Reviajar é sempre preciso

Mr. Miles anuncia que comeu um dos melhores pratos de polvo de sua vida no Komaki (que, ao contrário do que o nome sugere, não é um estabelecimento de comida japonesa), na Barrinha, extensão da Praia do Preá, no Ceará

Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2017 | 01h00

O bravo viajante praticou kitesurfe, mas lamentou que o vento estava mais ameno do que de costume. Prometeu-nos, também, falar mais sobre essa passagem pelo Brasil em uma de suas próximas colunas. A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: estive em Israel uma única vez, em 1969, mas conheci quase todo o país porque trabalhei durante dois meses em um kibutz e tive a chance de viajar bastante. Quanto tempo um lugar leva para mudar? 

Alina Berger, por e-mail

Well, my dear, sua pergunta é interessante mas, unfortunately, não comporta uma única resposta. Se a sua questão referir-se especificamente a Israel, I’m sorry to say, é como se você nunca tivesse viajado para lá. Muros, templos e cidades ancestrais podem ter permanecido parecidos com o que você viu há quase 50 anos. Mas Israel mudou muito, cresceu, fortaleceu-se e, se à época era visto com simpatia pela opinião pública mundial, perdeu seu encanto depois que os chamados petrodólares mudaram a posição política de um mundo pragmático.

E tudo o mais mudou. Israel tornou-se um centro de excelência tecnológica. O Waze que você usa em seu celular, for instance, é obra local. E é um dos países mais inventivos do mundo. Claro que há muita polêmica em torno de suas posições políticas, da presença agressiva dos colonos ortodoxos and so on. Mas creia-me, darling: se você for voltar, fará uma outra viagem, quase completamente nova. Até o Mar Morto diminuiu centenas de metros em relação ao que você conheceu.

Essa situação é mais frequente do que parece. Viajantes retornam a destinos em que estiveram muitos anos antes e se espantam. Muda tudo, do aroma à gastronomia, do clima à arquitetura. Eis porque sempre digo que jamais é possível conhecer – nem sequer ligeiramente – uma cidade ou país, ainda que você visite-o com frequência.

Eu, que modestly, já estive em todos os países do mundo, estou seguro de que em raras viagens encontrarei as mesmas sensações que tive outrora. Exceto, of course, pela lembrança de grandes paixões ou surpresas.

E há outra coisa, dear Alina: além dos lugares, nós mesmos mudamos o tempo todo. O que não nos agradava antes passa, sometimes, a ser inspirador. A passagem dos anos muda o que sentimos, pensamos e vemos. Nesse caso, darling, não há solução. 

Mesmo os lugares cujas referências permanecem as mesmas, sempre parecerão diferentes – e a boa notícia é que será um prazer redescobri-los.

Nossa existência é curta, mas o tempo aprendeu a ser mais rápido do que ela. Lugares, ideias e crenças mudam em menos tempo que uma vida. O Irã laico do ditador Reza Pahlevi deu lugar ao Irã xiita dos ditadores atuais. A União Soviética deu lugar à Rússia e outros países tão desiguais hoje como antes. As tecnologias nos ajudaram em alguns casos e atropelaram-nos em outros. Muitas vezes ficamos à deriva.

Não me lembro se já lhes contei, mas a história vale – ainda que repetida. Há alguns anos, encontrei uma cidadã norte-americana na Piazza San Marco, em Veneza. Numa rápida conversa, ela me contou que havia estado no mesmo lugar quinze anos antes. E arrematou: ‘Mas mudou tanto! Estou encantada!’.

Oh, my God, Veneza, não! Se o mundo muda e nós mudamos, a cidade dos doges permanece. Don’t you agree?

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*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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