Vitor Tavares/Estadão
Vitor Tavares/Estadão

Cachoeiras, construções históricas e outros passeios em Pirenópolis

Pernas em ação: o centro histórico é para ser desbravado a pé e sem pressa; as vistas panorâmicas e quedas d’água mais concorridas convidam a rápidas e fáceis trilhas

Vitor Tavares, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2016 | 05h30

Pirenópolis não tem monumentos históricos grandiosos, desses que acabam guiando os passos dos turistas – ou que transformam a temporada na cidade em uma maratona de um a outro, com pouca atenção dispensada ao caminho entre eles. 

Mas a sutileza do centro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) desde 1989 faz o sorriso estar sempre no rosto. As casinhas cuidadosamente pintadas lado a lado, ora de branco e azul ora de branco e vermelho, parecem “cochichar” umas às outras, como escreveu a poeta goiana Cora Coralina. São mais de 700 no centro histórico, que se estende por um raio de três quilômetros.

Nos pontos mais altos ficam as igrejas, o que garante que sejam vistas de vários pontos, como é tradição em outras cidades coloniais, a exemplo de Ouro Preto e Olinda. As duas principais são a do Bonfim, que mantém sua estrutura original desde 1750, com um lindo altar de influências barroca e rococó, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, mais suntuosa, datada de 1732 e considerada o principal e mais antigo monumento religioso de Goiás. 

A matriz sofreu um incêndio em 2002, que consumiu toda a parte interna e o telhado, episódio lembrado até hoje como uma das maiores tragédias na cidade. As obras de reconstrução duraram quatro anos para a retomada do seu estado original e da conservação que se observa hoje.

O compacto centro concentra a grande maioria das pousadas e convida a caminhar pelas vielas, repletas de lojinhas de artesanato e restaurantes, sem medo de se perder ou mesmo da violência urbana. As ruas de Pirenópolis são todas calçadas com uma pedra chamada pé de moleque, extraída na região desde a década de 1960, e que dá um charme a mais sob o pôr do sol, quando reflete a luminosidade amarelada do limpo céu do cerrado. 

Para os preguiçosos, uma alternativa às caminhadas é o serviço de tuc-táxi, espécie de triciclo asiático que leva aos principais pontos por R$ 50. 

Vale dar uma passada no Museu das Cavalhadas (Rua Direita, 39), para conhecer a história da principal festa da cidade, que simula um duelo entre mouros e cristãos cuja origem remonta ao século 8.º. O ingresso custa R$ 4. 

 

Apesar de simples, o museu está instalado na antiga casa de detenção da cidade e traz painéis e algumas roupas usadas pelos cavaleiros pirenopolinos durante a festa, que tem duração de três dias e termina com os cristãos convertendo os mouros para sua religião. 

Os fãs de motocicletas encontram ainda o museu Rodas do Tempo, que narra a história dos veículos de duas rodas, inclusive bicicletas. Custa R$ 30.

Ir ou voltar. Em frente ao Museu das Cavalhadas está a Ponte Velha, sobre o Rio das Almas, construída em 1899. É a principal ligação entre os dois lados da cidade e por ela só passa um veículo – ou cavalo – por vez. No passado, inclusive, Pirenópolis era chamada de Meia Ponte por conta de uma enchente que levou embora metade da construção. Hoje inteira e essencial para o “trânsito” local, de um lado ou do outro acontece uma combinação entre condutores para decidir quem a atravessa primeiro. 

Sob a ponte, o rio forma um pequeno balneário apreciado aos domingos principalmente pelas crianças, que usam a construção como trampolim em épocas em que as águas estão fartas.

ANIMAÇÃO DA PRAÇA À IGREJA DO CORETO

À noite, o centro de Pirenópolis gira em torno da agitada Rua do Lazer, uma das poucas permanentemente fechadas para os carros.

A via começa perto da igreja matriz, daí desce e sobe uma ladeira até a Praça do Coreto, onde se concentra a turma mais alternativa. 

Na rua estão vários bares e restaurantes que servem estilos variados de gastronomia, do clássico italiano a animadas cervejarias e pubs, numa briga de várias vozes e violões que tocam e disputam a atenção dos visitantes ao mesmo tempo. Dos tradicionais, sente na Cachaçaria do Dill, que oferece mais de 300 rótulos da bebida (R$ 6 a R$ 70) de todo o País, além de peixes e comidas de boteco.

Estique a noite em algum lugar com música ao vivo e volte para a hospedagem andando pelo centro, agora silencioso, com as luminárias todas acesas, levando sustos apenas ao esbarrar com os outros exploradores da noite. 

 

NATUREZA À VISTA E ÁGUA GELADA

Antes de Pirenópolis ser ligada a Brasília por uma estrada asfaltada, o que só foi feito na década de 1980, quem se aventurava a ir até a cidadezinha tinha de enfrentar horas em estradas de terra. O caminho antigo vinha pelo alto da Serra dos Pireneus e descia pelo cerrado até chegar ao centro do município. Talvez tenha sido exatamente por esta rota, hoje percorrida apenas por quem quer visitar o parque estadual, que os primeiros visitantes se apaixonaram e resolveram ficar. 

Ali, na serra, está localizado o segundo ponto mais alto de Goiás, 1.385 metros acima do nível do mar, com vista que se perde no horizonte em meio à vegetação seca e formações rochosas.

Para chegar ao topo do Pico dos Pireneus, uma trilha bem estruturada leva com tranquilidade pessoas de todas as idades. O caminho pode ser feito em menos de 30 minutos, com parada para fotos, e sem precisar de guia. O melhor momento para subir é o que antecede o pôr do sol, para assistir lá de cima o horizonte ficar alaranjado e as cidades das redondezas se iluminarem. Em dias totalmente limpos, dizem, é possível ver até seis municípios do alto, inclusive as luzes distantes da capital do País. 

Antes de chegar ao pico, vale dar uma parada na Vila dos Becos, conjunto de interessantes formações rochosas que já teria sido mar um dia. Uma trilha simples, de 15 minutos de caminhada e um pouco de escalada, leva até o topo das pedras, de onde se tem uma bela vista da serra. Não há sinalização no local; vale ir com guia. Agências da cidade vendem o passeio. 

Banhos. Mas as atrações principais em Pirenópolis são as cachoeiras. São 96 ao todo, 30 delas abertas à visitação. Todas ficam em reservas particulares. Na Reserva do Abade (a 17 quilômetros do centro, R$ 30 por pessoa) são quatro, acessadas por meio de trilhas com boa infraestrutura, inclusive uma bela ponte suspensa. A versão reduzida do passeio leva a apenas duas quedas d’água. A principal cachoeira da reserva tem uma queda de 22 metros, cercada por mata e que termina em um lago de águas verdes, calmas e geladas.

A que fica mais próxima da cidade é a Cachoeira Meia Lua (R$ 15 por pessoa), distante 5 quilômetros, aos pés da Serra dos Pireneus. São 200 metros de corredeiras distribuídas em várias quedas, tendo a maior delas 10 metros de altura. Mais longe, a 18 quilômetros, está a Cachoeira Araras (R$ 20 por pessoa), boa para levar crianças, cuja infraestrutura tem rancho, restaurante e pousada. É possível combinar cachoeiras num mesmo dia, sempre atento às condições climáticas – algumas estradas ficam interditadas em época de chuva.

*O repórter viajou a convite do ENECOB.

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