Viagem

Retratos do cotidiano sertanejo

Casa-Museu exibe banda de pífanos, bois e outras esculturas que deram fama a Mestre Vitalino

16/06/2009 | 02h35

Natália Zonta - O Estado de S.Paulo

Os festejos juninos levam milhares de turistas ao agreste pernambucano. Trata-se de apenas uma das muitas manifestações culturais típicas da região. Nos ateliês de artistas conhecidos como Mestre Vitalino, em Caruaru, e Jota Borges, em Bezerros, o turista encontra mais que souvenirs: a tradução do modo de vida sertanejo.

A casa em Caruaru continua tal e qual era na época em que Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino (1909-1963), morava ali. Telhado de sapê, paredes de barro, retratos pendurados. Mas hoje, nas prateleiras, o que se vê são os bonecos de barro feitos por seu filho, Severino Vitalino, de 69 anos. Orgulhoso do trabalho do pai, ele dá continuidade à tradição de retratar cenas do cotidiano sertanejo com o barro tirado do Rio Ipojuca.

A Casa-Museu Mestre Vitalino fica na rua principal do bairro de Alto do Moura, conhecido pelo grande número de oficinas de artesanato. Quem passa por lá conhece a obra do artista mais popular da região e ouve as histórias contadas por Severino. Ele cuida de tudo: abre o museu, limpa os cômodos... "Meu pai fazia animais de barro quando era criança e, mais tarde, começou a vender na Feira de Caruaru. O pessoal gostou."

 

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Na infância, Severino brincava com os bonecos criados pelo pai. "Com o tempo, aprendi a fazer também", diz. O estilo de Mestre Vitalino não é somente copiado por seu filho, mas por muitos artesãos do Alto do Moura. "Muita gente pensa que ele ficou rico porque vendeu para estrangeiros e gente importante. Mas meu pai sempre teve uma vida bem simples."

Parte da família de Severino segue produzindo os bonecos. E a prole é grande: 13 filhos, 23 netos e 1 bisneto. O artesão segue as linhas simples de seu pai. Bois e burricos, sertanejos e bandas de pífanos são sua especialidade. Tudo no barro cru. Uma das filhas prefere formas longilíneas e coloridas. Há peças de R$ 30 a R$ 250.

linkCasa-Museu Mestre Vitalino: Rua Mestre Vitalino, s/n.°. De segunda-feira a sábado, das 9 às 17 horas. Domingos, das 9 horas ao meio-dia

FEIRA NORDESTINA

Um mercado livre com mais de 40 mil metros quadrados, 10 mil barracas, milhares de turistas e muita confusão. A Feira de Caruaru, onde Mestre Vitalino começou a vender suas obras, tem de tudo um pouco. Sua forma peculiar de traduzir a região fez com que o Iphan a declarasse Patrimônio Imaterial em 2007.

Regras básicas: não tenha pressa nem tente entender as ruas ou encontrar sentido na distribuição das barracas. O máximo de ordem é a divisão informal de setores, como o de artesanato, o de roupas, o de artigos de couro e até o de eletrônicos. Ah, e negocie o preço. Sempre.

Deu fome? Um dos restaurantes mais tradicionais da gigantesca praça de alimentação é o de Margarida Moura da Silva, de 56 anos, a Tia Guida. Seus caldeirões cheios de galinha à cabidela, buchadinha e carne seca são sucesso na hora do almoço. Quando alguém pouco entendido em culinária nordestina pede detalhes sobre os pratos, ela convida: "Venha ver na panela que fica mais fácil de entender." O ambiente é simples e a comida, deliciosa. Vira e mexe aparece um gato zanzando entre as mesas. Coisas de feira popular.

 

Viagem a convite da Empetur