Juliana Sayuri/Estadão
Juliana Sayuri/Estadão

Sob o véu, uma capital em ritmo de Ocidente

AMÃ - Às 5h30 o céu ainda está estrelado quando reverbera a primeira voz. Uma voz dramática e vibrante, triste, mas linda. É o chamado para a fajr, a oração da alvorada. Enquanto o sol timidamente risca o céu com seus primeiros raios, a melodia se alastra pelas mesquitas da cidade branca. Assim, Amã desperta.

Juliana Sayuri , O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2013 | 02h22

Com 2 milhões de habitantes e uns 10 mil anos de história, a capital jordaniana mescla presente e passado com uma harmonia impressionante. Por um lado, o burburinho tipicamente urbano, nas ruas do moderno bairro Abdoun e nas melódicas conversas do centro (Balad), onde as galerias e lojas abertas das 11 às 23 horas são tomadas por um colorido vaivém de gentes: berros para ofertar badulaques e lenços, camelôs com perfumes Hugo "Boos" e "Carteir" no meio-fio, mercados de ouro 21 e 24 quilates legítimos nos quais noivos vão garimpar dotes para suas amadas. Ali, as três cores do semáforo têm efeito meramente decorativo - e carros e pedestres simplesmente compartilham vielas caóticas (trânsito intenso), mas tranquilas (sem ladrões).

Por outro lado, Amã privilegia o silêncio. É quase um convite para momentos de contemplação, como na cidadela (Jebel al-Qala'a), o ponto mais antigo da capital. Do alto, é possível observar o labirinto de casas brancas e beges, tradicionais construções de calcário, outrora maior acampamento de refugiados palestinos do mundo, principalmente após os massacres de 1948 e 1967. Ali, por volta das 18h45, é possível sentir o chamado para a salát al-maghrib, a oração do crepúsculo, e "ver" a música se espalhando entre as mesquitas. Logo ao lado, as ruínas do teatro romano (Hashemi Street) também convidam para minutos de paz: vale entregar-se às amplas arquibancadas da arena de 6 mil lugares, datadas do século 2º d.C., para aproveitar a brisa e a sombra nessa cidade árida.

O ar mais fresco da noite pede um passeio pela Rainbow Street, no bairro histórico de Jabal. Frequentada por hipsters de Amã, a rua é ótima para flanar entre restaurantes modernos, livrarias legais e galerias de arte, cafés, butiques e antiquários.

Laços sensíveis entre presente e passado também estão no povo. As jovens combinam o tradicional lenço cobrindo os cabelos com piercings e maquiagem colorida, enquanto os rapazes conservam o hijab vermelho e branco (cores herdadas da colonização inglesa) com All Star, Lacoste e Ray Ban. Algumas senhoras sorriram com os olhos ao me ver, sem véu, caminhando pelas ruas - outras franziram a expressão, demonstrando certo desagrado. Nas ruas do souk, mulheres de burca caminham diante de outdoors com campanhas de beleza ocidentalizadas. Nas ruínas gregas e romanas, senhores muçulmanos sentam para pensar na vida e conversar, mesmo que por mímicas, com fotógrafos forasteiros.

Esses contrastes conferem certa flexibilidade cultural à capital, o que faz o viajante se sentir bem-vindo. Uma das mais antigas cidades do mundo permanentemente ocupadas, Amã (antiga Filadélfia) já foi habitada por diversas civilizações, como assírios, egípcios e persas. Desde 8.500 a.C., foi abalada por conquistas, guerras, terremotos, até encontrar seu próprio ponto de equilíbrio: uma cidade moderna erigida nas areias do tempo.

*Viagem a convite de Jordan Tourism Board.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.