Sobre os 312 países visitados por Mr. Miles

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2016 | 02h30

Alguns leitores desta coluna notaram uma discrepância no número de países visitados por Mr. Miles. Um deles, Arther de Lucca, de Goiânia, reparou que, em relação ao número de delegações que se apresentaram na Olimpíada do Rio de Janeiro, os mencionados 312 países representam um surpreendente acréscimo de 61,65%. Já Vitor de Barros, de São Paulo, tem certeza de que ocorreu um erro. “De 183 para 312 de uma vez só? Não pode ser.”

Mr. Miles explica, de próprio punho, o que ocorreu.

“Queridos leitores: alguns matemáticos, numerólogos, estatísticos e espíritos de porco, as you know, andaram questionando o epíteto de ‘homem mais viajado do mundo’ que carrego, orgulhosamente, neste espaço. Muito deles, I must say, provaram que viajaram mais do que os 183 países antes mencionados na coluna. 

Já tive o prazer de confessar que tal cifra é uma mera brincadeira, resultante de um galanteio ocorrido nos anos 60 na Califórnia. Na ocasião, fui entrevistado por uma belíssima repórter do San Francisco Chronicle, com quem quis, por razões óbvias, prolongar a conversa. A certa altura dos acontecimentos, ela me perguntou quantos países eu já havia visitado. 

Eu não tinha a menor ideia, porque não sou um colecionador de viagens, desses que colocam alfinetes no mapa-múndi como troféus. However, para garantir um segundo encontro com Virginia (esse era o nome dela), comprometi-me a pesquisar e entregar-lhe a informação solicitada em um segundo jantar. Foi assim – shame on me – que inventei o número 183, que costumava me dar sorte.

Confesso que, a julgar pelas noites tórridas que vivemos na semana seguinte, o amuleto numérico funcionou às mil maravilhas.

Well: com o passar do tempo, sofri novas contestações. E decidi ir mais a fundo na investigação, embora ainda a considere uma curiosidade useless. Minha tia Gwineth, que mora em Birmingham e adora viajar, já havia me contado que tinha adquirido um mapa-múndi recente, de 3 metros de largura por 2 de altura. ‘ There is no other as big as mine in the city’, contou-me alegremente.

Decidido, tirei meu carro preferido, um Lagonda V12 Drophead Coupe 1938 (que deixo guardado na imensa garagem de Lord Pickwic) e fui até a casa de titia. Dei-me ao trabalho de verificar minuciosamente o belo mapa e, após oito horas de trabalho, uma kidney pie e alguns biscoitos amanteigados, cheguei à surpreendente informação de que já visitei todos os países do mundo. Uns mais, outros menos, o fato é que essa é a pura verdade.

Resolvi, então, pesquisar quais países tinham mudado de nome, de regime e de fronteiras, para adicioná-los à conta também. Por exemplo: a primeira vez que fui a Kotor, a cidade pertencia à Iugoslávia; quando retornei, era território da Sérvia. E, agora (por enquanto) passou a fazer parte de Montenegro.

O fenômeno repete-se mundo afora: Zimbábue já foi a soma da Rodésia do Sul com a do Norte; a Tanzânia chamava-se Tanganica; havia uma Somália britânica e outra italiana. Na Ásia, a bela Birmânia, que conheci com Rudyard (N. da R.: Rudyard Kipling, escritor britânico), chama-se agora Mianmar; o Ceilão (what a beautiful name, isn’it?) hoje é Sri Lanka.

Essa curiosa superposição ocorreu em dezenas de lugares que, quase sempre, mudaram seus regimes políticos, seus hábitos e a essência da própria nação. Considerei, então, muito justo incluir a Indochina, Burkina Faso (antes Alto Volta), a Basutolândia, que agora atende pelo nome de Lesotho, e muitos outros.

O resultado final, portanto, chegou a 312 países visitados – número que a querida redação resolveu estampar para dirimir dúvidas. 

Só lamento que não surja, nesse instante, uma repórter linda como Virginia – a quem contaria toda essa história de novo. Ou será que ainda tenho alguma chance, my friends?

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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