto cada um dos rostos que apareceu nos telões dos estádios sul-africanos e das televisões de bilhões de pessoas. Não posso negar que gostaria de começar esse périplo em um longo colóquio com Larissa Riquelme, a torcedora que inflamou a seleção paraguaia. Mas vou adiante. Remember, folks: a Copa acabou, mas o mundo está apenas começando."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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