Sochi, o balneário dos camaradas

Sede dos Jogos de Inverno de 2014, o resort preferido de Putin quer ser uma Riviera Francesa. Mas falta muito...

Joshua Yaffa, The New York Times

24 Fevereiro 2009 | 02h26

Yana Paskova/NYT

Quem sobe as montanhas nas gôndolas tem, do alto, a vista de um vale verde com o Mar Negro logo abaixo  

 

De onde eu estava, Tolstoi parecia ter retratado corretamente todos os detalhes. Um rápido riacho corria atrás de mim e na minha frente estavam montanhas cobertas por uma misteriosa floresta. A única coisa que Tolstoi deixou de fora da descrição no romance Hadji Murad foi o ski lift de alta velocidade, recentemente construído no Cáucaso pela companhia de energia russa Gazprom.

As gôndolas, com assentos cheirando a carro novo, haviam acabado de me deixar no topo da montanha, com a vista de um largo e verde vale, e o Mar Negro logo abaixo. Dividi a subida com Vladimir Makarenko, representante da gigante estatal Gazprom, que estava vistoriando a construção da estação de esqui em Krasnaya Polyana, uma vila logo abaixo de Sochi.

Em julho de 2007, Sochi, um resort russo no Mar Negro, conseguiu ser escolhido para abrigar os Jogos de Inverno de 2014. E, desde essa época, burocratas e investidores não saem da cidade. Sochi é, há muito tempo, a área de lazer preferida do primeiro-ministro Vladimir Putin. E sua promessa de investir recursos governamentais da ordem de US$ 12 bilhões para desenvolver a região ajudou muito na escolha da cidade - balneário ícone da Era Soviética - para sede dos Jogos.

No alto da montanha, Makarenko me mostrou a pista favorita de Putin. Em abril, o primeiro-ministro visitou o recém-aberto resort de esqui. "Ele esquiou aqui", apontou. "E ali, ali, acolá." O frenesi de Putin nas pistas foi equivalente, se não ultrapassado, pela correria para cumprir as metas de desenvolvimento à beira-mar. O objetivo, de acordo com o governo russo, não é apenas preparar Sochi para os Jogos, mas transformar a cidade em um resort turístico em estilo mediterrâneo, aproveitando as temperaturas que ultrapassam os 20 graus a partir de maio.

Esse glamour mediterrâneo, por enquanto, passa longe ou se restringe a locais como Sinee More ou Blue Sea, um restaurante com mesas cobertas de branco e um deque de madeira de frente para o mar. Com suas estradas precárias e seu serviço desleixado, Sochi se parece menos com a "nova Riviera Russa" e mais com o balneário soviético de outrora.

Na época dos czares, aristocratas russos corriam para a região subtropical nos arredores de Sochi para banhos relaxantes em fontes minerais. Em 1919, com a guerra civil, Lenin tentou transformar a cidade no paraíso para os trabalhadores soviéticos, ordenando a construção de dúzias de grandes spas. Na sequência, Sochi virou destino predileto de Stalin, cuja imensa vila, construída em 1937, agora funciona como hotel e museu.

Por ser uma opção de viagem barata, sem a necessidade de visto, Sochi tem entre seus principais visitantes pessoas de áreas menos cosmopolitas da Rússia. Por isso mesmo, a cidade oferece hoje um quadro mais real do país que uma visita a Moscou ou São Petersburgo.

Para a construção da nova Sochi, o governo está recebendo pesados investimentos dos maiores empresários russos, dos bilionários dos metais e dos oligarcas do setor energético, que mantêm uma simbiose com o Kremlin. Não se sabe se a crise mundial vai afetar os planos de desenvolvimento da cidade.

Em uma tarde, fiz um tour pelo Grand Hotel Rodina, um antigo sanatório da Era Soviética transformado em hotel-butique alguns anos atrás - e com gastos consideráveis. Sentei no terraço, de frente para a praia privativa do hotel, e tomei um suco fresco de maçã e cenoura.

INCIDENTES

Na saída, fui parado pelo segurança, que alegou ser meu comportamento "misterioso" e "estranho". O que aconteceu depois disso foi ainda mais estranho. Um guarda me levou até um grupo de policiais parados logo na frente do portão do hotel. Lá, fui interrogado por mais de uma hora. Queriam saber exatamente o que eu fazia no Rodina naquela tarde.

A questão teve de ser resolvida na delegacia. Mandaram que eu sentasse no banco de trás do jipe policial e me levaram até lá, com a luz do carro piscando. No distrito, mais uma rodada de perguntas. E, finalmente, me deixaram ir, depois de tirarem uma cópia de meu passaporte. Foi um azar, algo aleatório e infeliz. Mas voltei para o hotel pensando no futuro de Sochi como um balneário europeu. E na cidade como sede de um dos mais rentáveis eventos esportivos do mundo.

No meu último dia na cidade, tomei um táxi para Imeretinskaya Bukhta, um vilarejo litorâneo a 30 minutos de Sochi. De acordo com os planos do comitê organizador dos Jogos de Sochi, esse seria o lugar do Parque Olímpico de Sochi, com casas para atletas e visitantes.

Primeiro, todos na cidade deram boas-vindas aos Jogos e ao desenvolvimento que ele trará. No verão, entretanto, os moradores foram notificados que suas propriedades estão na futura zona de construção e vão ser confiscadas pelo Estado. Eles não sabem quanto receberão pelos terrenos ou para onde serão transferidos.

Lá no horizonte, Krasnaya Polyana, onde a Gazprom está construindo seu resort de esqui. "Quem vai querer sair desse lugar lindo?", perguntou Alek Lee, proprietário de uma casa na região e líder dos protestos contra a desapropriação. Olhei para o mar, entre o azul e o prateado, e depois para as famílias russas andando na areia, com cheiro de água salgada e segurando suas boias infláveis. E tive de concordar.

Mais conteúdo sobre:
sochi putin jogos de inverno viagem

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.