MARIUS FUSKUM/DIVULGAÇÃO
MARIUS FUSKUM/DIVULGAÇÃO

Rota do bacalhau

Nas cidades banhadas pelas águas geladas do norte é possível provar o pescado de uma maneira nunca encontrada por aqui: fresco. Mas há muito mais na mesa local

Bruno Ribeiro , O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2013 | 02h21

BERGEN - A julgar pelo material promocional que recebi sobre a Noruega, dias antes do embarque, já dava para notar que a viagem, que percorreu três cidades em uma semana, seria um (apetitoso) roteiro gastronômico ao redor do bacalhau. Os aclamados fiordes, gigantescos paredões de montanhas quebrados pelo mar e pelo gelo, orgulho nacional, seriam apenas um bônus para os olhos - algo para consolar a visão, o sentido mais paparicado durante as viagens, que poderia ficar com inveja de tantos estímulos dados ao paladar.

Os noruegueses não costumam comer o bacalhau seco e salgado que nós, brasileiros, tanto gostamos. Para eles, o peixe (ou os cinco tipos de peixe que podem ser descritos como bacalhau) é servido fresco. Quando um desses peixes, o cod, é seco e salgado, eles o chamam de bacalao justamente pelo interesse que nossos colonizadores portugueses, seus fregueses históricos, têm pelo pescado preparado desse jeito.

Mas o primeiro conselho: esqueça o tal bacalao na viagem. Concentre-se nos peixes frescos, seja bacalhau, atum, salmão - ou frutos do mar, como caranguejos e ostras. A Noruega é cheia de restaurantes sofisticados, que os preparam com molhos deliciosos - e chegam à mesa, quase sempre, acompanhados de vinho tinto alemão. Tão bons a ponto de dobrar este repórter, que entre peixe e carne sempre optou pela segunda opção - ou optava, até agora.

Para entender a Noruega, tanto no que se refere à origem do povo quanto à ligação deles com a pesca, aqui vai o conselho número dois, leitor: comece pelo norte. Assim, dá para conhecer o bacalhau do mar à mesa, nessa ordem e, de quebra, deslumbrar-se com os fiordes.

Rumo norte. No arquipélago de Lofoten, no Círculo Polar Ártico, se concentram os barcos que pescam o peixe nas águas geladas do Polo Norte. Se a pesca do bacalhau não fosse tão lucrativa, o lugar seria deserto: o clima gelado é hostil e as montanhas impedem o desenvolvimento de outra atividade econômica. De fato, até as crianças de Lofoten ganham dinheiro com o pescado. No verão, fazem "bico" nas fábricas que retiram óleo de fígado de bacalhau. Da cabeça tão pouco valorizada do bacalhau (sim, ela existe!) elas tiram a língua do peixe - uma cara e deliciosa iguaria local.

E não pense, com a frase acima, que o país do maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, segundo a ONU, mantém trabalho infantil. As crianças fazem isso nas férias, para, sei lá, comprar um carro zero quilômetro quando completam 18 anos.

Em Svolvaer, a principal cidade do arquipélago, com apenas 5 mil habitantes, há passeios marítimos que te levam a alguns quilômetros além da costa para pescar bacalhau, como o oferecido pelo XX Lofoten. Cordas de até dois quilômetros são deixadas em boias em uma tarde e retiradas na manhã seguinte por nós, turistas. É preciso fôlego para puxar as cordas por quase uma hora. Mas o bacalhau vem aos montes (não esqueça da clássica foto de pescador, com o peixe recém tirado do mar). Eu não resisti.

Depois, os pescadores nos deixaram em um restaurante, onde um chefe estava à nossa espera para ensaiar a preparar um prato com o bacalhau fresco e cozido. Temperado com sal, shoyo e gergelim, acompanhado de aspargos e pão.

A segunda parada é em Alesund, no centro da costa do país. Os barcos pesqueiros vindos do norte atracam ali, onde fica a maior fábrica de bacalhau para exportação da Noruega. Eles também vendem o peixe diretamente para a população - e para os turistas - quando cruzam o canal que divide a cidade.

O roteiro do bacalhau termina em Bergen, a segunda maior cidade do país, com 650 mil habitantes. Vale para ver como o norueguês come bacalhau - embora o prato nacional seja o salmão. No centro, bem em frente ao cais, o mercado de peixes é como uma feira livre, mas especializada em vender pratos prontos à base de pescado.

A diferença é que, lá, os peixes servidos na rua não vêm diretamente do mar, como nas nossas praias. Eles são processados pela indústria antes, que limpa, tira a pele e vende os filés congelados. É o mesmo peixe que você compraria em um supermercado, mas preparados - a maioria, fritos - na rua.  

Passagem aérea e mais. Aéreo: SP – Bergen – SP: R$ 2.608 na KLM (klm.com) e R$ 2880 na Lufthansa (lufthansa.com). Via Oslo: R$ 2.524 na Air France (airfrance.com.br); R$ 2.530 na KLM; R$ 2.874 na TAP (flytap.com); R$ 2.874 na Lufthansa; e R$ 3.068 na Swiss (swiss.com). Voos com uma conexão

Clima: De junho a agosto, os dias são longos, com temperatura média de 25 graus. No inverno, a neve cai e os termômetros raramente passam do zero grau Sites: visitnorway.com; lofoten.info; visitbergen.com; visitalesund.com

*O repórter viajou a convite do Conselho Norueguês da Pesca.

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