Sem esforço não há recompensa

Sem esforço não há recompensa, já dizia o ditado que se encaixa perfeitamente em uma viagem à Antártida. É como se a natureza tivesse guardado aquele lugar só para si, em um ponto tão inóspito quanto desconhecido do planeta. Que bom.

Cenário: Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2011 | 03h08

Quem decide viajar à Antártida não quer apenas ticar mais um destino no mapa - quer algo mais. Uma conexão com a natureza, com si mesmo, com um mundo totalmente diferente do conhecido.

Escolher a Antártida pelas razões erradas pode resultar em frustração. O começo é duro: os primeiros dois dias são atravessando a Passagem de Drake, onde um mar plácido pode dar lugar a ondas de até 10 metros a qualquer momento. Nesse ponto, tivemos sorte - o barco balançou apenas o normal para uma área de mar aberto, mas foi suficiente para tirar de circulação os estômagos mais sensíveis. O fim da travessia não significa o fim do balanço. Ninguém fala dele, mas o Estreito de Bransfield pode ser tão (ou até mais) mau humorado quanto o Drake.

Sem muito o que fazer nesses dois dias, o tédio é inevitável. As horas parecem não passar: comer, dormir e acompanhar as palestras ganham status de programa - o lado bom é aproveitar para descansar e colocar a leitura em dia.

Mais do que em qualquer outro destino, os passeios fora do barco dependem diretamente do que manda a natureza. E aí não há boa vontade da equipe de guias que possa se sobrepor às questões de segurança. Chegamos a pegar até 50 nós (cerca de 75 quilômetros por hora), impossibilitando os zodiacs, botes de borracha que levam os turistas à terra, de descerem e frustrando os passageiros. Mas quem vai discutir com a natureza?

Em termos gerais, o verão na Antártida tem temperaturas semelhantes às das estações de esqui no inverno. Duas blusas e um casaco de neve, emprestado pelo barco, foram suficientes para mim. Só errei nos pés: no primeiro desembarque, coloquei duas meias (uma térmica e outra de lã) sob as galochas oferecidas pelo navio. Em meio à caminhada, percebi que não sentia o dedo mínimo. Desespero: voltei ao navio e coloquei os pés na água quente. Ufa, estava tudo bem. Mas passei a usar quatro meias para descer do barco.

A questão é: por que compensaria enfrentar tais dificuldades? Um show de baleias na volta para Ushuaia. Rastros azuis de um iceberg. O mar que congelou de um dia para o outro. Colônias de pinguins e focas. O divertido - e indispensável - mergulho em águas antárticas, na Ilha da Decepção. Sem falar nas amizades.

Afinal, foram 11 dias de convivência em um barco pequeno, fazendo as refeições sempre juntos - no Antarctic Dream, as mesas têm lugar para até oito pessoas, o que favorece a aproximação dos passageiros. No meu caso, formamos um grupo internacional, com representantes de Brasil, Chile, México, Austrália, Colômbia e Alemanha, que se entendeu perfeitamente, apesar dos sotaques e culturas diferentes.

Para mim, que sonhava em conhecer o continente há anos, não só valeu a pena como faria tudo outra vez. Mas, de preferência, não na primeira saída da temporada.

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