Ricardo Freire/Estadão
Ricardo Freire/Estadão

Salvem Jericoacoara

Vou a Jericoacoara desde 1995. Passei alguns dias por lá na semana passada. Tinha estado em Jeri pela última vez em 2008. Nesses anos todos, pude acompanhar as transformações do vilarejo.

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2013 | 02h18

Por boa parte da primeira década deste século, as mudanças foram benéficas. O boom do windsurfe e a chegada do kitesurfe trouxeram um turismo saudável, antecipando a bonança que aconteceria em outros vilarejos da costa do Nordeste voltada para o norte. Pousadas confortáveis e restaurantes charmosos apareceram para dar o necessário contraponto a dias longos, de intensa exposição aos elementos: o sol, a areia, o vento.

Os elementos continuam lá, mas ganharam a companhia de mais duas forças, estranhas à natureza: o trânsito e o barulho.

O vilarejo está dominado por todo tipo de veículo: jipes, caminhonetes, carros de passeio, bugues e um batalhão de motinhos. Caminhar pelas ruas de areia, algo que já exigia esforço, agora requer perícia: é preciso desviar de carros que passam a velocidades inacreditáveis. O desrespeito não é restrito aos que vivem de transporte ou à classe do sabe-com-quem-você-está-falando. É democrático: as motinhos pertencem aos moradores e funcionários, e zunem a qualquer hora do dia e da noite com motores envenenados ou escapamentos quebrados. Para tirar uma foto da praia ou da duna sem um carro ou moto aparecendo, você precisa parar e esperar o momento mágico.

Às sextas e aos sábados à noite (e intuo que na temporada isso aconteça todos os dias), as barracas de caipirinha do final da Rua Principal, à beira da praia, abrem a rodinha e instalam um DJ ao centro. O som alto começa às 22 horas e fica mais alto à meia-noite. Às 2 horas da manhã o luau termina, mas o barulho das motos e das caixas de som instaladas em carros continua madrugada afora.

O Conselho Comunitário de Jericoacoara tem uma página no Facebook onde não faltam relatos sobre as irregularidades (migre.me/gAjc0). Prezado Ministério Público: pode isso numa APA? Honorável ICMBio: é cabível tamanha bagunça vizinha a um parque nacional?

Enquanto escrevo esta coluna, acabo de ler que Bonito foi eleito o melhor destino sustentável de ecoturismo do mundo pelo World Travel Market, em Londres. Por que será que os destinos brasileiros não conseguem aprender com os sucessos (e os erros) dos outros?

Quer dizer: alguns aprendem, sim. Barra Grande, no Piauí, com boa população de fugidos de Jeri, parece resolvida a não dar condições para que se repitam os problemas de Jericoacoara. Vida longa a Barra Grande do Piauí!

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