Bruna Toni|Estadão
Bruna Toni|Estadão

Sossego e história pelas montanhas capixabas

"Eu sou o passageiro / Eu fico sob o vidro / Eu olho através da minha janela tão clara / Eu vejo as estrelas saírem à noite / Eu vejo o céu brilhante e vazio..." - 'The Passenger', Iggy Pop

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2015 | 04h59

VIANA - Sentadas sobre a estreita calçada – a mais velha, bem acomodada em uma cadeira de praia –, duas mulheres observam, sem nenhuma pressa no olhar e no corpo, o grupo de turistas afobados descerem, um a um, dos vagões do Trem das Montanhas Capixabas.

A culpa não é deles (nem desta repórter que vos escreve). Os dez minutos de parada na estação ferroviária de Domingos Martins, pequeno município a 42 quilômetros da capital Vitória, são enxutos demais para não tentarmos fazer tudo o que é possível: circular pelo entorno, fazer merecidos registros fotográficos e comprar quitutes comuns à região, como o peculiar crispim, vendido em saquinhos a R$ 7, e licor de jenipapo, a R$ 8.

Com ou sem culpa, é de fato um erro não parar para prestar atenção a essa cultura de quem senta em frente a velhos casarões coloniais para simplesmente ver o tempo passar.

“Vou para onde Deus me levar”, diz Ernesto Tasso Júnior, ao lado da mulher Jane Marmo Tasso. Nas poltronas de couro de um vagão para até 56 passageiros, o casal de aposentados parece ter compreendido a “alma” do passeio: vivenciar um ritmo diferente do encontrado nas metrópoles. Uma vida onde as horas passam sem alarde.

À moda europeia. Domingos Martins fica no meio do caminho entre Viana, nosso ponto de partida, e Marechal Floriano, cidade-destino de quem embarca na litorina (composições nas quais cada vagão tem seu próprio motor) administrada, hoje, pela Serra Verde Express. Os passeios funcionam aos fins de semana, com passagens desde R$ 112 (só ida; adultos). Há também pacotes para um dia completo pelas montanhas capixabas que incluem transfer; a partir de R$ 350 (sem almoço).

Juntas, as três cidades são cortadas por um trecho férreo que, em seus tempos áureos, no início do século 20, era chamado de Leopoldina Highway, em homenagem à imperatriz Maria Leopoldina, e integrava um complexo sistema que corria os litorais do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, invadindo o interior da vizinha Minas Gerais.

Já sem o status novecentista, a Estrada de Ferro Leopoldina ainda preserva, porém, o charme à moda europeia, principalmente em suas três paradas.

Tanto Viana, a primeira cidade na subida da serra – ou montanha, para ser mais fiel às denominações geográficas –, quanto Domingos Martins são um mergulho nas culturas açoriana, alemã e italiana, com seus casarios coloniais e acervos imperiais. Na hora de embarcar, será inevitável a visita ao Museu Ferroviário de Viana, que funciona dentro da antiga estação, construída em 1895 – um dos prédios mais antigos do Estado. Com tempo, vale estender até o Museu Histórico e Casa de Cultura e a Igreja Luterana, ambos em Domingos Martins.

Natureza secreta. As duas horas e meia dentro da litorina, a uma velocidade reduzida de 17 quilômetros por hora (bem abaixo dos 100 quilômetros por hora que ela pode atingir) são servidas de histórias que misturam realidade e ficção. O cenário é a mata secundária que cobre toda a subida da serra, até Marechal Floriano, 540 metros acima do nível do mar.

Formada por bambuzais de várias espécies, pés de canela e orquídeas (ponto forte da região), a natureza agrega à paisagem vestígios da passagem humana, como a ponte suspensa sobre o Rio Jucu, que antecede o túnel da Usina Jucu, a primeira do Estado, de 1909. E sobre-humana também, caso você caia nos contos da guia do trem sobre esconderijos do saci-pererê e da cuca na região.

A chegada a Marechal Floriano, ou “Cidade das Orquídeas”, completa o roteiro ecológico do passeio. Emancipada de Domingos Martins apenas em 1991, o município de pouco mais de 14 mil habitantes revela um lado capixaba pouco explorado e divulgado. Só na cidade, há a Cachoeira do Bem-te-vi, cercada por um jequitibá secular, bromélias e orquídeas, a Gruta Nossa Senhora de Lourdes e dois orquidários, Nego Plantas e Florabela Orquídeas, que fazem a despedida do trem ganhar um aroma especial.

ONDE FICAMOS

A qualidade dos serviços oferecidos pelo Senac pode ser comprovada em uma noite – ou apenas em um jantar – no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória. Dentro do conceito de hotel-escola, onde os alunos colocam em prática seus conhecimentos, o hotel é referência na área gastronômica em terras capixabas. Os quartos são grandes, a maioria com vista para o mar – melhor ainda se a sua porta der direto para a piscina. Diárias desde R$ 242, em quarto duplo. A 1 hora da estação de trem de Viana.

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