Ivan Alvarado
Ivan Alvarado

Ana Carolina Sacoman/ De Santiago, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2018 | 05h00

Trânsito ruim, poluição assustadora, taxistas não muito amigáveis com turistas. Se você alguma vez já pesquisou sobre Santiago, esses são sempre os grandes problemas apontados por quem conhece a cidade. E, sim, são verdadeiros – mas perfeitamente contornáveis.

A boa notícia: quase todos os lugares que interessam na capital do Chile são alcançáveis de metrô, ou seja, você se livra de trânsito, poluição e taxista numa tacada só e ainda economiza. Só terá de enfrentar a lotação nos horários de pico – nada que quem já passou pela Praça da Sé às seis da tarde não tenha vivido uma vez na vida.

Três dias inteiros já são suficientes para explorar a cidade e alguma coisa fora dela; quatro ou cinco são o tempo ideal se você quiser ir até Valle Nevado (no inverno) ou Valparaíso e Viña del Mar (no verão), por exemplo. Pense em alongar um pouco mais a viagem se a ideia for “casar” com uma passada pelo Deserto do Atacama, o que eu fortemente recomendo.

Leia mais: Todas as dicas do Viagem para o Chile

O roteiro a seguir dura três dias e pode ser feito inteiro de metrô e a pé – só no terceiro dia será preciso lançar mão também de ônibus, para chegar às vinícolas na região metropolitana. Claro, você também pode usar os transportes por aplicativo, mas, assim como foi aqui por um período, eles funcionam sem regulamentação lá.

Se animou? Hora de comprar a sua “tarjeta Bip” (o bilhete único deles; tarjetabip.cl/) e se espremer por aí. Ah, no metro.cl/tu-viaje/plano-de-red você tem o mapa completo da rede.

Preste atenção

Duas cores

Antes de se aventurar pelo metrô de Santiago preste atenção a um detalhe que faz toda a diferença: tanto os trens quanto as estações estão divididos em verdes e vermelhos. Isso quer dizer que os trens vermelhos (identificados por uma luz acima das portas) não param nas estações verdes, e vice-versa. O legal, mas que ajuda a confundir mais, é que existem trens das duas cores que param em todas as estações – e estações de duas cores que recebem todos os trens. Preste atenção especialmente se usar o metrô para ir às vinícolas.

 

Rush mais caro

O valor da passagem cobrado na tarjeta Bip muda ao longo do dia: vai de 610 pesos (horas vazias) a 740 pesos (no rush). Ela vale no ônibus também.

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Ana Carolina Sacoman/ De Santiago, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2018 | 04h30

Aquele dia em que você vai desbravar a cidade e, em se tratando de Santiago, cercada pelos morros da Cordilheira dos Andes, o melhor é subir: quanto mais alto, melhor. A primeira parada pode muito bem ser no Cerro Santa Lucía, no bairro de Lastarria e perto tanto da Estação Santa Lucía (Linha 1 Vermelha) quanto da Bellas Artes (Linha 5 Verde) do metrô, no coração da cidade.

Por causa da localização, é bastante frequentado por moradores, que aproveitam os 65 mil metros quadrados com subidas às vezes íngremes para fazer exercícios e levar os pets para passear.

Santiago foi fundada aos pés deste morro, considerado monumento histórico nacional desde 1983. A recompensa pela ida até o ponto mais alto é uma vista de 360 graus da cidade. Sim, a poluição atrapalha um pouco, é bom sempre alertar. Mirantes, praças e prédios históricos completam o “combo” Santa Lucía.

Dali, para continuar no tema “nas alturas”, o Cerro San Cristóbal, perto da Estação Baquedano (Linhas 1 Vermelha e 5 Verde), pode ser a próxima parada. Ele fica dentro do Parque Metropolitano (ou Parquemet, para os íntimos), o maior de Santiago, com mais de 700 hectares – pense nele como o Ibirapuera deles.

Castelinho medieval. Logo na entrada – saindo do metrô, siga na Avenida Pio IX até chegar a uma espécie de castelinho medieval, que é o sui generis ponto de partida para conhecer o lugar – você terá de decidir se compra somente a subida de funicular, a subida combinada com o zoológico ou o funicular junto com o passeio de teleférico. Vale a pena comprar a última opção, só ida.

Os preços dependem do tipo de passeio (com ou sem zoo, combinado com teleférico, ida e volta, etc) e do dia (nos fins de semana é mais caro). Também é possível subir de van, táxi e carro particular: opções práticas e sem graça. Atenção: tanto o funicular quanto o teleférico fecham às segundas para manutenção.

Se você optou por funicular, repare que a subida no carrinho-gracinha de madeira inclui uma parada no meio do caminho para aqueles que resolverem conhecer o Zoológico Nacional. Se for a sua opção, desça já na subida, porque ele não para ali na volta. Se os animais não estiverem no seu roteiro, continue até a próxima estação.

Logo no desembarque há vários quiosques que vendem cafés, refrigerantes, água, sorvetes e salgadinhos. Dali, você pode subir a pé até o Santuário da Imaculada Conceição. São vários degraus, e só recomendo se for curioso (meu caso) ou religioso.

A estação do teleférico fica pertinho e as cabines são iguais àquelas dos centros de esqui. Ao embarcar nelas é possível ver vários detalhes do Parque Metropolitano, suas piscinas abertas à população (e para visitantes também agora no verão, a partir de 6 mil pesos a entrada), as trilhas para bikes, os parquinhos para crianças... O lugar tem programação intensa, com música e eventos ao ar livre, de dia e à noite. Veja em parquemet.cl.

Dica: antes de chegar à entrada do teleférico também há várias barraquinhas com gostosuras. O crepe de creme de avelãs vale as criminosas calorias.

Perto do céu. Você só comprou a ida de funicular e teleférico, certo? Então terá de descer perto do Sky Costanera (skycostanera.cl), em cima do Costanera Shopping. Vá a pé – se estiver em outro ponto de Santiago, a estação de acesso é a Tobalaba (Linhas 1 Vermelha e 4 Azul). Aproveite para almoçar no centro de compras ou nas redondezas, já que está em Providencia, o bairro queridinho dos turistas.

A 300 metros de altura, alcançados por elevador, o Sky Costanera se autodenomina o “mirante mais alto da América Latina”. A subida vale a pena em dias claros ou depois de uma chuva, que serve para “limpar” a capa de poluição. Uma ideia é “enrolar” pelo bairro ou no shopping e subir no fim da tarde, para pegar o pôr do sol e ver a cidade do alto de noite. Funciona das 10h às 22h, e a última subida é às 21h. Crianças pagam 10 mil pesos (R$ 54) e adultos, 15 mil (R$ 82).

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Ana Carolina Sacoman/ De Santiago, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2018 | 04h29

Programe-se para passar um tempo na companhia de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto. Quem? Pablo Neruda (1904-1973), o pseudônimo de Ricardo. O poeta construiu três casas no Chile, e La Chascona é a única em Santiago – as outras são La Sebastiana, em Valparaíso, e Isla Negra, na costa de El Quisco, onde Neruda e sua última mulher, Matilde Urrutía, foram enterrados. 

Chegue a La Chascona (Estação Baquedano, Linhas 1 Vermelha e 5 Verde do metrô) cedo, especialmente durante o verão. A entrada é por ordem de chegada, a partir das 10h, até as 18h, e costuma ficar cheia já de manhã.

A casa foi feita para Matilde, quando ela não era, digamos, a única nem a oficial na vida de Neruda. La Chascona quer dizer “descabelada”, uma referência aos cabelos revoltos da mulher. O poeta se mudou para lá em 1955, depois de se separar da “titular”.

Ali Neruda construiu um refúgio, mas também um lugar para receber amigos. A casa foi crescendo de um jeito meio estranho, com uns “puxadinhos”, e o audioguia recebido na entrada é valioso, por oferecer uma ordem por onde andar.

O roteiro começa nas áreas comuns, como a sala de jantar, passa pelas alas íntimas e chega ao anexo onde Matilde fez questão de velar o corpo de Neruda, em 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias depois do golpe militar no Chile, liderado pelo general Augusto Pinochet (1915-2006).

A casa, aliás, foi atacada e semidestruída por partidários de Pinochet após a morte do poeta. Fotos do velório, da destruição e do cortejo de Neruda pelas ruas de Santiago emocionam o visitante. O passeio acaba em uma loja com lembrancinhas para aqueles amigos que adoram, ou fingem que adoram, a obra de Pablo-Ricardo. Custa 7 mil pesos (R$ 38). Informações: fundacionneruda.org/museos/casa-museo-la-chascona.

Memória difícil. Quase impossível passar um tempo em Santiago sem esbarrar em algum aspecto do pesado passado imposto pela ditadura de Pinochet, que foi de 1973 a 1990, deixou 3 mil mortos ou desaparecidos e forçou o exílio de 200 mil chilenos.

Fragmentos dessa história truculenta estão por toda parte, começando em La Chascona e passando pelo Palácio La Moneda e por outros pontos turísticos da cidade. Um bom lugar para entender tudo, se emocionar e gastar um tempo é o Museu da Memória e dos Direitos Humanos (ww3.museodelamemoria.cl/), bem na frente da Estação Quinta Normal (Linha 5 Verde).

Se o assunto parece um tanto pesado para levar as crianças, para adultos minimamente interessados em história e em entender um pouco a alma chilena o lugar é um prato cheio. Aberta em 2010, a exposição permanente ocupa 5 mil metros quadrados e começa com uma enorme sala dedicada ao dia do golpe, 11 de setembro de 1973, quando as Forças Armadas atacaram o Palácio La Moneda, o que levou ao suicídio do presidente, Salvador Allende (1908-1973). Fotos e vídeos recontam o drama dentro e fora do palácio presidencial.

A partir daí, há salas e mais salas que tentam mostrar o que foi a ditadura no Chile, com fotos e objetos de pessoas desaparecidas – emocione-se com as cartas de crianças cujos pais estavam presos ou sumiram e as correspondências de exilados.

Há também uma grande linha do tempo com os principais acontecimentos, como a visita do papa João Paulo II, em 1987, quando ele apareceu com Pinochet – recentemente, foi dito que o pontífice foi enganado ao posar ao lado do ditador. A missa campal no Parque O’Higgins – mesmo local onde o papa Francisco esteve, em janeiro deste ano – terminou em confronto entre manifestantes contra a ditadura e a polícia de Pinochet. Como é uma história recente, há farto material em foto e vídeo. Passeio de primeiríssima qualidade e grátis. Fecha às segundas.

Se a vibe histórica te fisgou, é hora de gastar a tarde em um roteiro pelo centrão de Santiago. Tanto a Estação Plaza de Armas, na Linha 5 Verde, quanto a La Moneda (Linha 1 Vermelha) cumprem bem a missão de te entregar no coração da cidade. Se escolheu começar por La Moneda, saiba que o palácio pode decepcionar. O prédio não tem nada de mais, mas a história fala por si. Há uma estátua de Salvador Allende, com a célebre frase dita em sua última transmissão de rádio para o país, já sob intenso ataque: “Tenho fé no Chile e em seu destino”. Ali também fica o Centro Cultural La Moneda (ccplm.cl/sitio/), com exposições, cineteca e lojinhas. 

Uma vez na região, prefira fazer tudo a pé. Siga na direção da Plaza de Armas, onde Santiago pulsa potente, com aquela confusão de gente passando para todo lado, barulho, vida. Ali ficam a Catedral, o prédio dos Correios e o Palácio Real – onde o governo despachava, antes de ir para La Moneda –, ocupado hoje pelo Museu de História Nacional. 

Gaste um tempo entre estátuas vivas, dançarinos de rua e moradores vendo o dia passar. E, já que está no centro da cidade, não custa lembrar: cuidado com trombadinhas e pequenos golpistas que podem querer testar a sua paciência – a Plaza de Armas, no entanto, é bem policiada.

Joia desconhecida. Para fechar o dia de história, a última parada é no Museu de Arte Pré-Colombiana (precolombino.cl/), a uma quadra da Plaza de Armas, na esquina das Ruas Bandera e Compañia. O incrível é que, se você perguntar pelo nome, quase ninguém saberá informar onde fica essa joia de museu, uma pena. O lugar é enorme e abriga uma bela coleção de arte pré-colombiana de diversos pontos da América. No subsolo fica a exposição permanente Chile Antes de Chile, sobre mais de 14 mil anos de história do país. Custa 4.500 pesos (R$ 24). 

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Ana Carolina Sacoman/ Do Vale do Maipo, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2018 | 05h28

Separe o último dia para conhecer as vinícolas nos arredores de Santiago, nos Vales do Maipo e do Colchagua. A boa notícia? É possível chegar com uma dobradinha de metrô e ônibus a várias delas, incluindo a famosa Concha y Toro (conchaytoro.com). 

Qual escolher depende do gosto do freguês e da disponibilidade de vaga nos tours da vinícola, mas tenha em mente que mais do que duas no mesmo dia pode ser bobagem. Se quiser fazer um roteiro mais apertado, arrisque ir a três, mas duvido que dê para aproveitar como manda o figurino.

Por ser provavelmente a mais badalada do Chile, a Concha y Toro exige reserva com muito tempo de antecedência. Uma alternativa é a Cousiño Macul, no Vale do Maipo. É preciso sair do centro de Santiago com mais ou menos uma hora de antecedência, tempo suficiente para pegar metrô e ônibus e driblar qualquer imprevisto pelo caminho.

Você precisa descer na Estação Quilín (Linha 4 Azul do metrô), já na região metropolitana, e caminhar na direção do Paseo Quilín, um shopping ao lado da parada. No estacionamento dele há um terminal de ônibus. Pegue o D57 e avise o motorista onde quer ir, ele indicará o ponto em que deve descer.

Aqui como em outras vinícolas há dois tipos de passeio: um standard, que inclui o tour pelo lugar e degustação de quatro vinhos (por 14 mil pesos, R$ 76, por pessoa, tem duração de pouco mais de uma hora), e o premium, um pouco mais longo, dura 1h30, inclui degustação de queijos e aumenta para seis o número de vinhos provados, tudo a 24 mil pesos por pessoa (R$ 130). Os roteiros são em inglês ou espanhol, e os guias estão bem preparados para responder a todo tipo de pergunta.

Os tours começam pelos vinhedos, onde é possível entender o ciclo de produção no Vale do Maipo, seguido pela antiga bodega e a cave subterrânea da família, do século 19. Depois vem a degustação, já ao lado da loja, para emendar umas compras. Reservas: cousinowinetour.cl/tours.

Dobradinha etílica. Ao sair da Cousiño Macul, faça o caminho de volta no mesmo ônibus D57 até o Paseo Quilín e, de lá, para o metrô. O ideal é já ter a visita para outra vinícola engatilhada e nem voltar para Santiago. A Santa Rita, dona do famoso vinho 120 Reserva Especial, é uma opção. Se puder, planeje um almoço lá mesmo antes do passeio.

Bem famosa no Brasil, a Santa Rita fica mais distante de Santiago, mas nem por isso é impossível de chegar. O esquema é descer na Estação Las Mercedes, na mesma Linha 4 Azul do metrô. Na saída há um ponto de ônibus. Pegue o Alto Jahuel, sentido Buin. No ônibus, diga que quer descer na Santa Rita e espere. A viagem é longa, e até parece que você está no caminho errado, principalmente depois de passar por várias vinícolas, incluindo a Concha y Toro. Tenha um pouco de paciência.

Ao chegar, uma carroça leva o visitante da entrada até o centro da vinícola. Ali há um café para refeições rápidas, restaurante, loja e o Museu Andino, com 1,8 mil peças de arte pré-colombiana e entrada grátis – se tiver com tempo, vale conferir as peças, especialmente as joias de ouro do povo Mapuche.

Filminho. O esquema do passeio é o mesmo: começa nas parreiras, conta a história da vinícola, etc. Mas na Santa Rita a produção está a todo vapor, então o legal é poder ver engarrafamento, rotulagem e outras etapas da fabricação de vinho.

O roteiro termina no porão da casa-sede, onde aconteceu um evento histórico: 120 soldados do Exército chileno ficaram escondidos ali por um tempo em 1814, durante a guerra de independência do país, escaparam da morte, viraram heróis nacionais – e batizaram o famoso vinho da Santa Rita. A história é contada em um bem-feito filminho de animação, num cenário com bonecos articulados e efeitos de luz e som.

No fim, degustação de três vinhos e lojinha. Além das bebidas, dê alguma atenção aos produtos de beleza feitos na vinícola com uvas que não foram aproveitadas na fabricação do vinho. Há xampus, condicionadores e cremes de mão feitos de cabernet sauvignon. Na hora da empolgação, lembre-se que terá de carregar as compras na volta para Santiago. Reservas: santarita.com. Tour clássico custa 12 mil pesos e o premium, 40 mil. 

Direção única. A noite de Santiago é bem vivida em Lastarria (Estações Universidad Católica, na Linha 1 Vermelha, ou Bellas Artes, na Linha 5 Verde). O bairro é supercharmoso, com cafeterias, restaurantes, festinhas, lojas, brechós e galerias. Lota nos fins de semana, o que pode resultar em espera para almoçar ou jantar.

Perto do centro da cidade, a região é excelente opção também para se hospedar – e evitar o óbvio bairro de Providencia, amado pelos brasileiros e visitantes em geral, mas, vamos falar a verdade, já “batido”, com restaurantes caros e sem graça.

A Rua José Victorino Lastarria deve servir como ponto de partida. Ali ficam o Museu de Artes Visuales (mavi.cl; 1 mil pesos) e o Cinema El Biografo (elbiografo.cl; entradas de 3 mil a 4 mil pesos, R$ 16 a R$ 21), dedicado a filmes de arte. Lá também está localizada uma das unidades do Emporio La Rosa (emporiolarosa.com), onde os chilenos gostam de dizer que são feitos os melhores sorvetes da América do Sul. Será? 

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