Sensação de espanto que, anos depois, ainda dá saudade

Conseguir um trabalho voluntário fora do País e ter a sensação de estar fazendo algo pelos outros e pelo planeta são ideais que povoam a cabeça de muita gente. Comigo não era diferente. Em 2008, munido de tempo livre e vontade de fazer a minha parte, garimpei opções na internet. No entanto, o processo não foi nada simples. Em uma despretensiosa busca com os termos "trabalho voluntário na África", surgiram milhares de resultados.

Cenário: Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2012 | 02h09

Ao me aprofundar, percebi que a maioria das ONGs estava mais interessada em contribuição financeira do que em mão de obra ou ideologia. Pagando cerca de US$ 1.600, eu teria direito a trabalhar por uma semana ou duas (sem aéreo) - se quisesse ficar três meses, iria à falência. Nada feito.

Após uma longa peneira encontrei o Seven Interchange Network (the7interchange.com), uma rede social em que voluntários se cadastram e ONGs procuram os mais adequados ao seu perfil. Batata! Alguns dias depois estava trocando e-mails com um membro da família Odula (odulafamily.blogspot.com.br), que mantém um amplo projeto educativo em Rusinga Island, ilha no Lago Vitória, o maior da África, a 18 horas em ônibus, táxi e moto desde Nairóbi, capital do Quênia.

A função era interessante: ensinar noções de educação ambiental e sexual a meninos de 14 a 17 anos na Tom Mboya High School. O custo era simbólico - US$ 4 ao dia - apenas para alimentação, já que a hospedagem era na casa da família. O gasto com transporte compensava, visto que despesas por lá foram muito poucas.

Meus três meses ali foram inesquecíveis: o implacável silêncio e a atenção às minhas aulas, o olhar curioso dos meninos que queriam saber cada vírgula do que aquele muzungo (homem branco, na língua swahili) tinha a dizer. Sem contar as minhas obrigações na casa, como buscar água em lombo de burro, procurar lenha e ajudar o patriarca Michael Odula a carpir o terreno. A imersão foi tamanha que, depois de três semanas sem me olhar no espelho, fazer a barba e nem ver outro branco, me espantei quando dei de cara com outra pessoa da minha cor. Além do carinho da família e da troca de experiências, é desse espanto que sinto saudade.

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