Sem pressa

Roteiro que une Lençóis Maranhenses, Delta do Paranaíba e Jericoacoara revela formações singulares e intocadas para serem contempladas tranquilamente

Tiago Queiroz - O Estado de S. Paulo

11 Maio 2010 | 03h57

Pôr do sol. Rio Novo, protagonista das muitas lendas de Paulino Neves. Foto: Tiago Queiroz/AE

 

SÃO LUÍS - Cartier Bresson, fotógrafo viajante, costumava dizer que para conhecer de verdade um lugar era preciso permanecer ali por um ano. Ter toda essa disponibilidade é difícil, mas bastam 12 dias para percorrer os 360 quilômetros da Rota das Emoções, que integra as paisagens de Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e Jericoacoara. O início da jornada fica a critério do viajante. Seja por São Luís ou Fortaleza, o caminho reserva mergulhos em lagoas cristalinas, avistar o pôr do sol em cenários que mais parecem pinturas e a oportunidade de descobrir histórias e lendas locais.

 

Há roteiros que fazem o mesmo percurso em cinco ou seis dias, mas isso implica passar mais tempo dentro de vans, jipões e lanchas do que relaxando. Também não há margem para imprevistos: atolar em uma duna pode significar ter de abrir mão de ver uma lagoa ou descobrir um pequeno povoado.

É com tranquilidade, portanto, que quem escolhe começar a jornada pela capital maranhense descobre o centro histórico. São 4 mil casarões e sobrados coloridos, construídos entre os séculos 18 e 19. No fim do século 18, para amenizar o calor, os portugueses trouxeram os azulejos que se tornaram a marca registrada da fachada das casas. Hoje, quase mil desses casarões integram a lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco.  

 

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Flanar por essas ruas de sobrados centenários é uma delícia. Desde os anos 1980, quando o Projeto Reviver restaurou o patrimônio e fez melhorias no casario, é possível encontrar restaurantes, pousadas, lojas de artesanato e uma animada vida noturna na região, que acabou conhecida como Reviver. Aproveite para visitar o Teatro Arthur de Azevedo, construído em estilo neoclássico entre 1815 e 1817.

Completo o circuito histórico, é hora de partir para Barreirinhas, porta para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, onde há dezenas de opções de pousadas e até resorts de luxo.  

 

Imensidão. Lagoas de água doce surgem em meio ao mar de areia. Foto: Tiago Queiroz/AE

Transição. A característica de transição geográfica entre as regiões Norte e Nordeste fica evidente em Barreirinhas. No Rio Preguiça, que margeia toda a cidade, a vegetação densa e os grandes barcos fazem o visitante pensar, por alguns momentos, que está em algum rio da Amazônia. Por outro lado, quem navega por suas águas calmas ainda descobre áreas de dunas, sinal de que a principal atração está logo ali.

Toyotas com bancos adaptados na carroceria cruzam uma trilha de areia de 10 quilômetros até o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses - só veículos 4X4 chegam ao local. Parece pouco, mas quem sacoleja pelos 40 minutos do trajeto tem a sensação de a distância ser maior.

A quantidade de estrangeiros que visita os Lençóis é grande. Você pode acabar sentado ao lado de um grupo de japoneses, com um casal de alemães à frente e uma garota inglesa ao fundo. Mistura condizente com a história do Maranhão, cuja capital foi fundada por franceses, teve o território ocupado por holandeses, passou pelos portugueses e sofreu influência cultural dos escravos vindos da África.

Chegar às dunas está no rol das experiências inesquecíveis. São quilômetros de montanhas de areia de até 40 metros de altura entremeadas por centenas de lagoas de diversas tonalidades, formadas pelas chuvas. A mais visitada é a Azul, mas vale a pena reservar um dia para ir à Bonita. Os passeios saem pela manhã e à tarde - o segundo horário é o mais disputado. Além de fazer menos calor, há uma atração extra: o pôr do sol.

 

Raridade. Rio Parnaíba é um dos três únicos que deságuam em mar aberto. Foto: Mônica Cardoso/AE

Igarapés e mangues. De volta a Barreirinhas, aproveite para navegar pelas águas do Rio Preguiça - voadeiras cobram R$ 50 pelo passeio, que dura o dia todo. Igarapés e regiões de mangue, assim como buritis e carnaúbas, surgem no caminho. Caranguejos vermelhos correm para suas tocas na lama, enquanto filhotes de jacarés se escondem nas raízes aéreas do manguezal.

Após passar por Vassouras, a primeira parada, chega-se ao vilarejo de pescadores de Mandacaru, comunidade que cresceu após a construção do farol marítimo. Trata-se da principal atração do lugar - aproveite para fazer belas fotos panorâmicas lá do alto -, mas o que emociona mesmo é ser recepcionado pelas crianças cantando Luiz Gonzaga. Vale ainda comprar artesanato feito de folhas de buriti, como colares e bolsas produzidos pelas mulheres da comunidade.

A lancha ancora no rio em Caburé, a parada seguinte. E basta uma caminhada de dez minutos para chegar ao mar - apenas uma faixa de areia separa a água doce da salgada. Há algumas pousadas na pequena vila (para matar a fome, o restaurante do Paulo serve um honesto peixe frito com baião de dois).

O vilarejo não tem eletricidade, apenas geradores, desligados depois das 22 horas. Mas é um bom lugar para quem ficar mais próximo da natureza sem abrir mão de certo conforto. Pague mais R$ 15 para terminar o roteiro como se deve: vendo o encontro das águas do Preguiça com o mar, já no vilarejo de Atins.

BATE-VOLTA

Rio da Cardosa

Distante 40 quilômetros de Barreirinhas, o Rio da Cardosa é repleto de atrações. Perto dele, um lago de águas cristalinas, cercado por buritis, convida a um banho refrescante. Alguns quilômetros à frente, turistas descem o Cardosa em boias de caminhão - com coletes salva-vidas, é claro. São cerca de 2 quilômetros percorridos em uma hora. Preço: R$ 40.

Como os nativos

Se estiver com tempo, dispense as voadeiras e embarque em um dos barcos de linha do Rio Preguiça. Eles demoram até 5 horas para fazer o trajeto que a voadeira cumpre em 1 hora, mas permitem que você aprecie a paisagem e tenha contato com os moradores. Sem falar do preço: R$ 10. Nesse caso, durma em Caburé ou Atins - os barcos não retornam no mesmo dia.

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