Thiago Momm/Arquivo Pessoal
Thiago Momm/Arquivo Pessoal

Relíquias vermelhas e os ícones do consumo

Bigode espesso, quepe, casaco, botas, cachimbo. Em troca de moedas, o perfeito sósia de Josef Stalin posa com os visitantes que passam pelo entorno do Kremlin, em Moscou. Relevando ou ignorando o passado do ditador, uma mãe retrata seu filho no colo do sósia, que sorri. É de se esperar que uma capital como Moscou, com 11,5 milhões de habitantes e quase nove séculos de uma história incrivelmente turbulenta tenha um centro repleto de significados. Ali, é uma overdose.

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2012 | 02h09

Príncipes, czares, nobres, invasores religiosos ortodoxos, comunistas, empresários e milhões de outros russos deixaram (e ainda deixam) neste quadro complexas pinceladas, que merecem ser apreciadas tal qual uma obra de arte: lenta e cuidadosamente.

Assim como o czarismo, o comunismo também angaria turistas. Próximo ao sósia de Stalin, o embalsamado Lenin descansa à vista do mundo (a visita é gratuita, mas possível apenas entre 10 e 13 horas, de terça a quinta-feira e aos sábados e domingos). Já os líderes moscovitas de 1320 a 1690 repousam na Catedral do Arcanjo, dentro dos muros do Kremlin.

Na Praça da Revolução, anexa à Vermelha, inúmeras bancas vendem impensáveis relíquias comunistas. A imagem de Stalin aparece até mesmo atrás dos ponteiros de um despertador - talvez pouco útil para acordar de pesadelos.

Há os ícones de consumo, curiosidade inevitável em um país que adotou o capitalismo há tão pouco tempo. Ao sul da praça, além do alardeado McDonald's, há um elaborado sushi 24 horas. A leste fica o Gosudarstvenny Universalny Magazin, ou GUM, antiga loja de departamento do estado comunista, cujo lindo prédio histórico hoje abriga mais de mil lojas de grife em um shopping que rivaliza com os melhores de São Paulo - inclusive nos preços exorbitantes.

A uma quadra do GUM, a rua Nikolskaya ganha fluxo também à noite graças a bares como Che, 1920 e Pacha Moscou, baladinha da famosa rede. Nas pistas, hits ocidentais dominam as pick-ups e não é difícil para os turistas interagirem. Infelizmente, só é assim para quem chega lá dentro. Os clubes mais pretensiosos imitam os de outras capitais mundiais e mantêm o face control, a prática de peneirar os clientes. Vestir-se bem ou reservar uma mesa ajudam a garantir o acesso.

Somam-se ao diversificado quadro do centro moscovita oito igrejas e catedrais, a maioria com interiores espetaculares, mas nenhuma com a fachada da famosa e feérica Catedral de São Basílio. Construída entre 1555 e 1561 para celebrar a captura de Cazã por Ivan, o Terrível, a catedral também merece visita às suas nove capelas principais (entrada: R$ 17).

Horizonte dourado. Por volta de 1150, muito antes de se tornar o destino turístico de mais de um milhão de turistas anuais, o Kremlin (kreml.ru) surgiu com muros de madeira e iniciou sua história política. No século 14, passou a abrigar o epicentro da igreja ortodoxa russa, ganhou muros de calcário, torres (boa parte das 19 atuais é dessa época) e a delimitação de hoje. Moscou crescia em importância. Quando Constantinopla caiu, em 1453, a cidade reivindicou para si o título de "Terceira Roma". Segundo relata o historiador Robert Massie, no século 17 Moscou tinha tantos domos e cruzes de ouro que "se o viajante estivesse presente no momento em que o sol tocava todo esse ouro, o brilho da luz forçava-o a fechar os olhos".

Nessa época, as três magnificentes catedrais que o turista hoje pode visitar com um tíquete de 350 rublos (R$ 23) já ocupavam o Kremlin. Vale comprar também o acesso ao Palácio do Arsenal (com vasta coleção de roupas, joias, carruagens, tronos e outros artefatos dos czares) e ao Fundo dos Diamantes (onde está a maior safira do mundo). Somados, os dois ingressos custam cerca de R$ 80. Os palácios do complexo, que refletem o governo de diferentes séculos, podem ser apreciados apenas por fora.

Para uma excelente progressão da história russa e moscovita desde tempos remotos, uma opção valiosa é um vizinho do Kremlin, o Museu da História do Estado. Cada uma das 39 salas do museu têm decoração específica da época que cobre. Uma simpatia. /THIAGO MOMM, ESPECIAL PARA O ESTADO

lNovos tempos

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