Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão

Roteiros de fé, história e cultura judaica

Em Budapeste, visite a segunda maior sinagoga do mundo, enquanto Amsterdã guarda uma das mais antigas

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2017 | 04h35

BUDAPESTE - Há alguns dias, na quarta-feira, judeus do mundo todo se reuniram para celebrar o Rosh Hashaná, o ano-novo hebraico. A data, diferente da celebração homônima no calendário gregoriano (adotado majoritariamente no mundo ocidental), é apenas uma das particularidades da cultura judaica presente no mundo todo, sobretudo em países da Europa e em Nova York, onde está a maior sinagoga do mundo. 

No Velho Continente, Praga, Berlim, Budapeste e Amsterdã são algumas das capitais onde não faltam rotas que nos fazem mergulhar na mais antiga religião monoteísta do mundo. Visitamos as duas últimas, num roteiro cheio de sabedoria, sentimentos doloridos e história. 

 

BUDAPESTE, HUNGRIA 

Era a minha primeira vez num templo judeu. Logo percebi que a Grande Sinagoga de Budapeste causava surpresa em todos os que a visitavam. 

Antes pelo estilo: do lado de fora, a segunda maior sinagoga do mundo e a maior da Europa lembra uma mesquita. Dentro, tem disposição semelhante à das igrejas católicas. É justamente por aí que a guia começa o tour de 15 minutos: na época da construção, em meados do século 19, a mistura de estilos estava na moda, explica ela. O neomourisco é o que mais se destaca. 

Outros elementos a tornam especial e a caracterizam como uma sinagoga “neologa”, ou seja, que faz a releitura de antigos preceitos de acordo com os tempos modernos, explica a guia. O altar não fica no centro do espaço, mas em sua extremidade contrária à da porta de entrada. Atrás dele há um órgão (também típico de igrejas católicas). A separação entre homens e mulheres no interior do prédio não é levada a ferro e fogo como entre os ortodoxos. Mas, ainda assim, há características conservadoras, como a inexistência de rabinos mulheres.

 

Bem ao lado da enorme sinagoga há um cemitério – outra peculiaridade de Budapeste – onde estão enterradas milhares de vítimas do holocausto. Estima-se que 6 milhões de judeus foram assassinados no período.

É o momento mais doloroso da visita, acompanhada por um ou uma guia do local (há em várias línguas, incluindo inglês e espanhol, e é grátis). Atrás dele, chegamos à Árvore da Vida, uma escultura com folhas prateadas com nomes de judeus mortos na ocupação nazista. Ela abre caminho até um pequeno jardim, esse em homenagem àqueles que, de alguma forma, ajudaram a esconder e proteger famílias inteiras na época. 

Vale ainda a visita ao Museu Judaico, ao lado, com ingresso único (4 mil forints ou R$ 49, com 10% de desconto com o Budapest Card; jewishtourhungary.com).

Ainda mais famoso é o memorial à beira do Rio Danúbio, onde sapatos de bronze voltados para o rio prestam homenagem aos judeus jogados naquelas águas. Com flores, velas e recados, os pares correm parte da margem do lado de Peste, provocando o silêncio perturbador do passado. 

 

AMSTERDÃ, HOLANDA

Se os milhões de judeus que migraram a Budapeste no século 20 vieram, em geral, da própria Europa Central – chamados, por isso, askenazi –, os que ocuparam Amsterdã são provenientes de Portugal e chamados sefarditas. A maior parte deles chegou no século 17, fugida da Inquisição, e instalou-se na parte leste da capital holandesa, formando o bairro judeu da cidade (ou Jodenbuurt).

Concentrados ali estão a Sinagoga Portuguesa, o Museu da História Judaica e o Memorial e Museu Nacional do Holocausto, quatro lugares para serem visitados em um só dia e com apenas um ingresso (15 euros adultos, grátis com o cartão I Amsterdam).

A Sinagoga Portuguesa é uma das mais antigas do continente, construída no século 17 e sobrevivente aos bombardeios nazistas. Menor e mais rústica do que a de Budapeste, conta com mais elementos e objetos históricos. Com o auxílio de um audioguia – tem em português de Portugal –, o visitante vai descobrindo, a cada passo, usos, rituais e histórias do judaísmo sefardita.

A visita à sinagoga estende-se ainda por um museu subterrâneo com roupas e objetos religiosos, além de salas onde, entre outras coisas, funciona uma biblioteca. 

A passagem pelo Museu Judaico e pelo Memorial e Museu do Holocausto causam a mesma sensação dos sapatos em Budapeste, talvez de forma ainda mais dura – segurar as lágrimas foi impossível. São fotografias, cartas, objetos de vítimas e a história de inúmeras famílias que foram brutalmente separadas pelo nazismo.

Mais distante está a disputada casa de Anne Frank, mais um lugar que reconta a trajetória judaica (9 euros; compre online com hora marcada em annefrank.org e prepare-se para longas filas).

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