Roman Nemec
Roman Nemec

Sobre as costas do 'gigante de ondas'

“Ver que, por mais que tu planeje a situação, ela ainda foge do teu controle, foi aterrorizante e fantástico! Verdade é que é preciso presença de espírito e um plano B. No mar, quem manda é a natureza, a mãe Terra”, comenta Rodrigo C. G. Martini, empresário.

Ramon, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2017 | 02h30

O sol nascente ilumina os imponentes penhascos perto da baía Engaño. Um vento fresco e quente sopra do sul e nos permite relaxar um pouco após a “batalha” no Cabo Blanco, onde os vagões de água se levantaram até 4 metros próximo ao farol. Não sabíamos, porém, que aquele havia sido apenas o primeiro ato do drama marítimo que se iniciava. A pressão atmosférica caía para 989 hPa e a previsão meteorológica nós avisava que haveria ventos fortes do sudeste. Porém, no momento, não é possível ver nenhum sintoma de uma frente progredindo.

Depois da meia-noite, nós deitamos, já vestidos com roupas de tempo. Eu, na verdade, durmo com um olho fechado e outro aberto. De repente, as ondas se levantam e, no segundo pavimento, tudo o que não está fixo voa pelos ares. Às 2h30, começam rajadas de 45 nós. O capitão, Tiago e eu corremos para o convés para baixar a vela grande, nossa manobra mais perigosa até agora. Ainda está escuro, então só conseguimos imaginar a dimensão das ondas. “O pior é que o convés escorrega sob os pés!”, lamenta Tiago.

O mar fica agitado pelas próximas 18 horas. Apesar de estar dentro do barco, é um inferno para todos e só eu permaneço no cockpit. O vento furioso chicoteia o mar e pega a espuma do topo de ondas gigantescas, as quais sobem até seis metros. Elas nos perseguem incansavelmente e levantam o barco para logo depois cairmos novamente no abismo azul escuro. Os vales são largos e é quase possível prever cada intervalo e se preparar, pelo menos para quem consegue enxergar.

 

Depois de uma hora de observação, já me acostumo e, corajosamente, tiro a câmera para poder registrar essa batalha do barco com os elementos naturais. Cada onda inesperada que se quebra na proa me impregna com água salgada e gelada. Após um tempo, Felipe também me acompanha e, com espanto, assistimos a essa beleza selvagem. “Quem não experimenta, não acredita!”, grita Felipe, entusiasmado com o rugido do vento e das ondas. Ao voltar para minha cabine, só me resta rir alto quando vejo o caos ao redor: as gavetas estão abertas e caídas, os talheres e os copos estão no chão, misturados com os salgadinhos.

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