Renata Reps/Estadão
Renata Reps/Estadão

Sem palavras

A chegada à Ucrânia marca a entrada em um mundo onde os hábitos e as pessoas nos são absolutamente exóticos. No horizonte, vários pontos dourados resplandecem sob a luz do sol: as cúpulas das igrejas cristãs ortodoxas, religião predominante no país, brilham ao longe até onde a vista alcança. Nas placas de sinalização das ruas, nos painéis de informação, um outro alfabeto, o cirílico, instrumento de comunicação do povo eslavo, irremediavelmente incompreensível para quem só teve contato com idiomas ocidentais.

RENATA REPS / KIEV , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2013 | 03h17

Nos rostos redondos e olhos claros dos habitantes, expressões que não nos são muito próximas: discrição, silêncio, semblantes sérios, poucos sorrisos - embora sua simplicidade e hospitalidade tenham um quê de América Latina.

Nas estátuas erguidas em praças públicas, líderes dos movimentos comunista e socialista evidenciam um fato que será reconhecido a cada passeio despretensioso pelas cidades ucranianas: não faz tanto tempo assim, o mundo era dividido em dois. E os visitantes ocidentais ainda têm um conhecimento bastante restrito da Europa Oriental.

Sabemos pouco também das peculiaridades de se viver ou estar por lá. O nacionalismo é expressivo em uma parcela da população (e alguns podem até ser um tanto hostis a estrangeiros), bem como a memória de um passado conturbado.

Quase nada na Ucrânia será como você se habituou em viagens anteriores pela Europa. Nada de euros no horizonte: a moeda local é a impronunciável hryvnia, e são necessárias dez unidades para comprar um euro. A boa notícia é que você vai gastar muito menos do que está acostumado. Para comprar, não há muito além das ótimas vodcas e dos artesanatos multicoloridos.

O outono começa antes no país, mais ou menos no início de setembro - e, em outubro, as temperaturas já chegam a marcas invernais. O terminal nacional do aeroporto de Kiev faz lembrar as nossas rodoviárias. Na capital, até é possível encontrar serviços e informações em inglês - facilidade mais rara na medida em que se desce ao sul, em direção à Crimeia.

Criatividade. Este país tão pouco visitado pelos brasileiros tem uma cena cultural, quem diria, em plena ebulição. Em Kiev, murais e painéis pintados a céu aberto dividem espaço com as centenas de galerias de arte contemporânea, enquanto os parques são repletos de esculturas criadas por artistas locais.

A Eurocopa, realizada em 2012, trouxe inúmeros progressos para o turista, como melhorias nos transportes aéreos e terrestres. Trens rápidos foram inaugurados entre as principais cidades ucranianas especialmente para o torneio. Os reflexos também foram sentidos na rede hoteleira - de acordo com a Embaixada da Ucrânia no Brasil, 70 novos hotéis e 16 mil acomodações foram inaugurados antes do torneio de futebol.

A austeridade simpática que marca o país e seu povo me acompanhou durante uma semana, em uma viagem dividida em dois momentos: dois dias em Kiev e quatro na República Autônoma da Crimeia, Estado localizado no sul do país. O contraste entre a efervescência de Kiev e a serenidade do antigo território russo provou que a Ucrânia tem tantas nuances que apenas uma visita não dá conta de desbravar. Entre praias, memórias e as inevitáveis confusões idiomáticas, um país surpreendente.

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