Aryane Cararo/Estadão
Aryane Cararo/Estadão

Siena medieval, como se o tempo não tivesse passado

"Montaperti!" Basta um florentino provocar que a resposta do morador de Siena provavelmente será essa. Montaperti foi local de uma batalha em 1260 em que Siena ganhou da rival Florença. Foi a única e faz tempo. Mas não parece. Andando pelas estreitas ruas de pedra, pelos 7 quilômetros de muralhas e vendo os predinhos dos séculos 13 a 16, com suas graciosas portas e janelas, parece que o tempo não passou. Siena é uma das mais preservadas cidades medievais da Itália e foi quase toda ornamentada no estilo gótico. Está na lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco.

Aryane Cararo/SIENA, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2013 | 02h11

E não é só a arquitetura que transpira Idade Média. As pessoas preservam festas tão antigas que é difícil não se imaginar no passado. A Palio di Siena é a maior delas. Realizada nos dias 2 de julho e 16 de agosto, a tradicional corrida de cavalos, que surgiu no século 17, reúne milhares e paralisa a cidade na Piazza del Campo - uma praça do século 12 em formato de concha. Nessas datas, representantes das 17 contradas (espécie de bairros, todos com nomes de bichos) participam da festa com bandeiras, estandartes e trajes típicos. Mas apenas dez cavaleiros correm (sem sela!). Eles precisam dar três voltas na praça e ganha o cavalo que chegar primeiro, mesmo que tenha perdido o jóquei no caminho.

Em todos os outros dias, a praça é um convite para piqueniques ou um aperitivo nos bares ao redor. Sem bancos ou árvores, é uma das mais belas da Itália, ainda mais por ter ao fundo o belíssimo e gótico Palazzo Comunale ou Palazzo Pubblico, de 1297, que hoje abriga o Museu Cívico. Retrato de uma época em que Siena foi muito rica.

A cidade ficava na rota de mercadores, artistas e peregrinos que seguiam pela Via Francigena - um caminho que começava em Canterbury, na Inglaterra, e terminava em Roma, com 77 paradas. Pelo movimento, a via se transformou na rua do comércio e das finanças e abriga, até hoje, o banco mais antigo do mundo em atividade, o Monte dei Paschi di Siena (1472). Ele funciona no Palazzo Spannocchi, construído em 1460, sob influência renascentista - e exibe cabeças de italianos ilustres esculpidas na fachada, como Dante Alighieri.

Filhos de Remo. Bem perto dali fica a estátua da loba com Rômulo e Remo, muito semelhante à de Roma, mas com uma sutil diferença: ela fica em posição de ataque, para defender a cidade, e não olha para os gêmeos. Conta a lenda que os filhos de Remo, Aschio e Senio, fugiram de Roma para escapar do tio Rômulo e cavalgaram até a Colina de Castel Vecchio. Ali, pediram aos deuses para fundar a cidade. Fato é que Siena possivelmente já existia no tempo dos etruscos, mas só no século 1º a.C. é que foi organizada, quando os romanos fundaram a colônia militar de Sena Julia. Foi uma cidade esplendorosa no século 13, mas a epidemia de peste negra em 1348 dizimou dois terços de seus 100 mil habitantes. Por causa da epidemia, a catedral também ficou incompleta.

Construída a partir de 1215, foi projetada por Giovanni Pisano e tem fachada de mármores branco, verde e vermelho com esculturas. Já era um espetáculo arquitetônico de fazer peregrino se impressionar. Mas, nove anos antes da peste, decidiu-se que ela seria a maior catedral da Itália. A epidemia atrapalhou os planos. Ainda assim, ir a Siena e não entrar na catedral é quase um pecado. Ela é magnífica por dentro. A começar pelo chão de mármore marchetado, com 56 painéis de motivos históricos e bíblicos, além de figuras geométricas em combinação harmônica - um trabalho que levou mais de 200 anos. Mas é o teto que faz os olhos brilharem: uma abóbada azul celeste com inúmeras estrelas douradas.

Prepare o pescoço: há muito o que olhar para cima. No anexo lateral, a Libreria Piccolomini é um assombro de cores vivas e dourado. Construída para abrigar os livros do papa Pio II, tem impressionantes afrescos de Pinturicchio (1502 a 1507), o artista mais famoso da época, que narram a vida do papa. É muita beleza, um excesso de detalhes. Não se faça de rogado: contemple tudo e, quando se der por satisfeito, siga para outro dos bons pecados de se cometer na Toscana - experimentar os doces com base de amêndoas como o panforte , o cantuccini e o ricciarelli, que desmancha inexplicavelmente na boca. Você pode encontrá-los todos na loja mais tradicional de lá, a Antica Drogheria Manganelli, de 1879. Separe muitos minutos para ela. Vale cada descoberta nas prateleiras. / ARYANE CARARO

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