Viagem

No ritmo do cerrado, Pirenópolis faz convite à redução de velocidade

Passeios, gastronomia e dicas de como ir à cidade de Goiás que dispensa velocidade e pilhas no relógio

18/10/2016 | 06h00    

Vitor Tavares - O Estado de S. Paulo

Caminhar ou andar de tuc-táxi são as melhores formas de conhecer 'Piri'

Caminhar ou andar de tuc-táxi são as melhores formas de conhecer 'Piri' Foto: Vitor Tavares/Estadão

PIRENÓPOLIS - Das árvores do cerrado, ninguém tira fruta do pé. O sertanejo do centro do Brasil sabe que tem de respeitar o tempo do alimento: pequis, buritis e barus só devem ir para mesa quando caem de maduros no chão. Localizada no meio da vegetação seca nos arredores de Brasília e Goiânia, a pequena Pirenópolis vê o relógio andar devagar. Carros dividem o trânsito com cavaleiros em ruas que não permitem ultrapassagem, e as janelas das casinhas do centro histórico estão sempre abertas para alguns minutos de prosa. Chegar à cidade, um refúgio de tranquilidade entre duas metrópoles, é receber um sinal: hora de desacelerar.

O pé no freio em “Piri”, como é carinhosamente chamada, começa mesmo é na comida. Não só na paciência que quem vem de cidade grande precisa ter ao pedir um prato em algum restaurante – “Aqui, não adianta se estressar com a demora”, me disse um turista habitué –, mas principalmente no que comer. A cultura da comida orgânica, natural e saudável causa curiosidade de cara e está presente desde a feirinha das quintas-feiras atrás da igreja matriz até fazendas e refúgios ecológicos que promovem verdadeiros rituais à mesa.

A aproximação de Pirenópolis do debate alimentar que encontra adeptos principalmente em centros urbanos tem a ver com a história dos que foram morar ali em busca de qualidade de vida. Fundada em 1727 durante o ciclo da mineração, a cidadezinha, que já foi um dos centros culturais e econômicos de Goiás, foi redescoberta ao mesmo tempo em que, a 150 quilômetros dali, Brasília crescia.

 

Evandro Ayer e sua esposa Catarina no Santuario Ecologico Vagafogo

Evandro Ayer e sua esposa Catarina no Santuario Ecologico Vagafogo Foto:

Numa tentativa de fuga da então árida e pouco habitada capital federal, uma elite intelectual e econômica despertou o interesse pelo que havia do outro lado da Serra dos Pireneus. 

É o caso do ex-diplomata Elim Dutra, que morou no Egito, Tunísia e Suécia, mas fincou os pés mesmo foi em Piri, ainda na década de 1980, na busca por uma vida mais pacata. Hoje dono de pousadas, permanece como um dos defensores do potencial e da calmaria da cidade.

Pouco antes de Elim, o casal Evandro Ayer e Catarina Schiffer chegou por ali num movimento de comunidades hippies em busca de natureza. O casal fundou a Vagafogo, primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Brasil, com intuito de promover a conservação da diversidade biológica, dos recursos hídricos e naturais. É ali, numa área de 17 hectares e com 70% de área preservada, que eles criaram um “santuário sustentável”, onde moram até hoje. O espaço é aberto para visitação e conta com atividades de aventura, como arvorismo e tirolesa, além de uma trilha na mata e um brunch caprichado (tudo custa R$ 220 por pessoa) - saiba mais sobre esta e outra fazenda mais abaixo.

 

Evandro Ayer no Santuário Ecológico Vagafogo,

Evandro Ayer no Santuário Ecológico Vagafogo, Foto: Estadão

Muita calma nessa hora. Com esse cenário pronto, Pirenópolis recebe todos os anos, em setembro, um festival de cinema sobre o movimento mundial slow food. Moradora de Brasília, a produtora do festival, Carmem Moretzsohn, percebeu, nas visitas a Piri, que ali havia várias iniciativas que se encaixavam no movimento, mesmo sem que as pessoas tivessem conhecimento dele. “Se o conceito se consolidou com pessoas de fora que foram morar em Piri, hoje a população abraça o festival e a filosofia”, disse.

Desacelerar em Pirenópolis (para comer, andar pelas ruas ou visitar as atrações naturais) não é apenas um convite, mas também uma necessidade. Com média de 500 mil turistas por ano, a maioria de Brasília, a cidade tenta combater o turismo massificado. O maior símbolo da luta atualmente é a tentativa de barrar a construção de um empreendimento hoteleiro com 192 quartos bem ao lado da Igreja do Bonfim, monumento preservado desde 1750. 

“Queremos turistas, mas de um jeito sustentável, que respeite as características e o estilo de vida daqui”, diz a advogada Bruna Vellasco, que move ações na justiça e conseguiu barrar a obra. Parece que ninguém quer colocar pilha no relógio. 

 

Café na Fazenda Babilônia

Café na Fazenda Babilônia Foto: Divulgação

COMER DEVAGAR E COM AUTENTICIDADE

Na visita à fazenda Vagafogo, a hora de servir a comida parece uma brincadeira. O filho do casal, Uirá, monta uma mesa redonda, cheia de potes e pratos geometricamente espalhados, com diversos sabores, típicos do cerrado ou não. A baru – tipo de castanha da região – se junta à tangerina para virar geleia; a pasta de cagaita – outra fruta típica que lembra goiaba – pode acompanhar um omelete; e o hibisco vai junto com a pimenta e dentro do pão de queijo. Há ainda iogurte, queijos, chantilly e doce de leite, todos frescos, produzidos ali e com sabor realmente diferente.

A reserva, localizada a 7 quilômetros do centro de Pirenópolis, recebe cerca de 13 mil turistas por ano, entre os que topam um pouco de aventura no arvorismo, pela vegetação que permanece verde mesmo na época mais seca, entre abril e setembro, e os que escolhem o lugar para praticar o birdwatching, observação de pássaros em seu ambiente natural. Neste último caso, são horas e horas de binóculo em punho em busca das espécies que vivem no lugar. 

Resgate. Outra proposta semelhante em essência está ali perto, na Fazenda Babilônia, que se vende como o “resgate antropológico da culinária goiana”. A proprietária do local, Telma Machado, preserva o casarão de 1795, que passou a ser propriedade de sua família em 1864, junto a uma capelinha e museu com objetos da época. 

É numa mesa comprida que ela oferece o café sertanejo, servido com mais de 40 itens, todos feitos com produtos da própria fazenda e com a intenção de promover uma experiência colonial do Centro-Oeste.

A preservação da memória pela comida está no bolo de senzala, receita dos escravos em que a massa de fubá, canela e cravo é assada calmamente numa folha de bananeira. Na matula de galinha, assada no borralho, que são as cinzas que ficam no fogão a lenha, depois de apagado o fogo. Ou ainda no mané pelado, uma variedade de receita criada pelas mulheres portuguesas baseada na culinária indígena, que leva massa de mandioca, queijo e leite de coco. 

O passeio pela fazenda (ao custo de R$ 78, das 9 às 16 horas, com agendamento prévio) inclui a visita guiada à propriedade e, claro, a refeição. 

 

Brunch no Santuario Ecologico Vagafogo

Brunch no Santuario Ecologico Vagafogo Foto: Estadão

Produção local tem queijo e cerveja. Outras iniciativas e produtores locais se somam ao esforço de tornar a região de Pirenópolis um destaque no quesito produção de alimentos orgânicos e artesanais. Tem a Queijaria Alpina, na zona rural da cidade vizinha de Corumbá de Goiás, que, comandada por um suíço, recria o estilo europeu no meio do cerrado. O queijo (de R$ 20 a R$ 95) faz parte da mesa de políticos e embaixadores em Brasília.

As cervejas artesanais têm um mercado próprio na cidade, que realiza festival dedicado à bebida em abril. Destaque para a Santa Dica (62-3331-1035; visitas são gratuitas), com o ousado sabor de hibisco. E ainda estabelecimentos com foco em comida orgânica, como o empório Armazém da Rua (Rua Rui Barbosa, 10), que vende delícias dos produtores locais. Os lugares estão fora da Rua do Lazer, ponto mais turístico – e caro – da cidade. 

COMO CHEGAR

A Goianésia opera ônibus entre Pirenópolis e Brasília (150 km, 4 vezes por dia; R$ 26,74) ou Goiânia (130 km, 1 vez ao dia, R$ 28,83). Em Brasília, há transporte público do aeroporto à rodoviária a cada 15 minutos.

 

Cachoeiras, construções históricas e outros passeios

Pernas em ação: o centro histórico é para ser desbravado a pé e sem pressa; as vistas panorâmicas e quedas d’água mais concorridas convidam a rápidas e fáceis trilhas

Cachoeira Abade

Cachoeira Abade Foto: Vitor Tavares/Estadão

Pirenópolis não tem monumentos históricos grandiosos, desses que acabam guiando os passos dos turistas – ou que transformam a temporada na cidade em uma maratona de um a outro, com pouca atenção dispensada ao caminho entre eles. 

Mas a sutileza do centro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) desde 1989 faz o sorriso estar sempre no rosto. As casinhas cuidadosamente pintadas lado a lado, ora de branco e azul ora de branco e vermelho, parecem “cochichar” umas às outras, como escreveu a poeta goiana Cora Coralina. São mais de 700 no centro histórico, que se estende por um raio de três quilômetros.

Nos pontos mais altos ficam as igrejas, o que garante que sejam vistas de vários pontos, como é tradição em outras cidades coloniais, a exemplo de Ouro Preto e Olinda. As duas principais são a do Bonfim, que mantém sua estrutura original desde 1750, com um lindo altar de influências barroca e rococó, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, mais suntuosa, datada de 1732 e considerada o principal e mais antigo monumento religioso de Goiás. 

A matriz sofreu um incêndio em 2002, que consumiu toda a parte interna e o telhado, episódio lembrado até hoje como uma das maiores tragédias na cidade. As obras de reconstrução duraram quatro anos para a retomada do seu estado original e da conservação que se observa hoje.

O compacto centro concentra a grande maioria das pousadas e convida a caminhar pelas vielas, repletas de lojinhas de artesanato e restaurantes, sem medo de se perder ou mesmo da violência urbana. As ruas de Pirenópolis são todas calçadas com uma pedra chamada pé de moleque, extraída na região desde a década de 1960, e que dá um charme a mais sob o pôr do sol, quando reflete a luminosidade amarelada do limpo céu do cerrado. 

Para os preguiçosos, uma alternativa às caminhadas é o serviço de tuc-táxi, espécie de triciclo asiático que leva aos principais pontos por R$ 50. 

Vale dar uma passada no Museu das Cavalhadas (Rua Direita, 39), para conhecer a história da principal festa da cidade, que simula um duelo entre mouros e cristãos cuja origem remonta ao século 8.º. O ingresso custa R$ 4. 

 

Mascarados montados a cavalo fazem algazarras pela ruas nos festejos do Divino Espírito Santo

Mascarados montados a cavalo fazem algazarras pela ruas nos festejos do Divino Espírito Santo Foto: Dida Sampaio/Estadão

Apesar de simples, o museu está instalado na antiga casa de detenção da cidade e traz painéis e algumas roupas usadas pelos cavaleiros pirenopolinos durante a festa, que tem duração de três dias e termina com os cristãos convertendo os mouros para sua religião. 

Os fãs de motocicletas encontram ainda o museu Rodas do Tempo, que narra a história dos veículos de duas rodas, inclusive bicicletas. Custa R$ 30.

Ir ou voltar. Em frente ao Museu das Cavalhadas está a Ponte Velha, sobre o Rio das Almas, construída em 1899. É a principal ligação entre os dois lados da cidade e por ela só passa um veículo – ou cavalo – por vez. No passado, inclusive, Pirenópolis era chamada de Meia Ponte por conta de uma enchente que levou embora metade da construção. Hoje inteira e essencial para o “trânsito” local, de um lado ou do outro acontece uma combinação entre condutores para decidir quem a atravessa primeiro. 

Sob a ponte, o rio forma um pequeno balneário apreciado aos domingos principalmente pelas crianças, que usam a construção como trampolim em épocas em que as águas estão fartas.

Cine Pireneus

Cine Pireneus Foto: Estadão

ANIMAÇÃO DA PRAÇA À IGREJA DO CORETO

À noite, o centro de Pirenópolis gira em torno da agitada Rua do Lazer, uma das poucas permanentemente fechadas para os carros.

A via começa perto da igreja matriz, daí desce e sobe uma ladeira até a Praça do Coreto, onde se concentra a turma mais alternativa. 

Na rua estão vários bares e restaurantes que servem estilos variados de gastronomia, do clássico italiano a animadas cervejarias e pubs, numa briga de várias vozes e violões que tocam e disputam a atenção dos visitantes ao mesmo tempo. Dos tradicionais, sente na Cachaçaria do Dill, que oferece mais de 300 rótulos da bebida (R$ 6 a R$ 70) de todo o País, além de peixes e comidas de boteco.

Estique a noite em algum lugar com música ao vivo e volte para a hospedagem andando pelo centro, agora silencioso, com as luminárias todas acesas, levando sustos apenas ao esbarrar com os outros exploradores da noite. 

 

Arvorismo é uma das atividades para fazer em Pirenópolis

Arvorismo é uma das atividades para fazer em Pirenópolis Foto: Vitor Tavares/Estadão

NATUREZA À VISTA E ÁGUA GELADA

Antes de Pirenópolis ser ligada a Brasília por uma estrada asfaltada, o que só foi feito na década de 1980, quem se aventurava a ir até a cidadezinha tinha de enfrentar horas em estradas de terra. O caminho antigo vinha pelo alto da Serra dos Pireneus e descia pelo cerrado até chegar ao centro do município. Talvez tenha sido exatamente por esta rota, hoje percorrida apenas por quem quer visitar o parque estadual, que os primeiros visitantes se apaixonaram e resolveram ficar. 

Ali, na serra, está localizado o segundo ponto mais alto de Goiás, 1.385 metros acima do nível do mar, com vista que se perde no horizonte em meio à vegetação seca e formações rochosas.

Para chegar ao topo do Pico dos Pireneus, uma trilha bem estruturada leva com tranquilidade pessoas de todas as idades. O caminho pode ser feito em menos de 30 minutos, com parada para fotos, e sem precisar de guia. O melhor momento para subir é o que antecede o pôr do sol, para assistir lá de cima o horizonte ficar alaranjado e as cidades das redondezas se iluminarem. Em dias totalmente limpos, dizem, é possível ver até seis municípios do alto, inclusive as luzes distantes da capital do País. 

Antes de chegar ao pico, vale dar uma parada na Vila dos Becos, conjunto de interessantes formações rochosas que já teria sido mar um dia. Uma trilha simples, de 15 minutos de caminhada e um pouco de escalada, leva até o topo das pedras, de onde se tem uma bela vista da serra. Não há sinalização no local; vale ir com guia. Agências da cidade vendem o passeio. 

Banhos. Mas as atrações principais em Pirenópolis são as cachoeiras. São 96 ao todo, 30 delas abertas à visitação. Todas ficam em reservas particulares. Na Reserva do Abade (a 17 quilômetros do centro, R$ 30 por pessoa) são quatro, acessadas por meio de trilhas com boa infraestrutura, inclusive uma bela ponte suspensa. A versão reduzida do passeio leva a apenas duas quedas d’água. A principal cachoeira da reserva tem uma queda de 22 metros, cercada por mata e que termina em um lago de águas verdes, calmas e geladas.

A que fica mais próxima da cidade é a Cachoeira Meia Lua (R$ 15 por pessoa), distante 5 quilômetros, aos pés da Serra dos Pireneus. São 200 metros de corredeiras distribuídas em várias quedas, tendo a maior delas 10 metros de altura. Mais longe, a 18 quilômetros, está a Cachoeira Araras (R$ 20 por pessoa), boa para levar crianças, cuja infraestrutura tem rancho, restaurante e pousada. É possível combinar cachoeiras num mesmo dia, sempre atento às condições climáticas – algumas estradas ficam interditadas em época de chuva.

*O repórter viajou a convite do ENECOB.